“RELIGIÃO, GUERRA OU PAZ?” (*)

 

            O fenómeno é complexo e preocupante.

            O fundamentalismo, a intolerância, a violência têm acompanhado o homem desde sempre. Numa sociedade globalizada também estas tendências acabam por globalizar-se e agudizar-se.

            A par com a guerra emergem outros factos que com ela interagem e que são muitas vezes entendidos como factores determinantes e decorrentes: a fome, a pobreza, as desigualdades, a miséria.

            No nosso entender, em primeiro lugar temos que fazer diferença entre a conjuntura global perante a qual o cidadão comum se sente impotente e incapaz e o plano individual e pessoal. A forma de reacção pode ser pura e simplesmente de considerar que isso não nos diz respeito; é assunto dos políticos, dos presidentes, dos militares, dos governos. Nada mais errado porque também estas questões se conjugam nas relações interpessoais e intrapessoais.

            Em segundo lugar temos que considerar a maneira de continuarmos a aprofundar a vivência da democracia, do respeito pela liberdade, dos direitos do homem. O facto de assistirmos a atentados contra estes valores não nos pode levar a abandoná-los, mas a persistir na sua defesa e na sua melhoria.

            Temos aqui de fazer uma profunda autocrítica quando as sociedades ocidentais mergulham cada vez mais no consumismo, no hedonismo, no egoísmo, na indiferença, no desperdício, na competição desenfreada e selvagem, na ditadura da moda, na libertinagem, no vale-tudo.

            Em terceiro lugar temos que encontrar formas de saber lidar com as nações fechadas sobre si mesmas, em que dificilmente se pode agir. De que modo será possível desacreditar a intolerância, o fanatismo, o fundamentalismo, a intolerância. Como se pode introduzir uma nova atitude face ao valor do respeito pelas ideias dos outros mesmo discordando abertamente.

            Os meios de comunicação são essenciais na informação e formação.

            É necessária uma nova atitude face aos media. Pensamos que é preciso abrir espaço à solidariedade, à reconciliação, à boa vontade, à renúncia, ao perdão, ao amor, à paz, aos exemplos e modelos que vão nesta linha e direcção. Os meios de comunicação não podem continuar a ser reféns do lixo, da violência, da miséria. É importante alertar a opinião pública, mas é preciso encontrar o equilíbrio das boas notícias.

            A tolerância não pode ser sinónimo de acabar com as diferenças ou com o debate e o confronto de ideias e opiniões. Não temos que pensar todos da mesma forma. Não temos que acreditar todos nas mesmas coisas. Podemos defender pontos de vista opostos e ainda assim respeitarmo-nos. Podemos acreditar a nossa convicção ser a verdadeira e respeitarmos os que discordam de nós. É preciso não cair na tentação de reduzir tudo a preto e branco.

            Segundo a Bíblia cremos que Jesus Cristo é o único caminho para o Pai, que só através d’Ele temos salvação, que fora d’Ele a eternidade será de sofrimento, que o homem é pecador e que a sua natureza pecaminosa está na origem de determinados comportamentos, que mediante a regeneração operada pelo Espírito Santo temos a possibilidade de mudar de vida. Cremos que todos devem ter conhecimento do Evangelho e por isso o testemunho público da fé é um direito inalienável e, mesmo assim, isso não significa, nem implica, que não respeitemos e toleremos quem pensa de forma diferente. O contrário é que costuma acontecer. As nossas convicções acabam por gerar reacções de intolerância, porém não abdicamos de pensar de acordo com o que a Bíblia nos diz.

            Em conformidade com o nosso ponto de vista, a tolerância só pode ser verdadeiramente experimentada quando, face a convicções opostas, ainda assim respeitamo-nos. Pensamos que isso é possível e desejável e, pela nossa parte, procuraremos viver desse modo.

            Como cristãos precisamos recordar que Deus é amor, que Jesus Cristo não se impôs e que ao ser crucificado injustamente ainda pediu perdão ao Pai para quem O condenou. O conceito de Deus tem de ser analisado à luz da presença de Cristo entre nós como Deus connosco. Se pensarmos que o próprio Criador se fez criatura e se deixou morrer pelos injustos e malfeitores, pelos indiferentes e corruptos, pelos religiosos e pelos laicos, sofreremos necessariamente uma mudança significativa nos nossos valores, acções e reacções. A nossa agenda não pode ser mais a mesma à luz de Jesus. O Mestre dos mestres ensinou-nos que até pode ser que sejamos martirizados, mas o fim da História pertence à Sua santidade e justiça amorosa.

            A mensagem do perdão e da reconciliação tem de ser vivida entre os indivíduos, nas famílias, nas empresas, nas escolas, e entre as nações.

            A graça como dom deve ser acolhida em nossos corações e na nossa vivência diária.

            O amor incondicional e a aceitação sem reservas precisam ser assumidas e interiorizadas mediante a acção do Espírito Santo em nós.

            Temos de ser pessoas de fé acreditando que Deus não está limitado pela nossa impotência, incapacidade e imperfeições. A História está em boas mãos. O futuro reserva-nos o melhor.

            A figura central do cristianismo é-nos apresentada como Príncipe da paz (Is 9:6), já desde as profecias com a redacção de Isaías, e na altura do Seu nascimento um coro de anjos associou-se com uma celebração sugestiva: “Paz na terra, boa vontade para com os homens” (Lc 2:14).

            Toda a Sua vida, todo o Seu ensino, toda a Sua postura, todas as Suas reacções assumiram sempre a dimensão da paz, da boa vontade, do relacionamento.

            Mas também a Sua morte e a Sua ressurreição se inscrevem no anúncio e na prática, até às últimas consequências, em favor da paz.

            Em todas estas vertentes Jesus assumiu por inteiro a dimensão da paz a partir de alguns elementos basilares, dos quais destacamos o amor, o perdão, o serviço, a humildade e a verdade.

            Através do Seu amor, Cristo não conheceu barreiras, fronteiras, classes sociais, religiões, discriminações. A todos aceitou e a todos convidou para O seguirem.

            Através do Seu perdão Jesus estendeu a todos a boa vontade, a reconciliação, recusando liminarmente a retaliação e a vingança.

            Através do Seu serviço convidou todos a deixarem-se servir, descendo de pedestais e auto-suficiências insensatos.

            Através da Sua humildade recusou sempre o autoritarismo, a imposição e a prepotência.

            Através da Sua verdade nunca silenciou o que deveria ser dito, denunciando o pecado e a hipocrisia, jamais se furtando ao diálogo, mesmo quando em última instância poderia pôr em risco a Sua segurança.

            Todos estes elementos são fundamentais e é com eles que se alimenta a paz.

            É preciso divulgá-los, debatê-los, exercitá-los na família, na escola, nas comunidades, nas associações culturais, através dos meios de comunicação.

            Educar para a paz. Educar o ser e não apenas o fazer. Através do exemplo e não apenas do discurso, a nível pessoal e individual e não apenas descartando a responsabilidade para as figuras do Estado.

            Criar uma consciência de respeito pela dignidade absoluta da vida humana.

            Mesmo assim, e com toda a clareza, a História passada e a que se a fazer encontra-se está infelizmente marcada por dramáticas confrontações. Porquê?

            Nem tudo o que tem o rótulo na realidade o é. O próprio Cristo o referiu quando afirmou que é pelo fruto que se identifica a qualidade da árvore (Mt 7:15-23).

            O que fazer então?

            Continuar a acreditar no Príncipe da paz, cada vez mais, nos sinais que nos deixou para o futuro e na promessa que estaria connosco até à consumação dos séculos.

            Até lá devemos viver à altura das Suas exigências e do Seu exemplo.

            Uma coisa é certa: o futuro não depende de nós mas d’Ele e n’Ele o nosso futuro está acautelado, vivendo sempre desde agora de acordo com os Seus ensinos. “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, baptizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século”. (Mt 28:18-20).

 

 

Samuel R. Pinheiro

 

(*) Tema de um Encontro Nacional de Rádios para o qual fomos convidados, em nome da Aliança Evangélica Portuguesa, e que não chegou a realizar-se. Pelo interesse e actualidade do assunto em debate trazemos aqui a comunicação preparada.