LIÇÕES A PROPÓSITO DE UM CANCRO (*)

 

            Esclareçamos o título, antes de tudo o mais, talvez formulado um pouco na intenção de chamar a atenção do leitor. O autor a partir de Agosto último tem estado a atravessar o vale apertado do diagnóstico de um cancro, cirurgia e restabelecimento. As lições aprendidas e que continuam a aprender-se não têm tanto a ver com a doença em si, mas com a realidade e presença divina, dos familiares, dos irmãos na fé, dos amigos e dos clínicos face à mesma.

 

A NATUREZA E O CARÁCTER DE DEUS

            “(...) nele [Cristo], digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que de antemão esperamos em Cristo (...)” (Efésios 1:11,12).

            O conhecimento e a convicção íntima fornecida e alimentada pela Bíblia e no relacionamento pessoal, testemunhados no nosso mais íntimo ser pelo Espírito Santo, da soberania absoluta, perfeita e amorosa de Deus em todo o Universo e na nossa vida particular, são decisivos.

            Tudo o que nos acontece está sob o controle da mão de Deus. Nada foge à Sua vontade. Mesmo aquilo que as forças do mal podem intentar contra a nossa vida, só acontece mediante o consentimento divino.

            Não entendemos muitas das coisas que acometem a nossa vida. Mas a fé que não é cega porque está suportada no conhecimento pessoal da santidade divina, ajuda-nos a superar o estágio dos porquês e dos para quês e a encontrar descanso no governo e no beneplácito divinos, mesmo que algumas vezes um tanto agitado. Não escondemos os momentos de intensa perturbação acompanhada da âncora firme da fé que provêm da Palavra de Deus.

            O Seu amor incondicional, a Sua graça segundo a qual não dependemos em caso algum dos nossos méritos ou virtudes mas do Seu favor imerecido, a Sua misericórdia que nos poupa ao que efectivamente mereceríamos, é um lenitivo incomparável.

            Olhando para trás posso perceber o dedo de Deus nos mais pequenos detalhes e pormenores. Sendo o Criador e Sustentador de todas as coisas, num Universo cujos limites não divisamos, sabemos que nos acompanha e essa presença faz a diferença em cada circunstância e situação.

 

A PRESENÇA DE DEUS

            “Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Coríntios 6:19).

            Tudo o que anteriormente fica registado seria suficiente no plano intelectual, na mente e no pensamento, estruturando as nossas convicções e dando consistência e solidez ao nosso raciocínio.

            No entanto Deus faz-se presente. Ele está connosco. A Bíblia vai mais longe afirmando categoricamente que habita em todos os que são Seus filhos através de Jesus Cristo.

            A presença de Deus, a possibilidade do relacionamento pessoal, a intimidade com Ele é a essência da vida cristã quaisquer que sejam os momentos pelos quais estejamos a passar. Ela é bem real no nosso lar, no local de emprego, em tempo de férias ou no quarto de uma enfermaria, no bloco operatório, em meio à euforia de uma festa ou no recolhimento que a dor e o sofrimento normalmente provocam.

            Deus não se afasta quando as nossas emoções são apanhadas no torvelinho de um diagnóstico ameaçador. Podemos não senti-lO mas Ele permanece junto de nós, mais perto do que o próprio ar que respiramos. Atirados de um lado para o outro pelas vagas alterosas das emoções, ainda assim Ele continua à nossa beira, dentro de nós pelo Seu Espírito. Mais cedo ou mais tarde acabamos por nos dar conta de que Ele está por perto, e a Sua paz raia ainda em meio à bruma da tempestade voraz que nos assola.

 

DEUS COMO PAI

            “E, porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.” (Gálatas 3:6).

            Tudo isto ecoa na verdade de que o Deus que nos criou, que nos fez à Sua imagem e semelhança e do qual nos afastámos com os nossos primeiros pais e no nosso próprio lidar, apresenta-nos a possibilidade de nos tornamos participantes da Sua família. Como filhos pródigos Deus nos acolhe de braços abertos e está pronto a conceder-nos perdão, reconciliar-nos com Ele e levar-nos à intimidade do Seu coração. Tudo isto apenas através de Jesus e do que realizou a nosso favor satisfazendo as exigências da santidade e da justiça divinas, e expressando e manifestando a realidade do Seu amor absoluto, infinito e imutável.

            “Pai nosso” é a abertura da oração que Jesus nos ensinou e nos permitiu orar com verdade através da Sua encarnação, da Sua morte, da Sua ressurreição e da Sua ascensão.

            Falar a Deus como Pai e ouvi-Lo enquanto Lhe dirigimos a palavra ou o pensamento. Nada mais sublime do que ser amparado pelos braços do Pai eterno.

 

A REVELAÇÃO QUE ILUMINA

            “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos.” (Salmo 119:105).

            Este conhecimento mental, emocional e espiritual não é adquirido nem está à mercê da nossa inteligência racional, emocional ou espiritual, mas é um dom que Ele nos deu através da Sua revelação pessoal registada objectivamente na Bíblia Sagrada, experimentada objectiva e subjectivamente por todos os que a acolhem humildemente e traduzida em carne e osso, definitiva, singular e exclusivamente na pessoa de Jesus Cristo – tema central e essência de toda a revelação escrita, quer no Antigo, quer no Novo Testamentos.

            Memorizar textos da Bíblia mostra-se relevante e essencial em momentos nos quais estamos, por alguma razão, impedidos de aceder ao texto impresso do Livro dos livros. A sua impressão no nosso cérebro e no nosso coração são determinantes e fundamentais.

            O Salmo 23, entre outros, acompanhou-me na maca enquanto me dirigia para a sala de operações e ocupou o meu pensamento até à anestesia produzir os seus efeitos de adormecimento. Voltei à consciência iluminado pelas mesmas palavras e confortado pela mesma confissão.

 

O CARINHO DA FAMÍLIA

            “Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só: far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idónea.” (Génesis 1:18).

            Nada mais reconfortante no plano humano do que os afectos nos mais pequenos gestos e expressões. O amor conjugal, filial e parental ou maternal é um lenitivo e bálsamo constante ao longo de toda a nossa jornada, bem como de todos os restantes membros da família, qualquer que seja o grau de parentesco.

            Se o relacionamento familiar, pautado pelo amor nas suas múltiplas expressões, é um bem preciosíssimo que ultrapassa em muito qualquer posse material, quando atravessamos os desertos áridos da existência é como um oásis reconfortante.

            Deus tudo quanto faz, fá-lo bem. A família é criação divina. Efectivamente não é bom que estejamos sós. Uns aos outros nos ajudamos e suportamos de tal forma que quando um está mais abatido é confortado pelo outro e vice-versa.

 

O AMPARO ESPIRITUAL DO(s) PASTOR(es)

            “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos (...).” (Efésios 4:11,12).

            Deus concedeu a cada Igreja local pastores que em Seu nome e segundo a Sua direcção, como Sumo-Pastor, nos ensinam a Palavra Revelada e nos encorajam na fé, qualquer que seja o momento que estejamos a viver.

            É muito bom, como não podia deixar de ser porque está em conformidade com o propósito de Deus, ter um pastor que conhece as ovelhas que Deus Lhe confiou e que delas cuida com desvelo e tantas vezes com espírito de sacrifício.

            Desde a minha infância, passando pela adolescência, juventude e idade adulta tenho tido o privilégio de contar com o apoio e o exemplo de pastores a quem muito devo em relação à minha vida cristã, segundo o que o Bom Pastor que é Jesus, lhes tem proporcionado pelo Seu Espírito.

            Não é por ser neto e filho de pastores, mas não posso deixar de aqui deixar uma palavra de profundo reconhecimento, porque uma vez mais quando as ondas se levantaram ameaçadoras contra o batel da minha embarcação, o meu pastor pessoal e muitos outros, foram marcantes no reforço da minha fé e esperança em Deus e na Sua Palavra.

 

O SUPORTE EM ORAÇÃO DOS IRMÃOS NA FÉ

            “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo.” (Tiago 5:16).

            A família da fé originada pelo sangue de Jesus vertido no Gólgota supera os laços genéticos. Felizes os que associam à família natural os vínculos da identidade espiritual. Esse é o plano e a intenção de Deus. A integração do indivíduo em si e nos seus relacionamentos humanos.

            A comunidade cristã, qualquer que seja o seu espaço geográfico e cultural é, pelo próprio ensino bíblico e pela realidade provocada pela transformação gerada pelo Espírito Santo, fundamentalmente vivida nos relacionamentos de entreajuda em que pontua a oração em favor uns dos outros.

            Na Igreja de Jesus Cristo não há lugar para máscaras de auto-suficiência nem inibição de expor as nossas fraquezas e as nossas lágrimas. “Alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram” (Romanos 12:15), é a tradução bíblica da família espiritual.

            O conforto ultrapassa em muito o discurso, as palavras ou o enunciado de votos de rápidas melhoras, mas mergulha e adensa-se num olhar, num abraço, num beijo, num toque físico e ainda mais no espiritual.

            Deus fala-nos usando muitas vezes usando as pessoas que nos cercam e outras que, apesar da distância física de centenas e milhares de quilómetros, acabam por nos defender das setas envenenadas que são arremessadas contra o nosso pensamento e coração pelos demónios acusadores.

            Uma pequena nota para confessar que de todo o apoio recebido e sem qualquer acepção, aquele que acaba por calar mais fundo é o que vem de pessoas que já passaram pelos mesmos trilhos e já vivenciaram situações semelhantes, ou até mais difíceis.

 

O ENCORAJAMENTO DOS AMIGOS

            “Em todo o tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão.” (Provérbios 17:17).

            Os amigos de entre os que constituem a família da fé e que o são apenas porque há mais tempo caminhamos juntos ou qualquer outro factor provocou uma maior aproximação e identificação, continuam a percorrer connosco o trilho apertado e pedregoso, ajudam-nos a escalar as encostas íngremes e, algumas vezes, demoram-se ao nosso lado, pegam-nos ao colo como mãos e braços de Deus para nós nesses momentos.

            Os amigos alteram as suas agendas, mudam os seus compromissos, arranjam tempo em meio a todos os seus compromissos para estarem lá.

            Os amigos chegam a ser capazes de superar os seus próprios momentos difíceis para dar atenção à dificuldade do amigo.

            “Amigos do peito” não são forjados pelos interesses sócio-culturais, mas no bater do coração.

            Para lá dos que se identificam connosco na experiência da fé, condiscípulos do Mestre dos mestres e que são a maioria, existem vários outros que não ignoramos e que fazem parte dos que Deus nos deu para brilharmos para eles com a Sua luz, mesmo que bruxuleante (não por causa d’Ele, mas por causa de nós mesmos). Também eles são para nós uma contribuição positiva.

 

A INTERVENÇÃO DOS CLÍNICOS

            “Saúda-vos Lucas, o médico amado, (...).” (Colossenses 4:14).

            A ciência genuína é uma aliada da fé. Ela é uma dádiva de Deus para cuidar da nossa saúde física e até emocional. Porque somos chamados e continuamente impulsionados a confiar incondicionalmente em Deus e no Seu poder sarador, isso não significa que menosprezemos o que Ele realiza através do conhecimento médico.

            E como é bom encontrar clínicos que juntam ao seu conhecimento técnico e à sua sapiência, a dimensão humana, a empatia e a congruência. O que acontece neste nível profissional é certamente verdadeiro para todas as restantes, o que nos impulsiona a ver a nossa actividade laboral de uma forma muito mais excelente.

 

O AMADURECIMENTO PESSOAL

            “E não somente isto, mas também nos gloriemos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança, e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.” (Romanos 5:3,4).

            Não é agradável, não gostamos nem apreciamos, mas a verdade é que crescemos interiormente em meio ao sofrimento, quando nos confrontamos com a fragilidade da nossa condição humana tanto física como emocional e até espiritual.

            Passamos a valorizar muito mais os relacionamentos, a intimidade com Deus, a graça divina, a dimensão espiritual e as realidades eternas.

            Cursos, bens materiais, funções, projectos e currículo têm o seu lugar, mas o que é essencial torna-se ainda mais evidente – os relacionamentos, as pessoas. O ser destaca-se do fazer e do ter. Como discípulos de Cristo é o que somos n’Ele e por Ele que efectivamente conta. Em Jesus, e somente n’Ele somos filhos de Deus.

            De todos os relacionamentos o essencial é a intimidade com Deus como Pai, pelo Filho, no Espírito Santo.

            Podemos estar mais ou menos felizes com o nosso percurso de vida, podemos fazer um balanço mais ou menos positivo da nossa carreira, mas em qualquer um dos casos apercebemo-nos, à luz da Palavra de Deus, que dependemos em absoluto da graça divina a nosso favor. Fomos amados e aceites incondicionalmente por Ele, e limitámo-nos a recebê-Lo em resposta ao Seu apelo, nada fizemos – tudo foi realizado e consumado por Ele.

            Tudo sem Deus é nada, nada com Deus é tudo. Buscando o reino de Deus e a Sua justiça em primeiro lugar todas as restantes coisas nos são acrescentadas (Mateus 6:25), é a promessa de Jesus para os que O amam, seguem e obedecem. Quem é súbdito do reino dos céus não é um miserável, bem pelo contrário, mas tem a certeza que o mais miserável de todos é o materialista que vive apenas na dimensão física e terrena. O que importa verdadeiramente é conhecê-Lo, amá-Lo, adorá-Lo e servi-Lo. Viver n’Ele, por Ele e para Ele.

            Amamos a vida. Queremos viver. Mas inexoravelmente chegará o momento em que deixaremos o tempo e entraremos na eternidade, abandonaremos o corpo e o espírito se encaminhará para Deus (Eclesiastes 12:7), a não ser que Jesus volte entretanto como prometeu e aguardamos, sabendo que acontecerá no momento preciso determinado pelo Pai. Todos os que recebem a Jesus Cristo já possuem a vida eterna (João 3:16), a morte é apenas uma passagem que nos introduz na sua plenitude (Apocalipse 14:13), retirando-nos da presença de todo o resquício resultante da queda. Na eternidade não haverá mais doença, lágrima, sofrimento e dor, luto, incapacidade, etc. (Apocalipse 21:3,4).

 

“O MELHOR DE TUDO É CRER EM CRISTO”

            Esta afirmação singular que adoptei pertence ao maior dos nossos poetas –  Luís Vaz de Camões, com que fecha o seu soneto “Verdade, Amor, Razão, Merecimento”. (1)

            Amigo leitor a verdade é precisamente esta. Nada há maior na vida do que conhecer Jesus e por Ele chegar a Deus, recebendo a vida eterna. Tanto para o presente como para a eternidade nada existe que possa competir com Cristo – Deus connosco.

            O Evangelho, as boas notícias que são o próprio Filho de Deus, não são apenas para depois da morte, mas para a vida, aqui e agora. Todavia não há futuro eterno de bem-aventurança sem Ele.

            A vida encerra muitos desafios e riscos.

A qualquer momento podemos ser chamados à presença de Deus.

            Sem a salvação, perdão e reconciliação, novo nascimento e nova vida, estamos perdidos aqui e na eternidade.

            Devemos procurar viver o melhor possível aqui e estar cientes de que estaremos no céu para todo o sempre – em Jesus.

            “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16).

 

 

Samuel R. Pinheiro

www.samuelpinheiro.com

 

 

(*) O autor aproveita a oportunidade para agradecer a todos os que de uma forma ou de outra o apoiaram e à sua família, principalmente em oração. A paz sentida em meio à turbulência foram sem dúvida resultado das suas intercessões, não que Deus dependa da quantidade ou qualidade das nossas petições, mas porque no Seu favor nos deu o privilégio de sermos solidários e Seus cooperadores. Agradecemos ainda a continuação da mesma intercessão com acção de graças.

 

 

(1)

 

VERDADE, AMOR, RAZÃO, MERECIMENTO

 

Verdade, Amor, Razão, Merecimento

Qualquer alma farão segura e forte;

Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte

Têm do confuso mundo o regimento.

 

Efeitos mil revolve o pensamento,

E não sabe a que causa se reporte;

Mas sabe que o que é mais que vida e morte

Que não o alcança humano entendimento.

 

Doutos varões darão razões subidas,

Mas são experiências mais provadas,

E por isso é melhor ter muito visto.

 

Cousas há i que passam sem ser cridas,

E cousas cridas há sem ser passadas;

Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.