RAZÕES PARA CRER

 

 

UMA FÉ QUE PENSA – UMA RAZÃO QUE CRÊ

            Desde os meus cerca de 15 anos que venho dedicando uma parte substancial da minha reflexão às razões e à defesa da fé cristã e bíblica.

            Não o faço para crer mas porque creio. Quanto mais creio mais estimulado me sinto a reflectir criticamente sobre o que creio e porque creio, e quanto mais estudo e investigo mais me sinto ignorante, frágil e vulnerável diante da grandeza do que sou chamado a crer.

 

A RAZÃO DAS RAZÕES

            De tudo o que tenho lido e conversado sobre a fé cristã mais se avoluma a convicção de que a razão das razões é pessoal e não meramente ideológica, filosófica, retórica, discursiva. Mais que nunca para mim a defesa e a razão da minha fé estão focados em Jesus Cristo. Esta constatação torna-se, na minha opinião, ainda mais interessante pelo facto de que Deus opta pelo contacto pessoal, mais do que por qualquer outra estratégia para se dar a conhecer, para conduzir-nos à fé, para desbloquear e ultrapassar as nossas naturais dificuldades de compreensão e para lembrar-nos que a vida cristã é, acima de tudo, relacionamento pessoal, intimidade, conhecimento que passa não apenas pela mente e pela razão mas também pelo coração. Hoje estamos à distância de dois mil anos da Sua presença entre nós, mas a reivindicação bíblica continua a ser a da proximidade pela habitação em cada um que é discípulo de Cristo, do Espírito Santo – esse outro Consolador que nos foi dado quando Jesus regressou ao Pai.

 

O MAIOR

            Não me custa admitir que não conheço tudo o que há para conhecer em todas as culturas na sociedade globalizada em que vivemos, e sei de antemão que nenhum mortal se pode arrogar desse conhecimento. Mesmo sabendo-me ignorante, em Jesus tenho Alguém que considero insuperável e insubstituível. Não preciso de conhecer tudo para concluir que nada do que eu possa conhecer pode alguma vez superar ou sequer igualar Jesus Cristo. Outro semelhante teria que ser Ele! Outro não poderia esconder-se e teria que ter tido um impacto universal! Como Ele só Ele – Jesus Cristo! Também sobre Ele o que sei é apenas uma diminuta gota de água no que Ele é e representa na História da Humanidade e do universo.

            Não sou filósofo, nem teólogo no sentido académico do termo. Ou seja, não tenho nenhum grau académico nestas, bem como noutras vertentes do saber, que são tão importantes e decisivas como o são a antropologia, a história, a psicologia, a psiquiatria, a sociologia, etc.

 

A MULTIDÃO DAS OPINIÕES E PONTOS DE VISTA

            O pouco que tenho lido e estudado é suficiente para constatar a diversidade de pontos de vista sobre as origens do homem, sua condição, sua natureza, seu sentido e propósito, seu destino, etc. Não é fácil lidar com a diversidade de pontos de vista e das ideias sobre a matéria da nossa fé. Como cristão não é fácil admitir que não sabemos tudo e não temos todas as respostas. Mas quando nos aprofundamos nela vamos compreendendo que o mais importante não são as respostas, mas a Pessoa em toda sua complexidade, dinâmica, tensão e devir. Quando falamos na pessoa estamos a falar Dele e de cada um de nós. Estou cada vez mais convencido nestas lides da fé que o relacionamento e a intimidade são nevrálgicos e essenciais.

 

UMA RAZÃO PESSOAL

            É na relação pessoal que acontece a fé, que ela surge, que ela desponta, que amadurece, que se recicla, que se renova, que se manifesta, que se prova, que age, que se transforma em prática e nos transforma.

            A questão da existência de Deus é de facto determinante para a maneira como nos compreendemos, como vivemos, como olhamos para a História, como nos posicionamos face à eternidade, como reagimos perante a morte, como assumimos as nossas origens e a nossa identidade. Tudo de alguma forma tem um formato diferente quando visto segundo o prisma da existência de Deus ou da não existência. Não que quem creia seja superior ou melhor.

            Obviamente que também quando se fala em Deus se coloca a questão de que Deus estamos a falar face à disparidade de ideias e conceitos que existem sobre Ele nas diferentes religiões que existem.

            É por isso que quando acolhemos a identidade divina de Jesus, encarnado no meio dos homens e na história humana, tudo o que podemos perguntar passa a ter uma formulação distinta e uma resposta pessoal em carne e osso.

            Em Jesus podemos saber que Deus existe.

            Em Jesus podemos saber afinal quem é Deus.

            Em Jesus podemos saber qual é a Sua declaração sobre o estado em que nos encontramos.

            Em Jesus podemos saber qual é o Seu propósito a nosso respeito.

            Em Jesus podemos saber com o que é que podemos contar n’Ele.

            Em Jesus podemos saber o que somos chamados a fazer.

            Em Jesus podemos saber alguma coisa acerca das nossas origens, não de um ponto de vista científico mas em termos da nossa essência espiritual, no nosso habitáculo material e na relação que existe entre um e outro ao nível da alma.

            Em Jesus podemos dizer um não categórico ao materialismo e ao humanismo.

            Em Jesus temos a autoridade em quem podemos confiar inteiramente.

            A matriz segundo a qual vivemos tem um papel crucial. A configuração do nosso pensamento depende da base de dados com que trabalhamos.

 

O MISTÉRIO QUE SOMOS

            Somos um mistério. Temos uma inteligência. Perguntamo-nos sobre nós mesmos. Questionamo-nos sobre a nossa identidade. Temos sentidos, afectos, emoções. Reagimos face ao que nos acontece. Comunicamos o que nos atravessa a alma e corre pelo nosso pensamento.

 

AS ORIGENS

            O nada ou a matéria e a energia no princípio ou Deus. A Bíblia afirma solenemente e assim nos abre a revelação: “No princípio Deus...” (Génesis 1:1). A Bíblia não se demora a tentar provar-nos que Deus existe apenas parte do que é evidente.

            O que quer que seja colocado nas origens trata-se de um acto e decisão de fé. Qual o peso das evidências científicas? A questão parece mais de ordem filosófica que científica, ou melhor ainda a questão parece ser mais da ordem da fé. Os que optam pela matéria e a energia no fundo acabam por atribuir-lhe atributos divinos mesmo que em meio ao casual e ao acidente.

            O modelo de uma geração espontânea ao longo de milhões de anos em relação ao aparecimento da vida, da inteligência, da consciência, da comunicação, do sagrado, da arte, da cultura e da civilização é, em termos de fé, muito mais “frágil” do que acreditar que no princípio Deus criou. Não negamos que é uma afirmação da fé, mas esta parece-nos muito mais verosímil. Mas ainda assim é pelo reconhecimento da figura de Cristo e da Sua autoridade singela, mansa e humilde que alcançamos a confiança da fé também neste domínio.

Como cristãos empunhamos a figura de um Homem que falou como nenhum outro, fez o que nenhum outro fez, morreu e ressuscitou como nenhum outro, alterou a História como nenhum outro.

 

O MOTOR DA HISTÓRIA

O que os materialistas propõem no desenvolvimento do processo iniciado nas origens é a evolução em que predomina a selecção natural, a força, a violência, a destruição do menos apto.

O que o Evangelho propõe é a defesa do mais fraco, o amor incondicional ao desvalido, a protecção do desamparado.

 

O FUTURO DO FUTURO

O que o materialismo tem para oferecer em termos de futuro é um negro pessimismo de uma morte sem retorno.

O que o Evangelho apresenta é a esperança de “novos céus e nova terra em que habita a justiça”.

 

Deus na história

            Segundo o texto bíblico Deus é um Deus pessoal que se dá a conhecer na História, no tempo, na realidade dos factos, na pessoalidade, no contacto, na vivência, nas crises, nas dúvidas, nas interrogações, no questionamento, no confronto.

A tendência hoje é ou para desacreditar tudo ou para acreditar em tudo, para negar qualquer verdade ou para admitir tudo como verdade no campo religioso e espiritual, para rejeitar qualquer distinção entre bem e mal, certo ou errado ou para a aceitação de um legalismo fanático e fundamentalista na pior acepção do termo.

            Neste cenário Jesus surge como uma ameaça e ao mesmo tempo como uma esperança, porque afirmando os valores espirituais e morais na Sua própria acção, abre uma nova oportunidade para todos os prisioneiros do fracasso espiritual e moral.

            Este é, no meu entender, um aspecto muito importante e decisivo, porque apesar de assumir uma postura de absoluta conformidade aos mais elevados padrões éticos, de ter um ensino que se pauta por esses mesmo valores, Jesus acaba por ser e apresentar-se como o porto seguro em que encontram guarida todos os que se encontram mais distantes desses padrões. A sua própria morte é apresentada em termos de acolhimento dos marginalizados, dos pecadores e dos publicanos satisfazendo a justiça divina e lançando uma âncora de amor e perdão.

            Quando falamos de Jesus Cristo talvez alguém pergunte afinal de que pessoa estamos a falar face à multiplicidade de retratos de perfis que d’Ele têm surgido em inúmeras polémicas, acesos debates, investigações e pesquisas tidas e apresentadas como científicas.

            Convém desde logo dizer que não nos admira que sobre Ele tantas e tão díspares opiniões tenham surgido e continuem a surgir. Não se trata de nada de novo. Já no Seu tempo de há 2000 anos atrás assim aconteceu. Aliás biblicamente temos de uma forma bem nítida a percepção de quanto Deus gosta de nos surpreender, ou quanto é impossível aprisionar Deus num sistema.

            Esta realidade está bem patente na dificuldade que muitos dos religiosos judeus tiveram em reconhecer e acreditar em Jesus Cristo face aos quadros que d’Ele fizeram não tanto através da revelação no Velho Testamento, mas das suas próprias interpretações, aspirações, pensamentos e ambições.

            As disputas filosóficas, teológicas e históricas sobre Jesus Cristo nos últimos anos pretenderam estabelecer uma distinção entre o Jesus da história e o da fé, levantando suspeitas sobre a autêntica figura de Cristo e sobre a maneira de conseguir sintetizá-lo.

            Diante dos textos do primeiro século que temos nas nossas mãos com as credenciais de vinte séculos de aceitação e como elementos estruturantes da Igreja desde o primeiro século, os críticos modernos armados da tesoura e cola dos seus pressupostos culturais pretendem distinguir o que eles julgam apriori seja a confusão entre Jesus e a interpretação da fé, o que Ele mesmo terá dito e o que outros colocaram na Sua boca e é mera invenção mística.

            O próprio texto dá-nos margem de manobra para verificarmos que entre o que Jesus dizia e fazia e a leitura da Sua identidade e procedência é suficientemente grande para que uns O considerassem o Filho de Deus e outros agente de Belzebu ou seja do próprio Diabo.

            Igualmente o próprio Cristo não se limitava a falar e a agir mas comunicava e interpelava os que O rodeavam a tirar ilações sobre quem Ele era.

            Não desconhecendo esta polémica seguimos o partido da corrente histórica da Igreja ficando com o texto que nos foi legado por aqueles que com Ele conversaram e andaram, e acabaram por comprometer toda a sua vida e careira nesta terra ao ponto da sua própria vida como mártires, sem qualquer outra recompensa que não a de se amarrarem à verdade da Sua experiência e conhecimento, testemunhas oculares de factos que não podiam negar e mudaram completamente quem eles eram.

            Reconhecemos que o texto dos Evangelhos nos levanta muitos e delicados problemas hoje como ontem face ao materialismo e naturalismo cada vez maior da nossa mentalidade e cultura. Outra coisa não seria de esperar!

            O sobrenatural é para nós estranho e alheio, ultrapassa-nos, incomoda-nos mas também nos extasia e maravilha. Veja-se o que acaba por acontecer com a ficção científica que projecta a capacidade tecnológica e não só para lá do imaginável. Mas como poderia ser possível que Deus nos visitasse e não manifestasse entre nós o que está a anos luz da nossa realidade e possibilidade, sendo que tornou visível o normal do reino dos céus.

            Neste particular importa-nos salientar que passados 2.000 anos sobre os acontecimentos relatados e depois de um século XX absolutamente prodigioso nas suas realizações científicas e tecnológicas ainda os homens estão bem longe de competirem com o que Ele fez, com a agravante que nós estamos mergulhados num perigoso torvelinho de consequências ecológicas e só Deus sabe o que nos espera quando o homem entrar ainda mais pelos domínios da genética.

            Por outro lado estas descobertas e os novos horizontes que rasgaram diminuíram em muito a posição dos que consideram como improvável os relatos bíblicos sobre os milagres de Cristo.

            No plano do sobrenatural a ressurreição de Cristo surge como o clímax do qual tanto Ele mesmo como mais tarde os Seus seguidores fizeram depender a verdade, a realidade e a validade de tudo quanto disse ser, de tudo quanto viveu, de tudo quanto fez, de tudo quanto ensinou, de tudo quanto prometeu.

            A ressurreição é apresentada como um facto inquestionável. O Deus encarnado, o Homem Deus entre os homens, o crucificado ressurrecto, é apresentado por testemunhas oculares que preferem morrer a negar o que viram e ouviram porque a vida não é mais a mesma, o sentido e o propósito da existência alteraram-se de tal forma que não faz sentido negar a evidência, não há nada que possa substituir, competir, ser alternativa ao que agora sabem, testemunharam experimentaram, vivem. Vale a pena morrer com a confissão de fé no Cristo crucificado e ressuscitado, assumpto aos céus e esperado com expectativa e iminência.

            Toda a força da objectividade histórica é potencializada pela fé e pela experiência subjectiva da nova criação, do novo nascimento, de ser feito filho de Deus.

            É toda uma cosmovisão que nos é proposta porque consubstanciada em Jesus Cristo, como Deus entre nós – Emanuel! É o Alfa e o Ómega, o Princípio e o Fim. Tudo o que se possa dizer dir-se-á a partir d’Ele.

            Quando nos concentramos na pessoa de Jesus Cristo somos elucidados a respeito da existência de Deus, Seus planos e propósitos, Sua natureza bem como acerca da cosmovisão e mundivisão, a resposta da nossa própria condição, história, origem e destino.

            Deus é um Deus pessoal que se deu a conhecer, que se mostrou.

            Deus é um Deus que ama incondicionalmente a Sua criatura.

            Deus é um Deus de amor e justiça, de santidade e graça.

            Deus é um Deus soberano que cria em liberdade e livre arbítrio.         

            Deus é um Deus criador distinto da sua criação mas comprometido com ela.

            Deus é um Deus de graça que não pede o que não podemos dar, dá-nos o que não podemos merecer e não o que merecíamos.

            Deus é um Deus que preside à criação, estabeleceu os princípios e modos de funcionamento do Universo, as consequências presentes e eternas dos actos humanos.

            Deus é um Deus que determinou os tempos e os seus governos deixando o homem entregue à sua consciência, ao seu governo, à lei que Ele mesmo deu, à manifestação da graça por Jesus Cristo exposta pela Igreja até aos dias de hoje, e para o futuro deixa-nos entrever um período curto de tempo em que a Igreja e o Espírito serão retirados e as forças do mal agirão com limites mais alargados, seguido de um outro tempo em que os agentes do mal serão aprisionados e finalmente depois do Juízo Final serão constituídos novos céus e nova terra em que habitará a justiça, para todos os que receberam o perdão consumado por Jesus e de condenação eterna para quem O rejeitou.

            Deus é um Deus transcendente e imanente, um Deus inefável mas ao mesmo tempo que se auto revelou.

            Deus é um Deus que sabe o sabor das lágrimas, da rejeição, da injustiça, da tristeza, da dor, da miséria, da vulnerabilidade (quando podia pulverizar os Seus algozes), da morte, do pecado (sem pecado).

            Deus é um Deus que prefere ser conhecido e reconhecido pelo Seu amor na cruz, do que pelo Seu poder acedendo à tentação de sair dela e deixar-nos eternamente condenados.

            Deus é um Deus que sabe o que é ser homem.

            Deus é um Deus que sabe o que é o mundo, a religião, a hipocrisia – não de longe, mas de conviver com ela e de ser vítima dela, embora prevalecendo contra ela em toda a sua extensão e dessa forma alcançando rotunda vitória para nós. Não é por decreto que Deus acaba com o pecado porque teria que exterminar os pecadores. Deus não aniquila o que cria, porque o faz com toda a disposição de ir até às últimas consequências. Quando Deus cria já sabe que um dia no tempo se fará Homem e morrerá levando o pecado da Sua criatura.

            Deus é um Deus que sabe o que é a obediência e a dependência (Jesus em relação ao Pai e ao Espírito Santo). Os princípios e valores que Deus determinou para a humanidade o Ele mesmo observou. A criação que Deus fez à Sua imagem e semelhança o próprio Deus assumiu em meio a uma humanidade corrompida e depravada. As consequências que Deus determinou em relação à desobediência, Ele mesmo assumiu sobre Si para que todo o homem pudesse ser resgatado, justificado.

            O homem foi criado... o homem não é um robô.

            O homem caiu no uso do seu livre arbítrio.

            O homem colhe as consequências do seu comportamento rebelde e desobediente.

            O homem é responsável perante si e os outros, bem como e principalmente de Deus.

            O homem peca porque é pecador. Os seus pecados são apenas os frutos de uma natureza pecaminosa. O novo nascimento é a metamorfose que representa uma nova criação e natureza, um novo relacionamento com Deus já não apenas de Criador e criaturas mas de Pai e de filhos.

            O pecado é a tragédia humana que a cruz de Cristo e a Sua morte e ressurreição resolveram para todos os que acolhem a salvação.

            Sem a cruz não há qualquer hipótese de salvação para o homem. Nela está bem expresso o amor e a justiça divinas, o quanto Deus nos ama e o quanto o pecado é destrutivo e ruinoso. Pior do que a sida, a lepra, o cancro, é o pecado que coloca o homem eternamente separado de Deus.

            O Evangelho e a afirmação inequívoca de uma esperança absoluta independentemente da profundidade dos estragos causados pelo pecado. Não há lugar a qualquer fatalismo. Se nascemos como nascemos podemos ser de forma diferente pelo poder divino.

            Se nascemos pecadores e portanto impossibilitados de conseguir viver sem pecado embora com uma consciência e com uma vontade que não nos deixam completamente à mercê da depravação total provocada pelo pecado original, em Cristo rompe a possibilidade de uma nova vida, de um novo comportamento, a partir de uma mudança operada por dentro, no coração, na essência espiritual.

            Hoje e agora vivemos com as limitações de um mundo decaído, de uma sociedade corrompida, de um conflito interno com o velho homem, sob a pressão e tensão causada pelos ataques dos agentes espirituais do mal, mas com a presença do Espírito Santo que nos permite a vitória sobre a tentação, sobre o mal, sobre as paixões, sobre as inclinações da velha natureza.

            Até quando suportaremos a dor e o sofrimento? Até quando suportaremos a doença e as deficiências de um corpo sujeito à degradação desde o feto até à velhice e à morte? Até quando suportaremos o espectro da morte e a separação dorida dos que amamos? Até quando suportaremos a injustiça, a violência, a corrupção, a fome, a miséria, a prepotência? Até quanto estaremos à mercê da guerra, das calamidades, das catástrofes, das hecatombes? Até quando viveremos ameaçados pelas crises ambientais, pelo buraco do ozono, pelo aquecimento da atmosfera, pela destruição dos ecossistemas? Até quando viveremos sob a ameaça nuclear, as armas químicas e biológicas? Até quando aguardaremos pelo retorno de Jesus? Até quando novos céus e nova terra em que habitará a justiça?

            Até quando suportaremos a nossa própria vulnerabilidade, fragilidade, defeitos, incapacidades, falhanços, frustrações, fracassos, debilidades, insuficiências?

            Até quando um novo corpo? Até quando uma alma totalmente absorvida na Sua paz?

            Até quando Deus disser basta!

            Até lá é o tempo de esperarmos com paciência, de colaborarmos com todas as forças para contrariar os agentes da destruição e da morte, de anunciarmos a vida eterna alertando os homens para a realidade de que a vida é muito mais do que o hoje, a matéria, o consumo, o prazer egoísta.

            Até lá somos chamados a amar os próprios inimigos, a perdoar “setenta vezes sete”, a renunciar todo e qualquer projecto individualista e egoísta, a morrer para tudo o que é mau, a viver para uma nova vida.

            Até lá a palavra de ordem não é escapar, fugir às realidades, esconder-nos, abdicarmos, cedermos, pactuarmos, desistirmos.

            Até lá habitados pelo Espírito Santo num relacionamento pessoal em espírito que antecipa a presença “face a face” sem qualquer véu ou distância.

Para sempre envoltos na Sua graça, no Seu amor, na Sua glória, na Sua majestade.

           

Samuel R. Pinheiro