VERGONHA GLOBAL

 

            Do alto do seu ateísmo o prémio Nobel português José Saramago referiu recentemente, a propósito da sua última obra: “Não sou optimista, logo não escrevo romances optimistas. Aliás, nos tempos que correm, o optimismo é uma obscenidade. Em cada quatro segundos, morre uma pessoa de fome...” (José Saramago, Visão, n.º 498, 19 a 25 Setembro 2002, p.115).

            Sobre o recente lançamento do livro de entrevistas de Mário Soares com Dominique Pouchin, o antigo Presidente da República segundo a opinião do jornalista Mário Mesquita no Jornal Público (20.10.2002), não consegue reeditar a sua visão optimista sobre o mundo: “A imagem de marca de Mário Soares caracteriza-se pelo optimismo. Quando muitos oposicionistasa já não acreditam na queda do salazarismo, Mário Soares, prevê a sua aproximação. Quando Kissinger lhe profetiza o destino de Kerensky, o então secretário-geral do PS acredita na democracia portuguesa. Quando o país mergulha na crise económica e no pântano institucional dos anos 70-80, Soares permanece fiel à sua visão optimista. Neste ano da graça de 2002, a atitude do antigo Presidente permanece positiva e voltada para o futuro, mas dir-se-ia que a situação internacional é de tal modo catastrófica que se torna impeditiva de uma reedição do habitual optimismo de Mário Soares.” A dado passo o líder político faz a seguinte análise: “O nosso mundo desregulado será cada vez perigoso e incerto. Apesar das capacidades de destruição dos Estados Unidos, haverá novos conflitos. A violência atrai a violência, até à altura em que esta dificilmente será contida.”

 

            Será que, como cristãos evangélicos, perante as negras realidades que se desenham diante dos nossos olhos, temos o direito de ser optimistas? O optimismo e o realismo são compatíveis? Há lugar para a esperança ou trancados no pessimismo, resta-nos o salve-se quem puder? O humanismo político e económico dos sistemas democráticos permitem-nos ainda alguma expectativa? Depois da queda estrondosa do sistema comunista e quando o capitalismo e o liberalismo económico evidenciam algumas fissuras, será que é possível acreditar na emergência de uma terceira via? O que fazer? O que pensar? Como agir? Qual o papel da Igreja e dos discípulos de Jesus Cristo enquanto esperamos a Sua segunda vinda?

            Os dados são realmente alarmantes e é preciso que não os escamoteemos, senão vejamos:

            HÁ DOIS MILHÕES E MEIO DE POBRES EM PORTUGAL (Público, 18 de Outubro de 2002) – “Dois milhões e meio de pobres em Portugal, incluindo perto de 400 mil imigrantes, foram os números apresentados pela União das Instituições Particulares de Solidariedade Social (UIPSS), durante uma conferência de imprensa, ontem, no Porto, no Dia da Luta Contra a Pobreza.”

            PEDIATRAS UNIDOS PELA CRIANÇA (Público, 2 de Outubro de 2002) – “No mesmo momento em que este encontro decorre, 600 milhões de crianças vivem na pobreza. Três milhões de crianças entre os 0 e os 14 anos vivem, infectadas com sida, na África ao Sul do Sara. Estima-se que, de cem crianças que nascem, 55 das quais na Ásia e 16 em África, 33 nunca serão registadas, sofrerão de desnutrição, não vão ser vacinadas nem saber o que é água potável. Mas conhecerão, sim, os efeitos da guerra.”

            FOME REGRESSOU À ETIÓPIA (Diário de Notícias, 12 de Novembro de 2002) – “A Etiópia está a viver uma nova crise alimentar, bem mais grave do que a de 1984, e que ameaça matar de fome 15 milhões de pessoas se os doadores internacionais não intervierem rapidamente para evitar uma catástrofe.”

            ANGOLA (Diário de Notícias, 12 de Novembro de 2002) – “São pelo menos 1,5 milhões as pessoas que sofrem de desnutrição aguda. Diariamente, cinco pessoas morrem de desnutrição nos campos montados para acolher os antigos guerrilheiros da UNITA e seus familiares. O Programa Alimentar Mundial diz que até ao final de 2002, estará a alimentar 1,9 milhões de pessoas.”

            MOÇAMBIQUE (Diário de Notícias, 12 de Novembro de 2002) – “Após dois anos de cheias devastadoras, a seca afecta 90 mil hectares de terras e cem mil agregados familiares. As agências das Nações Unidas dizem que mais de 500 mil pessoas necessitam de ajuda alimentar.”

            ZÂMBIA (Diário de Notícias, 12 de Novembro de 2002) – “As autoridade dizem que 2,4 milhões de pessoas correm riscos de morrer de fome e que as reservas alimentares do país estão quase esgotadas. A escassez de mlho foi calculada em 630 mil toneladas, mas o Presidente Levy Mwanawasa tem reiterado que a Zâmbia não aceitará ajuda alimentar que inclua cereais geneticamente modificados.”

            ZIMBABWE (Diário de Notícias, 12 de Novembro de 2002) – “As ocupações de fazendas têm levado a um decréscimo da população agrícola, agravado pelas chuvas escassas. Calcula-se que seis milhões de pessoas necessitam de assistência alimentar, que o Governo parece estar a utilizar como arma política.”

            MALAWI (Diário de Notícias, 12 de Novembro de 2002) – “Registaram-se já centenas de casos de morte por fome, que ameaça 3,2 milhões de habitantes. As colheitas fracas fazem com que o Malawi necessite de 560 mil toneladas de produtos alimentares. Sida e um surto grave de cólera aumentam a mortalidade.”

            OBESIDADE 135 MILHÕES DE EUROPEUS TÊM PESO A MAIS (Jornal Público, 13 de Outubro de 2002) – “É a epidemia da sociedade da abundância (...). É a epidemia do século XXI. Quem o garante é a Organização Mundial de Saúde (OMS). E os números saltaram das entrelinhas para a ordem do dia: o planeta tem 300 milhões de obesos – 45 por cento dos quais são cidadãos da União Europeia (UE) – e tornou-se sedentário por militância. (...) Portugal não escapa à epidemia: ao todo, cerca de metade da população portuguesa encaixa no diagnóstico de excesso de peso. 35 por cento estão mais gordos do que seria desejável, os restantes 15,6 por cento são francamente obesos.”

 

            Estes números fazem-nos corar de vergonha na constatação que dois mil anos de civilização ocidental influenciada pelo cristianismo e pelo humanismo, pela ciência e pela tecnologia, não conseguiram erradicar da face do mundo esta nódoa. Ela representa igualmente o facto da natureza humana corrompida pelo pecado. Quem pode duvidar da sua existência e da sua presença diante destes números.

            Todo o desenvolvimento humano continua malignamente a enriquecer os mais ricos e privilegiados e a tornar os pobres cada vez mais pobres. A desigualdade social é cada vez mais alarmante. Quando se fala na necessidade de produzir mais no mundo altamente competitivo em que vivemos o resultado é mais do mesmo. O fosso aumenta tanto entre os indivíduos dentro de uma mesma nação, como entre as nações.

 

            Podemos fazer alguma coisa?

            Sem dúvida alguma que uma das coisas que necessariamente podemos e devemos fazer é orar, para que um avivamento possa irromper e as nações sejam tocadas pelo poder de Deus de forma a que o egoísmo, o obscurantismo, a guerra, a opulência e o desperdício sejam pelo menos drasticamente reduzidos.

            A outra coisa que podemos continuar a fazer é contribuir, na medida do possível, para minorar estas flagrantes injustiças. Se por um lado a intervenção política e a denúncia destes males tem o seu lugar, não é menos verdade que os actos concretos, mesmo que pontuais, acabam por ser mais eloquentes e eficazes.

            Existe uma questão que nestes termos também se me coloca: em que medida estaríamos como comunidade e individualmente dispostos a entregar anualmente alguns dias de ordenado a uma organização evangélica, devidamente credenciada, que gerisse a sua utilização entre os mais desfavorecidos? Qual o impacto nacional de uma acção consertada neste âmbito?

            Outra questão que assalta a minha consciência prende-se com a nossa disponibilidade individual e pessoal para com mudanças políticas e sociais que visassem uma melhor distribuição da riqueza e que, de alguma forma, também afectasse os nossos bolsos, mesmo que de forma proporcional? O que é que faríamos e como é que reagiríamos se nos fosse proposto uma alteração neste domínio e que representasse alguma diminuição do nosso poder de compra?

            Argumentos não faltam e verdadeiros que salientam o oportunismo, o vicio, o absentismo, a preguiça, para muitas bolsas de pobreza que por aí se encontram. Qualquer que seja a argumentação utilizada mesmo que confirmada em alguns factos, não invalida o drama social da miséria e a necessidade de fazer alguma coisa.

            O sistema social da competição em vez da cooperação, do lucro em vez da solidariedade, acaba por se fundamentar e reproduzir no que a natureza humana tem de mais indigno. A evolução como doutrina económica da livre concorrência em que prevalece o mais forte, cria uma multidão de novos “escravos”. As multinacionais saltam de país para país em procura da mão-de-obra mais barata possível e onde os direitos dos trabalhadores sejam inexistentes.

            Se é necessária uma nova atitude por parte dos empresários e investidores, também não deixa de ser igualmente verdade que é necessária uma nova atitude por parte de cada profissional. Ou seja, são necessários empresários, médicos, advogados, professores, operários, que vejam o trabalho como um serviço antes do salário, que valorizem o trabalho antes do ordenado. A Bíblia dignifica de tal forma o labor humano que o coloca em primeiro lugar em relação a Deus, e só depois em relação à sociedade, à empresa, à escola, ao hospital, à família e ao indivíduo.

 

            O quadro apocalíptico da queda e destruição de Babilónia faz-me pensar e pergunto-me a mim mesmo se eu próprio não farei parte dos que lamentariam a sua sorte, em vez de me regozijar no seu juízo. “Ora, chorarão e se lamentarão sobre ela os reis da terra, que com ela se prostituíram e viveram em luxúria, quando virem a fumaceira do seu incêndio, e, conservando-se de longe pelo medo do seu tormento, dizem: Ai! ai! tu, grande cidade, Babilónia, tu poderosa cidade! pois em uma só hora chegou o teu juízo. E, sobre ela, choram e pranteiam os mercadores da terra, porque já ninguém compra a sua mercadoria, mercadoria de ouro, de prata, de pedras preciosas, de pérolas, de linho finíssimo, de púrpura, de seda, de escarlata, e toda espécie de madeira odorífera, todo género de objecto de marfim, toda qualidade de móvel de madeira preciosíssima, de bronze, de ferro e de mármore, e canela de cheiro, especiarias, incenso, unguento, bálsamo, vinho, azeite, flor de farinha, trigo, gado, ovelhas, e de cavalos, de carros, de escravos, e até almas humanas. O fruto sazonado, que a tua alma tanto apeteceu, se apartou de ti, e para ti se extinguiu tudo o que é delicado e esplêndido, e nunca jamais serão achados. Os mercadores destas coisas que, por meio dela, se enriqueceram, conservar-se-ão de longe, pelo medo do seu tormento, chorando e pranteando, dizendo: Ai! ai! da grande cidade, que estava vestida de linho finíssimo, de púrpura e de escarlata, adornada de ouro e pedras preciosas, e de pérolas, porque em uma só hora ficou devastada tamanha riqueza. E todo piloto, e todo aquele que navega livremente, e marinheiros, e quantos labutam no mar, conservaram-se de longe. Então, vendo a fumaceira do seu incêndio, gritavam: Que cidade se compara à grande cidade? Lançaram pó sobre as suas cabeças e, chorando e pranteando, gritavam: Ai! ai! da grande cidade, na qual se enriqueceram  todos os que possuíam navios no mar, à custa da sua opulência, porque em uma só hora foi devastada. Exultai sobre ela, ó céus, e vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus contra ela julgou a vossa causa.” (Apocalipse 18:8-20)

            Pessoalmente não acredito na possibilidade de uma sociedade fraterna, solidária e justa sem a intervenção final de Jesus Cristo na Sua segunda vinda, que antecede os novos céus e nova terra em que habitará a justiça. Mas acredito na possibilidade da Igreja militante de Jesus Cristo e de cada um dos Seus seguidores, produzirem um impacto na sociedade enquanto sal e luz de tal forma que as estruturas sociais e económicas sofram profundas alterações. Tenho visto já o suficiente para saber que quando Deus transforma uma pessoa a sua qualidade de vida, em todas as suas dimensões, experimenta uma profunda mudança.

 

            No contexto do Antigo Testamento e no que concerne a nação do povo escolhido de Deus para a concretização do plano de salvação, existem denúncias radicais relativamente à corrupção e desigualdade económica. “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante?” (Isaías 58:6,7)

            O Novo Testamento não deixa de também incluir algumas referências nesta matéria, o que deve ser pesado no argumento que, com alguma razão, contextualiza a intervenção profética no âmbito político, em relação a Israel, como não totalmente válido para o papel da Igreja e dos cristãos na sociedade actual. “(...) e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputadas colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios e eles para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer.” (Gálatas 2:9,10) “Atendei agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão corruptas e as vossas roupagens comidas de traça, o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos, e há de devorar, como fogo, as vossas carnes. Tesouros acumulastes nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, e que por vós foi retido com fraude, está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Tendes vivido regaladamente sobre a terra. Tendes vivido nos prazeres. Tendes engordado os vossos corações, em dia de matança. Tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência.” (Tiago 4:1-6)

 

            É bem verdade que a comunidade dos cristãos primitivos não precisou de qualquer mudança política e económica no império romano para viver de uma forma diferente e, nessa diferença, marcaram e traçaram influências que acabariam por introduzir algumas transformações na sociedade que, algumas delas, demoraram séculos e até milénios a se concretizarem na lei (por exemplo a escravatura e o racismo): “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos, e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa, e tomavam as suas refeições com alegria, e singeleza de coração, louvando a Deus, e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.” (Actos 2:42-47)

 

 

Samuel R. Pinheiro