MARTIN LUTHER KING

na luta pela dignidade dos povos

 

unidos em Cristo no respeito pela dignidade dos povos

 

1. Contexto histórico e cultural - os momentos históricos que proporcionam e impelem escolhas e estratégias decisivas

 

         Antecedentes da discriminação racial

            “A Guerra da Secessão tornou livres cerca de 4 milhões de escravos negros. Durante algum tempo, pareceu que os novos homens livres seriam admitidos na sociedade como membros de pleno direito. Contudo, estas esperanças foram breves. Em 1877, mal os Estados do Norte retiraram as suas tropas, os sulistas brancos começaram a fazer valer a sua superioridade sobre os negros. Com a aprovação de um tribunal superior conservador, foram sendo promulgadas nos estados do Sul sucessivas leis a favor da segregação racial. No princípio do século XX, os negros estavam, em todos os estados do Sul, limitados pela lei nos seus direitos políticos e afastados de quase todas as instituições públicas. Um sistema subtil - impostos eleitorais, testes de cultura e cláusulas de ascendência que excluíam aqueles cujo avô não tivesse tido direito de voto - negava o sufrágio à maioria dos negros.” (Os Grandes Acontecimentos do Século XX; Selecções do Reader’s Digest; pág. 395)

 

1929

Grande Depressão: Quinta-feira Negra em Wall Street.

Acordos de Latrão: é criado o Estado do Vaticano.

União Soviética: Estaline, senhor do Poder.

Portugal: Salazar lança a Campanha do Trigo.

1930

Índia: Gandhi organiza a Marcha do Sal.

1931

Portugal: lei do condicionamento industrial.

Morte de Edison.

1932

Adous Huxley, Admirável Mundo Novo.

1933

Alemanha: Hitler no Poder.

Gabriel Marcel, Ser e Ter.

Malraux, A Condição Humana.

Toynbee inicia a publicação de Um Estudo de História.

1934

União Soviética: Estaline desencadeia o período do terror.

Mao Tsé Tung inicia a Longa Marcha.

Portugal: revolta da Marinha Grande contra o Estado Novo.

Fernando Pessoa, Mensagem.

Morte de Madame Curie.

Criação do microscópio electrónico.

1935

Alemanha: leis racista de Nuremberga.

Descoberta do radar.

1936

União Soviética: grandes purgas e saneamentos.

Espanha: vitória da Frente Popular; início da Guerra Civil.

Hitler e Mussolini criam o Eixo Roma-Berlim.

José Régio, As Encruzilhadas de Deus.

1937

Oa alemães bombardeiam Guernica.

Picasso, Guernica.

1938

Fundação do Conselho Ecuménico das Igrejas.

Sartre, Náusea.

Almada Negreiros, Nome de Guerra.

Henry Moore, Figura Deitada.

1939

A Alemanha invade a Polónia: eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Morte de Freud.

1940

Charles Chaplin, O Grande Ditador.

1942

Camus, O Estrangeiro.

1943

Sartre, O Ser e o Nada.

1945

Bomba atómica sobre Hiroshima.

Aceleramento da Descolonização.

Suicídio de Hitler.

Fuzilamento de Mussolini.

1946

Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental.

1947

Descoberta dos Manuscritos de Qumrân noa arredores do Mar Morto.

1948

Eclosão da Guerra Israelo-Árabe.

Morte de Gandhi.

Teilhard de Chardin, O Fenómeno Humano.

1949

Implantação da República Popular da China.

A União Soviética fabrica a bomba atómica.

1950

O papa proclama o dogma da Assunção da Virgem Maria.

Bertrand Russell, Prémio Nobel da Literatura.

Erich Fromm, Psicanálise da Religião.

1957

15 de Maio - Billy Graham no Madison Square Garden em Nova Iorque.

1961

Construção do Muro de Berlim.

Fracasso do desembarque na Baía dos Porcos, em Cuba.

Portugal: início da Guerra Colonial.

União Soviética: Gafarine tripula a primeira nave espacial.

1962

Execução de Eichmann em Israel.

Abertura do Concílio Vaticano II.

1963

Assassinato do Presidente Kennedy.

Paulo VI, papa.

1964

Estreia dos Beatles nos USA.

1965

Bombardeamentos norte-americanos contra o Vietnam do Norte.

Encerramento do Concílio Vaticano II.

1966

Morte de Walt Disney.

1968

As tropas do Pacto de Varsóvia invadem a Checoslováquia.

Agitação estudantil em França.

Portugal: Maecello Caetano, presidente do Conselho.

Assassinato de Luther King.

 

           

 

2. Origens

 

         “Martin Luther King Jr. nasce em Atlanta, capital da segregação, a 15 de Janeiro de 1929. O seu pai, Martin Luther King Senior, é pastor. A mãe, Alberta Williams, é professora. O avô Williams é também pastor da Ebanezer Baptist Church de Atlanta. Mas o avô King trabalhava a terra numa plantação de Stockbridge.” (Gerbeau, H.; Luther King; Perfis; 1969; pág.53)

            “M.L. King Senior fugiu à plantação em que o pai estagnava numa situação próxima da escravatura. Passou por todas as humilhações reservadas aos Negros do campo: o riso insultuoso dos capatazes que, não contentes por roubar injuriam, a parcialidade dos tribunais, a fúria da polícia, o ciclo infernal de dívidas dos caseiros, a vergonha de ser Negro... Jurou ‘fazer qualquer coisa’. Parte a pé de Atlanta, trabalha de dia, estuda de noite. Consegue acabar os estudos secundários, entra na Universidade de Morehouse e torna-se, a mesmo tempo, orador baptista. Desposa então Alberta Williams, filha de um dos principais pastores da cidade.” (idem; pág. 58)

            “Organizou a boicotagem a um jornal para quem os Negros eram ‘estúpidos e ignorantes’. Os ditos ignorantes não compram o jornal e este cai na falência!” (idem; pág. 59)

            “O pai foi sempre de temperamento emotivo. Recordo-o o falar retumbantemente: ‘Pouco importa o tempo que possa viver neste sistema social; nunca o aceitarei. Opor-me-ei a ele até à morte’. O fogoso pastor é vigiado pela Ku-Klux-Klan. Com toda a frequência, quando levanta o telefone é para ouvir uma ladainha de injúrias. (idem; pág. 60)

            “O pequeno Martin escuta e olha. Terá recordações. Num capítulo de Strid Toward Freedom, o doutor King evoca o horror que lhe inspira desde a infância a segregação e sobretudo ´the oppressive and barbarous acts’ que dela resultam. Lembra as brutalidades policiais, que viu com os seus próprios olhos, e as manchas no chão, prova do linchamento de algum Negro... Pouco a pouco, a criança compreende que o universo que o rodeia está dividido em duas partes: o mundo branco e o ‘ghetto’ negro.” (idem; pág. 60)

            “Desde a mais tenra idade que é impregnado da moral evangélica.” (idem; pág. 55)

            “Em 1963, a dedicatória da sua obra Força para Amar será formulada assim: ‘À minha mãe e ao meu pai / cujo compromisso profundo na fé cristã e inquebrantável adesão aos princípios eternos foram para mim o exemplo revelador da Força para Amar”. (idem; pág.55)

            “Em casa, reina a disciplina. Levantam-se cedo e deitam-se cedo, o filho do Pastor tem que aprender todos os dias versículos da Bíblia que há-de recitar ao jantar. De manhã e à tarde a família reúne-se para oração em comum.” (idem; pág. 56)

            “(...) devemos relembrar que não há dúvida que tentou suicidar-se por duas vezes.” (idem; pág. 57)

            “O pai de Martin Jr. queria que o filho fosse Pastor. Mas este decidiu ser médico, porque a religião tinha poucos atractivos sociais e muito menos intelectuais. Contudo, várias experiências dolorosas da segregação fazem-no mudar de ideias: quer ser advogado: ‘Estava num tempo em que me apaixonava pela política e pelas misérias sociais. Imaginava-me a desempenhar a tarefa da destruição das barreiras legais que limitavam os direitos dos negros.” (idem; pág. 61)

            “Este jovem que entra na Universidade atravessa uma fase de revolta. Nele, a não-violência não é inata. Almas piedosas pretenderam que se deixava bater pelos camaradas sem se defender e que, segundo o preceito do Evangelho, estendia a outra face. Lerone Bennet, seu condiscípulo antes de ser chefe de redação da grande revista negra Ebony, restabelece a verdade ao evocar os combates singulares que o adolescente não hesitava travar. Conforme testemunho do irmão, preferia, no entanto resolver os conflitos pelas discussão ‘graças à sua crescente habilidade em manipular os circunstantes por meio de símbolos’. Mas, quando a luta era a única porta de saída, propunha ao contraditor: ‘Vamos lá para fora!” (idem; pág. 62)

            “A grande tarefa de Martin King durante estes anos é cultivar-se. Tem horror a certa forma de religiosidade muito espalhada por pastores pouco instruídos. Não será médico, nem advogado, é certo; mas não quer ser animador de batimento de palmas e de aleluias rítmicas, em voga em muitas paróquias negras. ‘Nunca pude compreender tudo o que há de emocional no culto negro, escreve; mas tenho sensibilidade para tal. Pior ainda, esse estilo embaraça-me sempre.’ Quer ser um desses pastores cujo ensino apreciou na Universidade. Desse modo, talvez possa desempenhar um papel eficaz, porque se apercebeu de que a Igreja era, na sociedade negra, o ponto estratégico de toda a acção social.” (idem; pág. 67)

         “Num domingo à tarde, o jovem pastor vai a Filadélfia ouvir o doutor Mordecai Johnson, reitor da Universidade de Howard. Este, que está de regresso das Índias, fala do poder redentor do sofrimento não merecido e do amor. Tem a convicção de que o método não-violento de Gandhi é aplicável nos Estados Unidos e de que pode ajudar a resolver os problemas raciais. (...) Munido da sua pilha de livros, Martin Luther descobre Gandhi ‘de quem tinha ouvido falar, como muita gente, mas que nunca tinha estudado’. Estamos em 1950.” (idem; págs 70,71)

            “O pastor vai encontrar na doutrina de Gandhi o quadro para a corrente impetuosa de esperanças, ideias e sentimentos que nele se começavam a desenhar. Dirá que o ‘Mahatma’ foi provavelmente ‘o primeiro homem na história a fazer compreender que o mandamento do amor do próximo dado por Jesus podia ser factor positivo nas relações sociais’. (...) Martin King repetirá muitas vezes: ‘Das minhas convicções cristãs tiro os princípios de base, de Gandhi tiro o de técnica operacional.” (idem; pág. 72)

            “Escolhe para tese a ‘Comparação das concepções de Deus no pensamento de Paul Tillich e de Henry Nelson Wieman.’ A redação deste estudo ocupá-lo-á até 1955. O professor De Wolf faz sobre ele o seguinte juízo: ‘De todos os candidatos ao doutoramento que tive na Universidade de Boston, uns cinquenta ao todo, posso classificar King entre os cinco primeiros. Era um estudante excepcional.” (idem; pág. 73)

            “‘Ela gostava de mim e eu partilhava dos seus sentimentos’, teria confessado a um amigo, ‘mas tive que acabar por lhe anunciar resolutamente que nos meus projectos não cabia o casamento com uma jovem branca’. (idem; pág. 75)

            “Coretta dificilmente se vê a renunciar à sua carreira e muito menos a ser mulher de um pastor. De qualquer modo, quando este lhe pede casamento, não consegue recusar. Estão ambos apaixonados! Casam-se a 18 de Junho de 1953 em Alabama. É o pai de Martin que celebra a união. Voltam depois a Boston para continuar os estudos.” (idem; pág.76)

            “Vai suceder na igreja baptista de Dexter Avenue a um ‘pastor de choque’ que criou reputação de orador brilhante e de campião da igualdade racial (conta-se que, tendo recebido de um motorista de autocarro ordem de ‘levantar o seu sagrado cu de preto’ do seu lugar, respondeu, com muita dignidade, que continuaria nesse ‘sagrado lugar’... e aí ficou).” (idem; pág. 76)

 

3. Factores presentes - Talentos e Dons

 

3.1. O poder da ascendência familiar

 

3.2. O poder da formação cristã desde a infância

 

3.3. O poder de uma boa formação moral e intelectual

 

3.4. O poder da palavra

 

3.5. O poder do exemplo

 

3.6. O poder da abnegação (não passar ao lado -indiferente- das situações e dos momentos históricos e dos desafios que eles nos levantam)

 

4. Desenvolvimento

 

         Na tarde de 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks,  costureira negra de meia-idade, entrou, em Montgomery, Alabama, EUA, num autocarro quase vazio. Exausta, como mais tarde declarou, e carregando um saco cheio de compras, a Sra Parks pagou o seu bilhete de 10 cêntimos e sentou-se no primeiro lugar vago. Este lugar, porém, encontrava-se, precisamente, na parte da frente do veículo, reservada por lei aos brancos. Embora o condutor, quando o autocarro se encheu, a tivesse convidado a abandonar o lugar, Rosa Parks continuou sentada. O condutou, indignado, chamou o polícia, e a Sra Parks foi imediatamente presa, tendo permanecido na prisão até ao fim do seu julgamento. No bairro negro de Montgomery, Rosa Parks era muito conhecida. Trabalhava como secretária numa delegação da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), organização que lutava pela abolição da discriminação racial. A notícia  da sua prisão provocou, nos 50 000 habitantes negros de Montgomery, uma enorme revolta. Na igreja baptista do bairro, reuniram-se 25 sacerdotes negros para deliberar sobre a forma como poderiam apoiar Rosa Parks. Encorajados por um acórdão do Supremo Tribunal dos EUA datado de 1954, que declarava ilegal  a discriminação racial nas escolas, grande número de negros acreditou ser a altura propícia para empreender algo contra a discriminação racial em instituições públicas. Os sacerdotes decidiram boicotar os transportes no dia do julgamento de Rosa Parks.”

            “Noventa por cento da população negra aderiu ao apelo do boicote aos transportes. Rosa Parks foi declarada culpada, mas os seus advogados interpuseram imediatamente recurso e os sacerdotes deliberaram a continuação da greve. Escolheram para seu chefe o Dr. Martin Luther King, Jr., então com 26 anos apenas, esperando que este, pela sua sólida cultura geral e extraordinária capacidade de argumentação, não só levasse a população negra a manter-se firme, como se comportasse, junto dos brancos, como hábil negociador. Poucos foram os que pressentiram que, com esta escolha, havia começado a ascendente carreira do mais importante militante americano da luta pelos direitos cívicos.” (Os Grandes Acontecimentos do Século XX; Selecções do Reader’s Digest; Janeiro 1979, página 394)

            - “Em 1957, Luther King fundou, em Atlanta, a Southern Christian Leadersship Conference (SCLC) - Conferência de Dirigentes Cristãos do Sul - e avisou os funcionários brancos de que ‘nós conseguiremos vencer com a nossa capacidade de resistência.’ Encorajou os seus partidários a sofrerem as afrontas, a prisão, a violência, e mesmo as ameaças de morte, para fazer despertar a nação, para lhe causar vergonha e, finalmente, para pôr termo a uma injustiça que já durava há séculos. Porém, Luther King nem sempre foi bem sucedido. Alguns funcionários brancos mostraram-se extremamente obstinados. Preferiam fechar os parques, as piscinas públicas e as bibliotecas a compartilhá-los com todos os seus concidadãos. Porém, numerosos jovens negros consideravam ultrapassado o estilo dos sermões de Luther King e encaravam a sua exortação de amor aos brancos como afectada e cobarde. Por outro lado, grande número de negros conservadores receava que a actuação de Luther King fosse ainda denmasiado radical.”

            “O não cumprimento das resoluções do Tribunal sobre a abolição das barreiras raciais nas escolas provocou, finalmente, a reacção do Governo Federal, ainda hesitante. Em 1957, o governador do Arkansas enviou a Guarda Nacional para impedir que alunos negros frequentassem a Central High School de Little Rock. O presidente Eisenhower enviou tropas pára-quedistas para fazer cumprir a lei e proteger o direito dos estudantes, negros e brancos, a uma educação comum.”

            “Também em 1957, o governador do Alabama, George C. Wallace, viu-se obrigado a consentir que dois negros se matriculassem na Universidade do Alabama. Um pouco antes, Wallace prometera solenemente manter ‘a discriminação racial, hoje, amanhã e sempre”.

            “Entretanto, Luther King e outros continuaram a sua batalha pacificamente nas ruas poeirentas de numerosas cidades do Sul, enfrentando corajosamente as ameaças de violência. Em 1963, 100 anos após a proclamação da abolição da escravatura, o escritor negro James Baldwin, mundialmente famoso, publicou o seu ensaio The Fire next Time, no qual pôs a descoberto as origens da discriminação racial, ao mesmo tempo que examinava criticamente não só a acção pacífica de Luther King, mas também s medidas radicais dos movimentos de jovens militantes. Nesse ano, ocorreram nos EUA cerca de 10.000 manifestações. Em Abril desse mesmo ano, Birmingham, no Alabama - talvez a cidade do sul de maior segregação racial -, tornou-se o alvo principal de Luther King. Várias semanas de marchas pacíficas, nas quais, pela primeira vez, as crianças tomaram parte, trouxeram poucos progressos, mas causaram um número record de prisões, sendo 2.500 ordenadas por um funcionário responsável pela segurança pública, de nome Eugene ‘Bull’ Conner, acérrimo defensor da segregação racial. Nos princípios de Maio, foram divulgadas por todo o Mundo as fotografias e reportagens filmadas de polícias corpulentos que, com os os seus bastões, batiam em mulheres caídas no solo, de cães ameaçadores lançados sobre negros desarmados e crianças que jactos de água atiravam ao chão. O presidente Kennedy exigira já uma legislação sobre os direitos cívicos, mas só em Julho de 1964 essa nova lei foi assinada pelo presidente Lyndon B. Johnson. A lei garantia, entre outros direitos, a abolição da discriminação racial nas instituições públicas, melhores postos de trabalho e acesso à educação.” (idem; pág. 396)

         - “Em 28 de Agosto de 1963, Luther King conduziu, com outros dirigentes da luta pelos direitos cívicos, cerca de 250 000 negros e brancos numa marcha sobre Washington. Reunida no extenso jardim em frente do monumento a Lincoln, a multidão, que o aclamava freneticamente, escutou Luther King, que, com palavras dramáticas, falava do seu “sonho”: “Um dia -afirmou- esta nação erguer-se-á e viverá de acordo com a verdadeira doutrina da sua crença.” A marcha pacífica e a alocução extraordinaria marcaram o ponto culminante da participação de Luther King na luta pelos direitos cívicos. No ano seguinte, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz.” (Os Grandes Acontecimentos do Século XX; Selecções  do Reader’s Digest; pág. 396)

            - “Subiu para os degraus do monumento a Lincoln. Atrás de si, qual tutor inquebrantável, a recordação do Presidente assassinado torna a pedra viva. Diante dele escutam 250.000 pessoas. O Negro mantém-se de pé, entre Lincoln e a América, entre o libertador e o seu povo surdo. Começou a ler um papel: ‘Cem anos depois, o Negro vive numa ilha isolada de miséria... Cem anos depois, o Negro continua  encolhido nos recantos da sociedade ameticana e exilado na sua própria terra”. O dia foi uma longa exaltação de cânticos e discursos, de marchas e de fraternidade. No dia 28 de Agosto, em Washington, está calor. A multidão arqueja, mas suporta com paciência a sede e o suor, a poeira e o cheiro; escuta e espera. King afasta o papel, sente as palavras dilatarem-se na garganta, como sementes a germinar. Domina-se. Não cedamos ao patético, continuemos lúcido e de leme bem firme. Acabou o discurso mas retém a avalanche que sobe pelo peito e pelo ventre, que brota desta pedra que o arrasta, a avalanche que engrossa sobre a América e que Lincoln, que o empurra, repercute o eco.”

            “-Tive um sonho...”

            (...)

            “-Sonhei que um dia, no alto das colinas escalvadas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos que foram seus senhores se sentarão juntos à mesa da fraternidade e hão-de partir o mesmo pão...” (idem; pág. 119,120)

 

5. Pensamento

         Materialismo

            - “A ciência dá ao homem um conhecimento que é poder; a religião dá-lhe uma sabedoria que é domínio. A ciência ocupa-se sobretudo de factos e a religião, de valores. Não são rivais, mas complementares. A ciência impede a religião de cair no irracionalismo impotente e no obscurantismo paralisante; a religião faz que não caia no materialismo ultrapassado e no niilismo moral.” (Gerbeau, H.; Luther King; Perfis; 1969; pág.153)

         - O comunismo e o cristianismo são estruturalmente incompatíveis... Ateísmo enquistado sob o manto do materialismo, o comunismo não tem lugar nem para Deus nem para Cristo.” (idem)

            Igreja

            - “Os Negros da América sentem-se enganados pela Igreja de Cristo, que parece mais branca que cristã, e por muitos ministros brancos que preferem calar-se, comodamente resguardados por detrás dos seus vitrais.  Estão desapontados por alguns pastores negros que preferem preocupar-se com o conforto do seu automóvel e não com a qualidade do serviço devido à comunidade negra.” (idem; pág. 154)

            Amor ao próximo

            “Porque havemos de amar os nossos inimigos?... Retribuir o ódio com o ódio multiplica o ódio e aumenta a profunda obscuridade do que já é noite sem estrelas... (por outro lado) o ódio fere a alma e deforma a personalidade... é nefasto à pessoa que odeia... (enfim) o amor é a única força capaz de transformar um inimigo em amigo...” (idem; pág. 155)

            Homem

            “Em toda a doutrina realista do homem, devemos atender sempre ao bem físico e material... Como cristãos, devemos pensar não na ‘nossa pátria celeste’ mas também nos bairros de lata e nos ‘ghettos’... Toda a religião que se preocupa com as almas mas é indiferente às condições sociais que a corrompem e paralisam é estéril e necessitada de sangue novo.” (idem; pág. 156)

            Cristão

            “Os pregadores da moda fazem sermões consoladores sobre temas do género ‘como ser feliz’ ou ‘como nos descontrairmos’. Alguns foram tentados a emendar o mandamento de Jesus deste modo: ‘Ide a toda a aprte, conservai baixa a vossa tensão arterial e farei de vós pessoas adaptadas’. Tudo isto nos mostra que é meia-noite na vida interior dos homens e mulheres.” (idem; pág. 157)

            Deus

            “O telefone tocou e disse uma voz encolerizada: ‘Escuta, negro, estamos fartos de ti. Antes da próxima semana, estarás arrependido de teres vindo a Montgomery’... Tinha atingido o ponto de saturação... Estava quase a abandonar... Havia decidido entregar os problemas a Deus... Mas nesse momento tive consciência da presença divina como nunca. Era como se pudesse ouvir a tranquilidade e segurança de uma voz interior: ‘De pé para a justiça. De pé para a verdade! Deus estará sempre a teu lado’. A minha incerteza desapareceu e estava pronto para a luta.” (idem; pág. 159)

            “Deus pode vencer os males da história. O seu controlo nunca lhe foi tirado. Se por vezes  desesperamos por causa da lentidão do avanço para o fim da segregação e se nos desorientamos com a prudência exagerada  do Governo Federal, retomemos coragem renovada na certeza de que Deus é poderoso... Deus marcha connosco!” (idem; pág. 159)

            “Os momento dolorosos por que passei durante muitos anos levaram-me até perto de Deus. Mais do que nunca me convenci da realidade de um Deus pessoal... Senti o poder de Deus a transformar a frouxidão do desespero em rompante de esperança. Estou convencido de que o universo é controlado por desígnios de amor e de que no combate pela justiça o homem tem a companhia do cosmos.” (idem; pág. 160)

 

6. Características principais

 

6.1. Firmeza / Convicções

 

6.2. Integridade

 

6.3. Disponibilidade para sofrer

 

6.4. Identificação

6.5. Contextualização prática do evangelho e das suas implicações

 

6.6. Entendimento dos sinais dos tempos da sua época

 

7. Fim

         “Um só tiro. Na pele morena, o orifício não era grande. A bala percorreu sessenta metros. Poderia ter-se perdido, algures. Por pouca sorte, o homem acabava de se baixar para falar aos seus amigos e dizer ao Pastor Ben Branche, de Chicago: ‘Meu velho, não te esqueças de cantar esta noite - Que o Senhor seja louvado - e sobretudo de cantar bem.’ ‘Que o Senhor seja louvado’, a carabina Remington munida de um telescópio estava já apontada ao seu rosto. O Pastor Martin Luther King encarava a morte.” (Gerbeau, H.; Luther King; Perfis; pág.9)

            “Ele será transportado na carreta dos pobres. É a longa marcha, a profunda desolação do povo negro. Duas mulas puxam a carreta com firmeza. Os Negros de todo o mundo estão reunidos naquele pobre caixão.” (idem; pág.10)

            “Morreu por porcarias que apodrecem ao sol. Havia oito semanas que os varredores de Memphis estavam em greve. Entre eles, muitos negros, como é normal. Trabalho sujo: trabalho de Negros. Para os Indianos seria serviço próprio dos Intocáveis. Martin Luther King não receou sujar as mãos. Veio a Memphis (Tennessee), tocou os Intocáveis e marchou por eles. Tantas caminhadas, marchas e contra-marchas na vida deste homem! Os que gastam a vida a limpar nas ruas as imundícies que outros deixam, merecem bem que se rompa por eles um pouco das solas dos sapatos. Tinha havido a marcha de Washington, onde está a Casa Branca; a apoteose foi a marcha de Memphis, onde chorava de miséria um punhado de Negros sujos.”. (idem; pág. 11)

            “É a vontade de Deus, dirá a Senhora Luther King; não ignorávamos que isto ia acontecer”. (idem, pág. 12)

            “6 de Abril de 1968: 0 escândalo era fundado: o ferimento foi mortal. Em todas as línguas do mundo, títulos gigantescos pintam de escarlate e de luto a primeira página dos diários. ‘Varrido pela violência’, ‘Situação de angústia nos Estados Unidos’, ‘A América do racismo e da guerra matou Martin Luther King’.” (idem; pág.15)

 

8. Enquadramento bíblico

 

“E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra a mim.”

(Génesis 4:10)

 

“Disse ainda o Senhor: Certamente vi a aflição do meu povo, que está no Egipto, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhes o sofrimento,

pot isso desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel: o lugar do cananeu, do heteu, do amorreu, do ferezeu, do heveu e do jebuseu.

Pois o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo a opressão com que os egípcios os estão oprimindo.

Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhso de Israel, do Egipto.”

(Êxodo 3:7-10)

 

“Ouvistes o que foi dito: Olho por olho, dente por dente.

Eu, porém, vos digo: Não resistais ao preverso; mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lha também a outra;

e ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa.

Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas.

Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.

(Mateus 5:38-42)

 

“então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.

Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes;

estava nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso e foste verme;

Então perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? ou com sede e te demos de beber?

E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? ou nu e te vestimos?

E quando te vimos enfermo ou preso e fomos visitar?

O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade, vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”

(Mateus 25:34-40)

Interpretação alusiva aos judeus. Também extensível a todos os marginalizados, pobres, desabrigados?

“Mas Pedro e João lhes responderam: Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus;

(Atos 4:19)

 

“Quando amanheceu, os pretores enviaram oficiais de justiça, com a seguinte ordem: Põe aqueles homens em liberdade.

Então o carcereiro comunicou a Paulo estas palavras: Os pretores ordenaram que fôsseis postos em liberdade. Agora, pois, saí e ide em paz.

Paulo, porém, lhes replicou: Sem ter havido processo formal contra nós nos açoitaram publicamente e nos recolheram ao cárcere sendo nós cidadãos romanos; querem agora, às ocultas, lançar-nos fora? Não será assim; pelo contrário, venham eles, e pessoalmente nos ponham em liberdade.

Os oficiais de justiça comunicaram isso aos pretores; e estes ficaram possuídos de temor, quando souberam que se tratava de cidadãos romanos.

Então foram ter com eles e lhes pediram desculpas; e, relaxando-lhes a prisão, rogaram que se retirassem da cidade.

(Atos 16:35-39)

 

“Cada um permaneça na vocação em que foi chamado.

Foste chamado sendo escravo? não te preocupes com isso; mas, se ainda podes tornar-te livre, aproveita a oportunidade.

Porque o que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente o que foi chamado, sendo livre, é escravo de Cristo.

Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens.

Irmãos, cada um permaneça diante de Deus naquilo em que foi chamado.”

(I Coríntios 7:20-24)

Contexto da problemática do casamento e da circuncisão e incircuncisão

“recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer.”

(Gálatas 2:10)

 

“Quanto a vós outros, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo,

não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus;

servindo de boa vontade, como ao Senhor, e não como a homens,

certos de que cada um, se fizer alguma cousa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre.

E vós, senhores, de igual modo procedei apra com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus, e que para com ele não há acepção de pessoas.”

(Efésios 6:5-9)

 

“Fiel é a palavra, e quero que, no tocante a estas cousas, faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras. Estas cousas são excelentes e proveitosas aos homens.”

(Tito 2:8)

 

“Agora, quanto aos nossos, que aprendam também a distinguir-se nas boas obras, a favor dos necessitados. para não se tornarem infrutíferos.”

(Tito 3:14)

 

“Pois, acredito que ele veio a ser afastado de ti temporariamente, a fim de que o possuísses para sempre,

não já como escravo; antes, muito acima de escravo, como irmão caríssimo, especialmente de mim e, com maior razão, de ti, quer na carne, quer no Senhor.”

(Filemon 15,16)

 

“Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo,em acepção de pessoas.

Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem com anéis de ouro nos dedos, em trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso,

e tratardes com deferência o que tem os trajes de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra;e disserdes ao pobre: Tu, fica ali em pé, ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés,

não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos tornastes juízes tomados de perversos pensamentos?

Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?

Entretanto, vós outros menosprezastes o pobre. Não são os ricos que vos oprimem, e não são eles que vos arrastam para os tribunais?

não são eles os que blasfemam o bom nome que sobre vós foi invocado?

(Tiago 2:1-7)

 

 

 

9. Reflexões

 

            2000 anos de Cristianismo não fizeram desaparecer por completo as contradições de uma sociedade que devia ser mais fraterna

            A mensagem de Cristo nem sempre é ouvida na sua inteireza pelos cristãos em cada geração

            A mensagem de Cristo continua a interpelar-nos diariamente e a deixar-nos incómodos perante as realidades que urge viver de modo diferente como sal e luz arrastando outros ou não

            Antes de desafiarmos os outros somos desafiados a vivermos nós mesmos em consciência a nossa natureza e missão evangélica

            A Igreja não é perfeita - só Cristo o é / só Ele pode ser declarado verdadeiramente Deus feito homem

            Esperamos a Cristo para que todas as coisas sejam feitas novas

            Até que Ele volte, apesar das nossas contradições, entre o arrependimento e a conversão, somos chamados a transformar o que tocamos com a nossa vida - a santidade é para ser vivida nas estruturas sociais às quais pertencemos e das quais fazemos parte

            Existe uma moralidade pessoal e outra social - não nos podemos desligar de nenhuma delas

           

10. Desafio - Símbolo de contradição ou identificação / Interpelação ou mera referência

 

         “O silêncio não é de ouro”

            Profetas do século XX ou XXI

 

11. Situações contemporâneas

 

         Não é preciso atravessar a fronteira para encontrar o nosso semelhante que se encontra discriminado e ao qual é preciso estender a mão, calçar os seus sapatos, compreender a sua posição - defender a sua dignidade que é a nossa. O nosso semelhante está ao lado de nós - na família, na igreja, no prédio, na fábrica, na escola, no escritório, no bairro, na cidade, no país...

            Drogados, desabrigados, desempregados, marginalizados, desintegrados, sidosos, mães solteiras, divorciados, filhos abandonados, ...

            A estratégia não é a do coitadinho, da desculpabilização, ....

           

            O exemplo bem actual da África do Sul... A Bíblia e os valores do evangelho vivos através dela podem parecer durante muitos anos adormecidos nas consciências de muitos cristãos e desvirtudados nas suas escolhas e atitudes, mas surge o momento em que eles irrompem e ajudam a manter o equilibrio e a evitar maiores banhos de sangue...

 

12. Bases da dignidade dos povos

 

         Toda a dignidade seja de um povo ou do indivíduo começa pelo reconhecimento da imagem e semelhança de Deus em cada criatura.

            Toda a dignidade assenta na vertente individual e na estrutura social seja política seja económica ou cultural.

 

 

 

 

 

Samuel R. Pinheiro

abril 95