NASCEMOS PECADORES?

 

            O título ocorreu-me ao ouvir o depoimento de um homossexual num programa transmitido pela RTP1: “foi assim que eu nasci”. A afirmação chocou-me profundamente e fez-me reflectir. Ela traduz um dos aspectos marcantes da mentalidade e cultura contemporâneas.

            Uma revista distribuída gratuitamente entre os jovens e adolescentes na escola em que lecciono e com certeza noutros estabelecimentos de ensino afina pelo mesmo diapasão a respeito de outros comportamentos, escolhas e opções: “A culpa é dos genes”.

            Que nos ensina a Bíblia acerca da nossa condição humana? Qual a diferença essencial entre esse ensino e o que vemos e ouvimos hoje à nossa volta? Qual deve ser a nossa estratégia de comunicação?

 

A CRIAÇÃO E  O PECADO

            Deus não nos criou pecadores. O erro não é de “fabrico”.

            O pecado foi uma escolha deliberada de Adão e Eva, embora esta haja sido enganada.

 

O PECADO ORIGINAL

            A revelação bíblica desde sempre expõe-nos perante as consequências universais do pecado cometido pelos nossos primeiros pais no Jardim do Éden arrastando atrás de si toda a humanidade.

            Esta situação tem sido polémica e existem inclusive alguns pensadores e teólogos católicos romanos que se insurgem veementemente, nos meios de comunicação e em livros, contra este pensamento.

            Por muito que ele choque alguns sectores intelectuais, o facto é que está indelevelmente registado no texto bíblico, tanto no Primeiro como no Segundo Testamento. Senão vejamos: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:5). “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens porque todos pecaram” (Rm 5:12).

            Nascemos com uma natureza que pode produzir toda a sorte de maus frutos.

 

O PECADO E OS PECADOS

            Pecamos porque somos pecadores. Os pecados são o resultado natural do pecado que afecta toda a nossa natureza (espírito, alma e corpo). A própria natureza segundo o relato bíblico, sofre essas mesmas consequências: disso é hoje um sinal evidente o que acontece na poluição, na destruição dos ecossistemas, nas espécies em vias de extinção, nos produtos altamente destrutivos que o homem “fabricou”, no buraco do ozono, etc.

            Mas pelo facto de estarmos atingidos à nascença, na nossa essência pelo pecado, isso não significa que estejamos condenados a viver à sua absoluta mercê.

            Em primeiro lugar porque Deus nos equipou, na Sua infinita misericórdia e pela Sua graça comum estendida a todos os homens, da consciência individual, de leis morais vertidas na Sua revelação no Monte Sinai a Moisés (os Dez Mandamentos), e de um sistema de autoridade reguladora da sociedade.

            Se assim não fora já há muito que teríamos sido engolidos e destruídos (não aniquilados) da vida presente, e eternamente condenados a viver separados de Deus sem qualquer hipótese de salvação.

            A vida terrena foi-nos concedida pelo Criador como uma oportunidade de, pela Sua revelação e iluminação, face à morte e ressurreição de Cristo, vivermos com Ele eternamente.

            É difícil, à luz da Bíblia, considerarmos alguns pecados mais graves do que outros excepção feita ao pecado contra o Espírito Santo para o qual não existe perdão, em virtude de ser Ele o único que nos pode convencer do estado em que nos encontramos. Pecado é pecado. Talvez uns nos choquem mais do que outros culturalmente, mas não temos o direito de apontarmos o dedo a quem quer que seja, porque também nós sofremos do mesmo mal na raiz e, se não fomos “apanhados” por algum deles, temos de levantar as mãos para o Céu; e, se fomos apanhados por eles, também é para o Céu que temos que levantar as mãos em busca de auxílio, de perdão, de graça, de misericórdia e de salvação.

            Do religioso ao céptico, do filantropo ao criminoso, a Bíblia declara que todos sem excepção somos pecadores e pecamos, necessitando de igual modo da graça divina consumada por Jesus a nosso favor na Sua morte e ressurreição.

 

O SALÁRIO DO PECADO

            Existem consequências presentes e futuras decorrentes do pecado.

Por muito que o homem se esforce em políticas e estratégias de minimização de riscos, elas aí estarão sempre a lembrar-nos que não é impunemente que pecamos desobedecendo aos padrões divinos.

Mas elas não são inalteráveis à semelhança de um karma, ou de um destino fatalista. “O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 6:23).

 

A REALIDADE DA SALVAÇÃO

            A distintiva verdade do Evangelho é que nós não estamos irremediavelmente condenados a viver segundo os ditames da natureza com que nascemos.

            Se mediante a observação da consciência, das normas sociais e dos mandamentos divinos podemos refrear as tendências da natureza pecaminosa que herdámos dos nossos pais e com a qual nascemos, é também uma verdade extraordinária que em Cristo podemos nascer de novo, podemos ser novas criaturas, uma nova criação, sermos filhos de Deus, recebermos uma nova natureza e sermos habitados pelo Espírito Santo que nos capacita a viver uma nova vida.

            Se é verdade, segundo o ensino da Palavra de Deus, que por um só homem foi introduzido na humanidade o pecado, o juízo, a condenação e a morte (o que provoca em alguns uma forte indignação e repulsa), também é verdade ser apenas através de um que é introduzida a justificação, remissão, redenção, perdão, reconciliação, restauração, novo nascimento e vida eterna.

            Aqueles que ficam assim chocados acabam por viver e agir em conformidade com os nossos primeiros pais demonstrando dessa maneira que no lugar deles não teriam feito melhor, e recusam a graça divina oferecida por Jesus.

            “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só acto de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos se tornarão justos. Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça; a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo nosso Senhor.” (Rm 5:18-21).

 

 

A VIDA CRISTÃ

            O dia a dia do cristão não está isento de tensões, de tentações, de conflitos, de lutas, de escolhas e opções. Só que temos connosco e em nós um Ajudador que não conhece limites nem impossíveis.

            É necessária a renúncia, e a própria morte para o pecado tomando a nossa cruz, mas há também a realidade de uma maravilhosa ressurreição para um novo estilo de vida. “Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado como instrumentos da iniquidade; mas oferecei-vos a Deus como ressurrectos dentre os mortos, e os vossos membros como instrumentos de justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei e, sim, da graça.” (Rm 6:11-14).

            A prática do pecado nem sempre é quebrada instantaneamente. É requerido do salvo uma vida de obediência, de disciplina, de abnegação, de dependência do Pai celestial.

 

A PRIORIDADE DAS PRIORIDADES DA IGREJA E DO CRISTÃO

            É sem sombra de dúvida esclarecer o homem e a mulher acerca do Evangelho. É acender a esperança. É colocar-se contra todo o fatalismo seja ele social, genético ou espiritual. É possível mudar. Há uma nova vida a ser vivida.

            O facto de sabermos quem fomos e o que somos agora em Jesus, dá-nos uma identificação com toda a humanidade, sem qualquer vestígio de superioridade, condenação e rejeição.

            À imagem de Cristo somos chamados ao amor e aceitação incondicionais, sem escamotear, esconder ou minimizar a realidade tenebrosa do pecado.

            Não nos interessa muito o debate sobre as causas próximas ou remotas, sobre os condicionalismos afectivos, educacionais, familiares, sociais, etc. Existem muitas escolas de pensamento, muitos estudos e investigações, muitos modelos e teorias explicativas.

            O que importa é que Deus é maior do que o pecado e destruiu-o na cruz.

            Se hoje ele é ainda bem nítido, talvez até ainda mais nítido; se ele emerge algumas vezes na vida dos discípulos do Salvador e Senhor Jesus, é simplesmente porque ainda não se esgotou o tempo que Deus determinou para a manifestação e acção da maldade.

            É interessante encontrarmos hoje um grande número de pessoas que concordam que o seu estado radica na sua natureza original, à semelhança do que Deus diz na Bíblia, mas que continuam a fechar-se infelizmente à possibilidade de uma nova vida, de uma nova condição, de um novo destino e de um novo presente.

            Enquanto o homem contemporâneo diz que nasceu assim para continuar a viver assim, como justificação e desculpabilização do seu comportamento, a Bíblia fala-nos do poder do amor e da justiça divinas muito maiores do que a força dos genes, das hormonas, dos astros, do karma, do meio ambiente, da família, da sociedade, dos traumas, etc. O que quer que seja é aniquilado sob o sangue de Jesus!

            Não há poder do inferno ou da natureza humana que possa prevalecer perante o poder divino.

 

Samuel R. Pinheiro