FUNDAMENTALISMO EVANGÉLICO?

SIM e NÃO

 

            O fundamentalismo está na ordem do dia, seja ele de feição política, religiosa ou outra qualquer. A ideia associada a este fenómeno social é normalmente a da intolerância, da violência, da força, dos atentados, do terrorismo.

            Recentemente chegou-me às mãos um livro da editora católica romana Paulus, intitulado Fundamentalismo Religioso Contemporâneo. Os autores italianos são Enzo Pace (professor de Sociologia e de Sociologia das Religiões, na Universidade de Pádua, Faculdade de Ciências Políticas), e Piero Stefani (professor de diálogo com o Hebraísmo, no Instituto de Estudos Ecuménicos “São Bernardino”, de Veneza).

             Na capa um encapuçado de metralhadora em punho, de alguma forma reforça a interpretação do fundamentalismo como acção violenta, que através da força e do medo procura impor as suas ideias e intenções. A verdade é que algumas das acções de grupos fundamentalistas deixam a opinião pública desorientada, sem perceber quais são as verdadeiras intenções e razões dos seus actos.

            Ficámos curiosos e passámos à leitura do índice como se impõe. Para nossa surpresa verificámos que a primeira das abordagens tratava das “raízes protestantes do fundamentalismo”, seguindo depois para “o fundamentalismo islâmico”, “o fundamentalismo hebraico”, “o etnofundamentalismo no hinduísmo e no sikhismo” e finalmente “o neo-integralismo católico”.  

Decidimo-nos a ler pelo menos parte da obra, e não podemos deixar de confessar que não percebemos como se pode tentar colocar dentro do mesmo saco coisas tão distintas como a afirmação de convicções fundamentais relativamente à revelação bíblica e a intolerância que usa da força e da violência indiscriminada, para fazer prevalecer os seus pontos de vista.

Admitimos que o conceito de fundamentalismo possa ter variantes de acordo com determinados contextos e pressupostos, no entanto, a imagem da capa a que fizemos alusão não vai no sentido desta flexibilidade linguística e os últimos acontecimentos pós 11 de Setembro de 2001 também não.

No primeiro capítulo os autores, ao tratarem dos limites do conceito, referem a dado passo: “existem diferentes fundamentalismos conforme os diferentes contextos culturais e religiosos em que nasceram e actuam os movimentos, grupos e organizações extremistas”. Mais adiante acrescentam: “vale a pena precisar que os movimentos fundamentalistas nascem no seio das grandes religiões mundiais, desde o Cristianismo (em particular, na sua versão protestante-evangélica) até ao Islamismo e ao Hebraísmo passando pelo Hinduísmo e pelo Sikhismo”.

Aqui creio que quem escreve revela uma aguda amnésia histórica, porque se o que está em causa é estudar a história do fundamentalismo nas suas várias expressões, não se pode passar um pano por cima do que foi a prática do catolicismo romano e do papado e seus acólitos ao longo de toda a Idade Média até aos nossos dias. O facto de o papa João Paulo II já ter pedido perdão e se haver penitenciado publicamente pelas acções inquisitoriais e quejandos dos seus ancestrais, não apaga da história os factos, e não é intelectualmente correcto passar por cima deles, querendo situar modernamente o fundamentalismo dentro do protestantismo (antes de ter sistematizado as diferentes expressões que nele se podem encontrar para evitar mal-entendidos).

Voltemos à introdução do tema no livro em apreço e à opinião dos referidos sociólogos da religião: “O fundamentalismo, em grande parte, configura-se como recuperação de um tema que parecia ter desaparecido definitivamente da história contemporânea: voltar a falar de Deus e da sua Palavra (se é revelada, ou não, pouco importa aqui precisar) num mundo que, por pudor ou indiferença, deixou de o fazer”. É difícil de acreditar que pessoas entendidas academicamente no assunto das religiões não saibam que a Igreja de Jesus Cristo nunca deixou de falar de Deus e da Sua Palavra como inspirada e fundamental para a fé da qual depende em absoluto.

“E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo.” (Romanos 10:17).

Como é impossível perder de vista a Reforma protestante do século XVI e todos os grandes movimentos europeus e missionários que sempre proclamaram a Bíblia Sagrada? Toda a história do protestantismo e do evangelicalismo está voltada para o que Deus continua a dizer e que sempre disse.

“Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão.” (Mateus 24:35).

Nesta sequência, a definição de fundamentalismo atinge o seu ponto alto ao considerar que “para que se possa falar de fundamentalismo é necessário um outro elemento: a referência constante e insistente a um livro sagrado”. Não estranhamos pois que o protestantismo acabe à cabeça dos fundamentalismos enumerados e analisados. Só que no nosso entender é muito perigoso que à boa maneira pós-moderna se agarre num termo cuja conotação todos sabem ser profundamente negativa nos tempos modernos, e que se reúnam coisas tão distintas como o fundamentalismo protestante e o fundamentalismo islâmico, considerando que a razão principal reside na forma como o texto sagrado é entendido e vivido.

Já dentro da esfera do protestantismo o livro refere uma conferência de teólogos conservadores dos Estados Unidos em 1985 em Niagara Falls, em que foi assumida uma posição oficial contra as tendências liberais e que no entender dos autores constituiu a certidão de nascimento do fundamentalismo protestante. Como pontos principais a obra destaca: “a) a absoluta inerrância do texto sagrado; b) a reafirmação da divindade de Cristo; c) o facto de que Cristo nasceu de uma virgem; d) a redenção universal garantida pela morte e ressurreição de Cristo; e) ressurreição da carne e a certeza da segunda vinda de Cristo.”

O leitor atento já deve ter percebido qual a sequência do pensamento e o que se pretende colocar em cheque. Permitam-me todavia uma última citação: “Como se pode observar, o primeiro ponto constitui, na verdade, o critério supremo – a grande norma hermenêutica – que permite distinguir a atitude religiosa de tipo fundamentalista de outras atitudes mais abertas à utilização do método histórico-crítico na exegese bíblica. Para os teólogos fundamentalistas do manifesto de Niagara Falls, a aplicação do método histórico-crítico implicava graves riscos teológicos: colocava em causa verdades consolidadas e, na tentativa de comparar a revelação cristã com outras religiões coevas ou mais antigas, redimensionava, ou pior ainda, revogava dogmas centrais como, por exemplo, o dogma da virgindade de Maria, ou, por fim, acabava por apresentar a figura divina de Cristo segundo formas demasiado humanas.”

Já referimos anteriormente a existência de uma corrente no catolicismo romano e em algumas igrejas ditas protestantes ou evangélicas, que não podendo mais impedir que a Bíblia seja lida pelo povo, pretendem fazer crer que o que ela diz não pode ser aceite tal e qual, devendo ser sujeito à opinião do exegeta munido dos bisturis do método histórico-crítico que mais não é do que o humanismo, o naturalismo e o cepticismo travestidos de cientificidade.

Não estamos com isto a dar a entender que a leitura e o estudo da Bíblia deve ser feito sem princípios nem regras. No entanto, nenhuma delas poderá em caso algum pretender pôr a Bíblia a dizer o contrário do que ela efectivamente diz. É também para nós claro que a Palavra de Deus é suficientemente acessível em grande parte do seu texto para que todos a possam entender, sem precisar de um preparo académico de vulto. O próprio Jesus Cristo disso falou certamente antecipando as posições que haveriam de se tornar públicas, como é o caso da que agora aqui analisamos.

“Naquela hora exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.” (Lucas 10:21).

O outro aspecto importante refere-se ao tratamento da própria questão do fundamentalismo. Sinceramente não temos qualquer problema em nos considerarem fundamentalistas, quando isso significa que aceitamos a Bíblia como Palavra de Deus, infalível e único fundamento e regra de fé.

Já não aceitamos que, através de uma ambiguidade linguística, se venha a lançar confusão sobre qualquer forma de intolerância ou de violência na tentativa de impor as convicções que recebemos pela Sagrada Escritura e que ela mesma condena na vida e ensino de Cristo.

Ninguém como Jesus foi mais fundamentalista no primeiro sentido e ninguém como Ele, foi mais contrário ao fundamentalismo no segundo sentido.

Temos verificado que alguns colunistas dos meios de informação embarcam nesta tendência de assacar aos evangélicos, de modo abrangente, uma posição fundamentalista concernente à acção missionária realizada a coberto do exercício profissional devido à perseguição religiosa dos países muçulmanos, e das posições do presidente dos Estados Unidos da América, George Bush, em relação à invasão do Iraque.

Esta perspectiva cai pela base à luz do direito de todos ouvirem acerca do Evangelho de Cristo. E quando constatamos que alguns dos Presidentes anteriores também estavam ligados pelo menos nominalmente ao protestantismo, nem por isso apoiaram as teses que prevaleceram no caso do Iraque, para lá de muitos milhares de cristãos evangélicos que não tomaram tal posição, e entre os que a tomaram havia certamente pessoas de nomerosas filiações religiosas.

O livro que temos estado a considerar conclui: “Resumindo, os dois ingredientes de base do fundamentalismo histórico são a certeza da verdade integral e absoluta contida no texto sagrado e a certeza inquebrantável do iminente regresso de Cristo à terra.” Respondemos com a própria Bíblia pela pena de S. Pedro: “Amados, esta é agora a segunda epístola que vos escrevo; em ambas procuro despertar com lembranças a vossa mente esclarecida, para que vos recordeis das palavras que anteriormente foram ditas pelos santos profetas, bem como do mandamento do Senhor e Salvador, ensinado pelos vossos apóstolos. Tendo em conta, antes de tudo, que nos últimos dias virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as suas próprias paixões, e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação.” (2 Pedro 3:1-4). Afinal estamos com Pedro no fundamentalismo do Espírito Santo.

Somos fundamentalistas no que diz respeito a aceitarmos toda a Bíblia como a Palavra de Deus, mas por este mesmo facto não podemos aceitar o fundamentalismo terrorista, violento e intolerante!

 

Samuel R. Pinheiro