ÉTICA BÍBLICA

 

Ética do amor e da amizade com Deus.

Ética da “obediência em amor”.

Ética do interior para o exterior.

Ética não apenas da letra mas do Espírito.

Ética da transformação do coração.

Ética como fruto do Espírito.

Ética do ser, para o fazer e no ter.

Ética do Reino de Deus.

Ética universal, imutável e eterna.

Um santo não é um homem sem falhas, e, sim, um homem que se dedicou sem reservas a Deus. (bispo Westcott)

(HOUSTON, James; Orar Com Deus; Abba Press, p. 108)

Se o amor não produz amor, então nunca foi realmente amor. O propósito da vida cristã não é o de encher nossas cabeças de doutrinas, e sim o de despertar-nos para uma qualidade espiritual de vida que nos empolgue, energize e enriqueça com uma vida humana genuína. Por isso, quando nos abrimos para a acção do Espírito Santo, é como se um filme em preto e branco subitamente se enchesse de todas as cores.

(HOUSTON, James; Orar Com Deus; Abba Press, pp. 138,139)

Na verdade, somos curados quando curamos outros, recebemos quando damos, somos amados quando amamos. A conhecida “oração da paz” (que não foi escrita por Francisco de Assis, mas que reflecte o seu espírito) capta perfeitamente esse princípio:

Senhor, torna-me instrumento de Tua paz:

Onde houver ódio, que eu leve o amor;

Onde houver discórdia, harmonia;

Onde houver injúria, perdão;

Onde houver o erro, a verdade;

Onde houvera dúvida, a fé;

Onde houver o desespero, a esperança;

Onde houver trevas, luz;

Onde houver tristeza, alegria. Ó Mestre Divino,

Concede-me que eu não busque tanto

Ser consolado, e sim consolar;

Ser compreendido, e sim compreender

Pois é dando que se recebe;

É quando nos esquecemos de nós mesmos que nos encontramos;

É quando perdoamos que somos perdoados;

E é quando morremos que nascemos para a vida eterna.

A cura que oferecemos aos outros é a mesma que cura a nossa própria pessoa. (...) Se negamos a outros aquilo que Deus não nos nega, estaremos condenados.

(HOUSTON, James; Orar Com Deus; Abba Press, pp. 191,192)

Quanto mais vivenciamos a amizade de Deus, mais sensíveis nos tornaremos à realidade do mal e seu impacto sobre nós.

(HOUSTON, James; Orar Com Deus; Abba Press, p. 193)

Vivemos rodeados pelo mistério do mal. Se a presença do caos é tão intrínseca na natureza das coisas, a ponto de precisar ser vencida por Deus no próprio acto de criação, que esperança temos nós de dominar o mal em nossos próprios corações, sem pedir o socorro de Deus em oração?

(HOUSTON, James; Orar Com Deus; Abba Press, p. 193)

A comunidade dos que são tentados, deveria ser, portanto, a mais compreensiva das comunidades. Cada um deveria conhecer as fraquezas do outro e suportar as suas cargas.

(HOUSTON, James; Orar Com Deus; Abba Press, p. 194)

“Faça o que lhe der na cabeça” leva em última instância ao desespero, tendo em vista que se perde toda a compreensão de quem é o “eu”.

(HOUSTON, James; Em Busca da Felicidade; Abba Press, p. 55)

Só quando o desejo do cristão tem como objectivo a comunhão íntima com Deus e o bem do seu próximo é que encontrará a libertação da cobiça nos seus diversos aspectos. A solução não é deixar de desejar – mas sim desejar aquilo que está certo.

Dentro desta linha de pensamento, John Piper, pastor, professor da Bíblia e autor, designa-se “hedonista cristão”, defendendo que cada cristão deve procurar apaixonadamente a sua própria felicidade mediante o prazer incomparável que a sua relação com Deus lhe confere. Piper comenta da seguinte forma o diálogo de Jesus com o doutor da lei, referido em Lc. 10:25-37; (...):

“Só quando vemos o nosso ‘amor-próprio’ desta maneira é que a força tremenda do mandamento ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ será evidente. Jesus está a dizer ao doutor da lei: Toma nota do amor que tens por ti próprio, como tentas ter o melhor lugar na sinagoga, como procuras ser visto em oração nas ruas, como exerces com todo o rigor para manter a pureza. O meu mandamento para ti é este: Toma todo o teu zelo, toda a tua ingenuidade, toda a tua perseverança, e com eles procura o bem do teu próximo.

Com isso Jesus corta o nervo de todo o estilo de vida meramente egoísta. Toda a nossa procura inata do nosso próprio bem torna-se a medida da forma como nos damos a nós próprios. Procuramos satisfazer a nossa fome? Então devemos com a mesma urgência alimentar o nosso próximo quando ele tem fome. Procuramos a promoção da nossa empresa? Então devemos procurar maneiras de dar aos outros as mesmas oportunidades e de estimular a vontade deles de subir. Gostamos muito de ter as melhores notas nos exames? Então devemos ajudar o aluno mais fraco que gostava tanto como nós de ter boas notas. Ficamos aborrecidos quando as pessoas se riem e troçam de nós? então nunca deve ser ouvida da nossa boca uma palavra de troça”.

(PALLISTER, Alan; Ética Cristã Hoje; Associação Evangélica Cascatas; p. 207)

“O TESTE DA VERDADE:

PRECEITO – PRINCÍPIO – PESSOA”

A palavra de Deus está cheia de PRECEITOS – mandamentos incluídos para o nosso bem. Os PRINCÍPIOS são as ‘razões’ subjacentes aos preceitos, e a PESSOA por trás dos princípios é o próprio Deus. Quando nos movemos do PRECEITO para o PRINCÍPIO, isto leva à própria PESSOA de Deus. É por meio do Teste da Verdade que comparamos as nossas atitudes e acções com o carácter e a natureza de Deus.”

(Josh McDowell; Certo ou Errado; pág. 122)

 

VERSUS

 

Ética da consciência individual única e exclusivamente.

Ética individualista.

Ética privada.

Ética secularizada.

Ética humanista.

Ética materialista.

Ética relativista.

Ética hedonista.

Ética pragmatista.

Ética legalista.

Ética interesseira.

Ética estatística.

Ética do poder.

Ética evolucionista.

Ética comportamentalista.

“A ética humanista, em contraste com a ética autoritária, distingue-se por um critério formal e outro material. Formalmente, baseia-se no princípio segundo o qual só o homem por si próprio pode determinar o critério relativo à virtude e ao pecado, e não qualquer autoridade que o transcenda. Materialmente o homem e o “mal” aquilo que lhe é nocivo, sendo o bem-estar do homem o único critério de valor ético” (Erich Fromm, Ética e Psicanálise)

(Ética para um Jovem; Fernando Savater; Editorial Presença; pp. 50)

 

Que quero eu dizer-te ao pôr um “faz o que quiseres” como lema fundamental desta ética em direcção à qual vamos tentando avançar? Pois bem, simplesmente (embora em breve venhamos a descobrir, receio-o bem, que as coisas não são assim tão simples) que tens de pôr de lado ordens e costumes, prémios e castigos, numa palavra, tudo o que visa dirigir-te de fora, e que deves levantar todas estas questões a partir de ti próprio, do foro interior da tua vontade. Não perguntes a ninguém aquilo que deves fazer com a tua vida: pergunta-to a ti próprio. Se desejas saber em que podes empregar pelo melhor a tua liberdade, não a percas pondo-te logo desde o início ao serviço de outro ou de outros, por bons, sábios e respeitáveis que eles sejam: interroga sobre o uso da tua liberdade... a própria liberdade.

(Ética para um Jovem; Fernando Savater; Editorial Presença; pp. 53)

 

 

PILARES DA ÉTICA BÍBLIA:

Deus

            - o Pai

            - Jesus Cristo

            - o Espírito Santo

A Revelação escrita

O valor e a dignidade da pessoa e da vida humana

O valor da criação divina (animal, vegetal e material)

O AMOR DA QUALIDADE DE DEUS NO RELACIONAMENTO COM DEUS, CONSIGO E COM O(S) OUTRO(S)

 

            Vivemos num tempo de desorientação e crise ética. Perdeu-se a autoridade, a referência, o modelo. Gelados da “Olá” com o nome dos 7 pecados é uma ilustração da sociedade em que vivemos que despreza a verdade divina e pinta um quadro ilusório e mentiroso sobre o pecado.

            Parece-me a mim que vivemos hoje a nível global numa profunda perturbação e tensão. O homem e a sociedade não sabem onde encontrar o cânon ético dois mil anos depois de Cristo – o único que nos pode salvar (só que Ele não se impõe a não ser no desfecho da História). Terrorismo, pedofilia, sida, fome, ecologia, armas de destruição maciça, tráfico(s), (tóxico)dependências, ...

            O humanismo e o materialismo, a secularização e o laicismo empurraram o homem para o relativismo, o pluralismo, a privatização, o hedonismo, a indiferença, a apatia.

            Parece que hoje em dia o único pecado é proibir ou declarar que há uma só verdade.

A nova ortodoxia é a “tolerância”, que, nas palavras de Colson, é “redefinida como a liberdade de poder escolher o que quiser dentre os elementos de um cardápio de vida moralmente equivalentes – homossexualidade, adultério, promiscuidade préconjugal. Faça a sua opção... E esse tipo de tolerância, que em si mesmo é uma postura moral, pisa na sensibilidade daqueles que se apegam aos absolutos morais – sobretudo os cristãos”.

(Dale & Sandy Larsen; Sete Mitos Sobre o Cristianismo; Vida; pp. 22)

            Dostoievski declarou com muita propriedade: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Pela ginástica do raciocínio comum hoje, os escritores dizem que não podemos mais retomar aqueles valores ingénuos, pois os problemas da sociedade actual são por demais complexos e esmagadores. E quais são esses problemas? Gravidez na adolescência, disparada do número de divórcios, doenças sexualmente transmissíveis, pais ausentes, famílias criadas só pelo pai ou só pela mãe, vulgarização e exploração do sexo na mídia, conflitos raciais, violência nos meios de comunicação, violência das gangues, crianças que matam sem remorso... a lista assustadora parece não ter fim.

           A lista deixa os cristãos decepcionados e desconcertados, pois são exactamente os problemas que poderiam ser resolvidos – ou pelo menos atenuados – por meio do comprometimento com a moral bíblica. São problemas que se exacerbaram justamente quando a sociedade abandonou os valores cristãos. A coincidência é grande demais para não ser levada em consideração.

(Dale & Sandy Larsen; Sete Mitos Sobre o Cristianismo; Vida; pp. 17)

 

O que acontece quando uma sociedade nega a importância do certo e errado? Leia a resposta na parede de uma prisão, em Poland: “Libertei a Alemanha da estúpida e degradante falácia de consciência e moralidade”.

           Quem fez tal jactância? Adolf Hitler. Onde estão afixadas estas palavras? Num campo de extermínio nazista. Os visitantes lêem a declaração, e então vêem os resultados: uma sala abarrotada com milhares de libras de cabelos de mulheres, salas cheias de retratos de crianças castradas, e fornos de gás que serviram para a solução final de Hitler. Paulo descreve-o melhor: “Seu coração insensato se obscureceu” (Rm 1.21)

(Nas Garras da Graça, Max Lucado, Vida, pp. 38)

 

Vez após vez foi provado que não é possível estabelecer uma teoria ética razoável e coerente sem que primeiro se estabeleça o telos, isto é, o propósito e destino da vida humana. Até Kant concluiu que, sem um telos, tudo se conduz mal. Se a vida mesma não tem propósito, a ética desanda. Como disse Dostoievsky, se Deus está morto, até o absurdo se justifica.

           Este, se posso opinar, é o dilema da América do Norte. Este é o aguilhão que nos fica apunhalando quando nos sangramos uns aos outros. Continuamos a falar de valores e de ética; persistimos estabelecendo limites morais para os outros, enquanto apagamos as linhas traçadas para a própria vida. Se a minha felicidade é um direito e a meta suprema da vida, por que devo preocupar-me com as reivindicações alheias quanto à felicidade? E se devo preocupar-me com a felicidade doutra pessoa, com a de quem será? – E por que desta, e não de outra pessoa? Se a vida não tem finalidade, por que a ética deverá servir a algum propósito que não seja o meu próprio? Se sou mero produto da matéria e estou à mercê do determinismo material, por que devo sujeitar-me às convicções morais de alguma outra pessoa?

           Se, por outro lado, sou modelado por Deus para o propósito dele, tenho então necessidade de conhecê-lo e de conhecer o propósito para o qual fui feito, pois é desse propósito que nasce o senso do certo e do errado. Há dois mundos representados nestas opções.

(Pode o Homem Viver Sem Deus?; Ravi Zacharias; Mundo Cristão; pp. 67)

 

Lembro-me de uma mensagem que ouvi num culto do Wheaton College na década de setenta, quando o movimento da Morte de Deus tinha chegado ao ápice. O professor Robert Webber tinha escolhido como tema o terceiro mandamento: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão”. Geralmente interpretamos esse mandamento no sentido mais restrito de não poder usar impensadamente o nome de Deus nas conversas, disse Webber. Ele então continuou e expandiu o significado do mandamento para “nunca viva como se Deus não existisse”. Ou, expresso de forma positiva: “Viva sempre consciente da existência de Deus”. Quanto mais estudo esse mandamento no ambiente do Antigo Testamento, mais concordo com Webber. E, se há uma chave para vivermos nessa consciência, certamente encontra-se no grande legado do Antigo Testamento.

(Philip Yancey; A Bíblia que Jesus Lia; Editora Vida; pp. 29)

 

            A negação de Deus na prática, a teoria do evolucionismo que pretende que o homem é resultado do seu próprio esforço e que vence o mais capaz, a ideia de que viemos do nada e vamos para o nada, que somos um acidente cósmico, está na raiz de toda a confusão ética em que vivemos e de toda a destruição, instabilidade e incerteza que nos rodeia global e localmente.

            No entanto não é suficiente reafirmar a existência de Deus mas conhecê-lO em Jesus Cristo pelo Espírito Santo e na Palavra revelada., como nova criação passando pelo novo nascimento.

Tendo abandonado a Deus e vendo que tanto a razão como a escolha são guias insuficientes nas questões mais profundas da vida, uma solução se torna ainda mais ilusória quando as outras visões do mundo entram para compor o quadro. O muçulmano se sente inteiramente em paz consigo mesmo, universalizando as suas crenças éticas. O marxista fica mais contente ainda, universalizando o seu sonho utópico à custa do indivíduo. Os seus túmulos mostram as convicções dos seus corações. Diante de tudo isso, o existencialista afirma a sua própria escolha como razão suficiente. E assim, pasmados, vemos uma nação com camisinhas atiradas nos adoradores, tumulto e gritos de escárnios à porta das clínicas de aborto, e adultos vitimando menores. E, em nossa busca de moralidade e felicidade que deixa Deus fora, efectivamente perdemos todos os três – Deus, a moralidade e a felicidade.

           Malcolm Muggeridge, aquele jornalista itinerante que viajou pelo globo durante mais de seis décadas da sua vida, disse que, se Deus está morto, alguém terá de ocupar o seu lugar. Ou será a megalomania ou a eteromania, ou o impulso do poder ou o impulso do prazer, o punho cerrado ou o falo, Hitler ou Madonna. A isso eu poderia acrescentar – ou a exploração económica ou a exploração sexual. Muggeridge prosseguiu, acrescentando que perdemos o nosso ponto de referência moral porque nos esquecemos da parte mais empiricamente verificável (embora a mais negada) da experiência humana – a depravação do homem. E Muggeridge estava certo.

           Mas não foi só Muggeridge que postulou esta convicção. Com palavras vividas e evocativas, Iris Murdoch, professora na Universidade de Oxford, Inglaterra, respondeu à obra de Kant, Fundamentos da ética, e ao seu argumento a favor da ética baseada unicamente na razão, sem levar Deus em conta. Disse ela:

Como nos é reconhecível, como nos é familiar o homem tão belamente retratado em Fundamentos, que, mesmo confrontado com Cristo, volta-se para considerar o julgamento da sua própria consciência e ouvir a voz da sua própria razão... Este homem ainda está connosco, livre, independente, simpático, vigoroso, racional, responsável, bravo, herói de tantos romances e de tantos livros de filosofia moral. A raison d’être (razão de ser) desta criatura atraente mas enganosa não é difícil de achar. Ele é produto da era da ciência, confiantemente racional e, contudo, cada vez mais ciente da sua alienação do universo material que as suas descobertas revelam... sua alienação não tem cura... Não é tão longo o passo de Kant a Nietzsche e ao existencialismo, e às doutrinas éticas anglo-saxónicas que de algumas maneiras tão de perto se assemelham a isso [...] De facto, o homem modelo de Kant já tinha recebido soberba encarnação quase um século antes na obra de Milton: seu nome próprio é Lúcifer, personagem central de O Paraíso perdido.

           Terá esta denúncia filosófica alguma diferença em relação ao brado de advertência do grupo de rock King Crimson: “O conhecimento é um amigo implacável quando ninguém aceita as regras; o destino da humanidade toda vejo nas mãos de tolos”? Isso me traz à memória a tocante lembrança de uma reunião recentemente realizada no teatro da comunidade, depois que a cidade de Atlanta tinha experimentado, em toda a sua história moderna um dos meses de maior derramamento de sangue, causado por assassinatos.

           Um após outro, vários daqueles jovens feridos e vitimados levantaram-se e clamaram aos mais velhos e aos políticos, dizendo: “Tragam Deus e a oração de volta às nossas escolas”, enquanto a cidade e os líderes cívicos ficavam a olhar atónitos, à espera de que alguém propusesse soluções socialmente mais aceitáveis. O preço mais alto exigido de uma sociedade que vive sem Deus é pago pelos jovens.

           Sim, há uma relação – uma relação lógica – entre objectivo e ética, entre o propósito da vida e os “deveres” que se impõem, entre Deus e a moralidade.

           O conhecido crítico social Dennis Pragger, em debate com o filósofo ateu de Oxford, Jonathan Glover, levantou esta espinhosa questão: “Professor Glove, se você fosse deixado a pé por volta da meia-noite numa rua deserta de Los Angeles e, ao sair do carro com temor e tremor, de repente ouvisse o som de vigorosos passos atrás de você, e visse dez jovens corpulentos saindo de uma casa e vindo em sua direcção, faria ou não diferença você saber que eles vinham de um estudo bíblico?”

           Em meio a risadas vibrantes de hilaridade, Glover admitiu que faria diferença sim. Claro que faria, porque pode-se ter uma reacção de medo ou tranquilidade diante de um grupo de rapazes evangélicos ou diante de uma quadrilha de assaltantes.

           Dorothy Sayers, teóloga e romancista britânica, faz eco dos mesmos sentimentos no título do seu ensaio Creed ou chaos (“Credo ou caos”). O credo do modernista põe a descoberto a sua bancarrota. Ninguém diz isto melhor do que Steve Turner, jornalista inglês, em Creed (“Credo”), seu poema satírico sobre a mentalidade moderna:

Cremos em Marxfreudedarwin.

Cremos que tudo está bem,

desde que você não prejudique ninguém,

quanto você possa definir prejudicar,

e quanto você possa saber.

 

Cremos no sexo antes, durante

e depois do casamento.

Cremos na terapia do pecado.

Cremos que o adultério é uma brincadeira.

Cremos que a sodomia é correcta.

Cremos que os tabus são tabus.

 

Cremos que tudo está ficando melhor,

apesar da evidência contrária.

A evidência precisa ser investigada,

e não se pode provar nada com evidência.

 

Cremos que há algo nos horóscopos,

nos OVNIs e nas colheres entortadas;

Jesus era um bom homem, como Buda,

Maomé e nós mesmos.

Ele foi um bom Mestre de moral, embora achemos

que o seu bom ensino moral era nocivo.

 

Cremos que todas as religiões são basicamente a mesma coisa

- pelo menos aquela sobre a qual lemos.

Todas elas crêem no amor e na bondade.

Só divergem nas questões da criação,

do pecado, do céu, do inferno, de Deus e da salvação.

 

Cremos que após a morte vem o nada,

porque, quando você pergunta aos mortos o que acontece.

eles não dizem nada.

Se a morte não é o fim, se os mortos mentiram,

Então o céu é compulsório para todos,

excepto, talvez,

Hitler, Stalin e Genghis Khan.

 

Cremos em Masters e Johnson.

O que se selecciona é a média.

O que é a média é normal.

O que é normal é bom.

 

Cremos no desarmamento total.

Cremos que há elos directos entre a guerra e o derramamento de sangue.

Os americanos deveriam fundir as suas armas e transformá-las em tractores,

E certamente os russos os imitariam.

 

Cremos que o homem é essencialmente bom.

É somente o seu comportamento que o faz cair.

É culpa da sociedade.

A sociedade é o defeito das condições.

As condições são o defeito da sociedade.

 

Cremos que cada homem deve descobrir a verdade

que é certa para ele.

Consequentemente, a realidade se adaptará.

O universo se reajustará.

A história mudará.

Cremos que não há verdade absoluta,

excepto esta:

Não há verdade absoluta.

 

Cremos na rejeição dos credos,

E no florescer do pensamento individual.

 

E então o poeta acrescenta este pós-escrito chamado “Acaso”:

 

           Se o acaso

           é o Pai de toda a carne,

           a desgraça é o seu arco-íris no céu,

           e quando você ouvir:

 

           Estado de Emergência!

           Atirador Mata Dez!

           Tropas Avançam com Violência!

           Brancos Vão à Pilhagem!

           Bomba Explode Escola!

 

           É apenas o ruído do homem

           adorando o seu criador.

 

           Com certeza, a esperança do ateísmo move-se inexoravelmente para um caos destituído de credo.

           Nos calcanhares do Iluminismo, o existencialismo estava esperando para nascer. A paixão tornou-se moda, e a decência “o vento levou”. Quando o existencialismo se desgastou, os “desconstrucionistas” desmantelaram tudo o que restava. O livro de Colin Gunton, que segue o existencialismo até o seu fim último, intitula-se pertinentemente Enlightenment and alienation (“O Iluminismo e a alienação”). Não resta nenhum ponto de referência moral que seja coerente e logicamente prescritivo.

           Este é o primeiro ponto de colapso, quando se tenta viver sem Deus. As ramificações são terríveis.

(Pode o Homem Viver Sem Deus?; Ravi Zacharias; Mundo Cristão; pp. 69)

Quando o homem usa a liberdade para menosprezar a Deus, ele está sozinho no mundo. Não obstante, ele tem de enfrentar perguntas decisivas: qual é o propósito da vida? Qual é o bem mais sublime e como pode ser obtido? De que maneira assuntos como moralidade e valores podem ser encontrados? A razão humana, com todo o seu potencial, tem limitações severas. Certamente o homem fez muitos avanços científicos; pusemos o homem na lua e inventamos computadores complicados que podem fazer maravilhas num abrir e fechar de olhos. Somos notáveis e realmente talentosos.

Mas quando se trata de assuntos de máxima importância, achamo-nos incapazes de compreender a realidade que nos cerca. Podemos trabalhar com o observável mundo da natureza e da ciência, mas quando especulamos sobre o que se encontra além de nossas sensações, procuramos por entendimento, às apalpadelas. O estudo científico pode nos ensinar como fazer uma bomba, mas não pode nos dizer se ela deve ser usada ou como deve ser usada.

Considerando que não há maneira de medir a moralidade e a religião por nossas especulações, o homem tem de optar pelo relativismo, a visão de que não há ponto de referência fixo pelo qual a moralidade e as religiões possam ser julgadas. Todas as culturas e, em última instância, todos os estilos de vida, têm suas particularidades e, em grande parte, estão muito além de qualquer avaliação.

Mas não podemos estabelecer valores com base no que realmente promova a felicidade ou o bem geral de todos? De forma clara, como possa parecer, é impossível. Em primeiro lugar, não há consenso do que é “melhor” para o género humano. Para alguns pode não haver acordo quanto ao modo como o “melhor” deve ser alcançado. Acrescente-se a isso o egoísmo do coração humano, e temos de confessar que, se depender de nós, cada um faz tudo “o que parece direito aos seus olhos”, como disse o autor do livro de Juízes.

Nosso problema é que, nas palavras de William James, devíamos tê-lo levado mais a sério quando ele disse que somos “como cachorros numa biblioteca, que vêem os livros mas não sabem ler”. Como vítimas de nossa liberdade autónoma, temos de engendrar nosso próprio significado, buscar nossa própria felicidade e, ainda no fim, ver tudo pelo que trabalhamos ser arrancado de nós na morte. Não admira nem um pouco que alguns pensadores cometam suicídio!

Isto ajuda-nos a entender por que a religião nos Estados Unidos foi particularizada. Quando houve rejeição à Bíblia, a base moral e o conhecimento espiritual ruíram, e a religião foi reduzida a uma questão de opinião pessoal. Cristo pode estar certo para algumas pessoas, o hinduísmo pode estar certo para outras. Ou, preferivelmente, uma mistura dos dois pode ser o melhor para outros indivíduos. Você pode criar sua própria receita religiosa ajustável ao gosto e preferências individuais. Como disse Martin Marty: “As pessoas são exigentes na escolha das verdades, como se estivessem na fila do almoço, até que conseguem a combinação certa”. No fim do dia, todo o mundo está igualmente tão certo quanto o resto do mundo. E aí o intolerante que sugerir que, quando as convicções estão em conflito com alguém, este deve estar errado.

Woody Allen, que justificou sua relação sexual com a enteada, disse: “O coração quer o que quer”. Tal como a moralidade, assim é com a religião – você tem a sua, eu tenho a minha e para nós não há como decidir quem está certo. Aquilo em que meu coração acreditar torna-se certo para mim.

(Erwin E. Lutzer; Cristo entre outros deuses; CPAD; pp. 36-38)

 

            Apesar de tudo o homem relativista não gosta de ser tratado relativamente.

Portugal é um exemplo eloquente com os casos mais mediáticos da pedofilia Casa Pia, Universidade Moderna, Fátima Felgueira, mortalidade rodoviária, etc.

            Onde encontrar o padrão?

Se você não acredita na vida além das vigas do tecto, tem pouco a dizer. Se não há um bem supremo por trás do mundo, então como definimos “bem” dentro do mundo? Se a maioria das opiniões determinam o bem e o mal, o que acontece quando a maioria está errada? O que você faz quando a maioria do grupo diz que não há problema em roubar, atacar, ou mesmo disparar armas de fogo de um veículo em movimento?

           O mundo sem moral do hedonista pode ficar bem no papel, ou soar importante num curso de filosofia, mas e na vida?

(Nas Garras da Graça, Max Lucado, Vida, pp. 37)

 

            A razão não é suficiente para definir o que é bom e mau, certo e errado.

Quero assinalar, ademais, que esta ousada pressuposição, nalgumas formas do pensamento ocidental – afirmando que se pode deduzir a moralidade da razão e nada mais – é precisamente a razão do total rompimento entre o Oriente e o Ocidente. As categorias do certo e do errado, emergindo de um ponto de vista secular, não têm terreno comum com as culturas cujas teorias éticas e políticas são nascidas fora dos seus compromissos religiosos. A desenfreada ira frequentemente descarregada nos países do Terceiro Mundo, assim chamados, contra certas posições do Ocidente, da sexualidade à política, pelo menos deveria alertar-nos de que a “razão”, sozinha, não serve de ponto de “comunalidade”. O que pode ser racional na Índia pode não ser racional na França, e o que pode ser racional na América pode ser “satânico” no Irã.

           Ainda mais inquietador é que o homem ocidental secularizado realmente extrapolou os princípios kantianos e presumiu que, tendo entrado em cena por acaso e sem nenhuma responsabilidade transcendental, ele ainda pode falar ousadamente da razão como objectiva. Seus processos de raciocínio são autorizados por si próprio ou por sua cultura. Sua cultura, por sua vez, é justificada por sua razão – e assim o argumento é um patético círculo vicioso.

           Para o mundo do islamismo, no Oriente Médio, a verdade foi “revelada”; para o mundo do hinduísmo e do budismo, no Extremo Oriente, a verdade é “intuitiva”; para o mundo ocidental, a verdade é “racionalizada”; e para o secularizado homem ocidental, a felicidade pessoal é suprema. Como se pode arrazoar contra a intuição, a revelação e a felicidade pessoal, quando cada uma delas é acompanhada de paixão e convicção proporcionais?

(Pode o Homem Viver Sem Deus?; Ravi Zacharias; Mundo Cristão; pp. 66)

 

            Não se estranhe o facto de não faltarem argumentos e lógicas atraentes ao que vive sem consideração pela vontade amorosa de Deus. Isso não significa que não tenhamos nós também argumentos suficientemente válidos. A questão da ética nem sempre se pode esperar resolver pelo debate ou confronto ideológico, mas pela maneira de viver. Jesus Cristo venceu o confronto com a Sua morte e ressurreição. Em última instância os perdedores segundo o mundo são os ganhadores segundo o Reino de Deus, da mesma forma que a loucura da cruz é mais sábia que a sabedoria do mundo. Todavia não é loucura mas a verdadeira sabedoria. O discurso lógico e racional (não racionalista) tem o seu valor mas é acessório. O determinante é o conhecimento pessoal do amor que Deus nos tem e Jesus demonstrou cabalmente com a dádiva da Sua vida em nosso favor.

 

            A estratégia política tem sido não a de falar verdade e denunciar o que está mal de forma pedagógica mas de minimizar os riscos, como é o caso do chamado “sexo seguro”. Mas não é possível pecar impunemente.

            Uma outra atitude muito frequente hoje em dia e brandida até em alguns programas televisivos como foi o caso de Gregos e Troianos, é a de que se a sociedade aceita isto porque não aquilo, ou seja justificar um mal com outro mal. Caso da legalização do consumo de droga por exemplo.

            Um outro slogan muito aclamado nos dias que correm é o da liberdade. Mas liberdade não é viver sem princípios e valores.

            Normalmente o que acontece na racionalização dos comportamentos que como cristãos são desviantes, só se olha para o prazer desfrutado a curto prazo e na maior parte das vezes numa perspectiva claramente egoísta.

            A estratégia passa pela parábola da “rã na chaleira”, aquecida lentamente acaba por morrer cozida sem se dar conta e reagir.

Liberdade não é fazer o que você deseja, mas fazer o que deveria ser feito.

(EVANS, Tony. Deus é Tremendo. Vida, pp. 209)

            Ainda outra das máximas muito ouvidas é que ninguém tem nada a ver com isso, eu faço o que me apetece. O facto é que nós não somos uma ilha. Tudo o que fazemos afecta-nos. O estado de corrupção gerado pela queda originou uma alienação que torna o homem insensível. A lepra é um símbolo interessante do prejuízo causado pela insensibilidade à dor.

            A televisão, o cinema, as revistas, a publicidade são um dos factores de maior influência neste domínio.

            Os líderes de opinião, as estrelas do mundo do espectáculo tornam-se em referências do pior.

            Como Igreja e como indivíduos somos chamados a apontar para Jesus Cristo e para a Sua Palavra como Deus-Homem que nos reconcilia com o propósito para o qual fomos criados.

            As estatísticas, os estudos sociológicos, psicológicos, económicos, etc. realizados com rigor demonstram que a Bíblia tem razão, e que é muito mais saudável quem os observa devidamente no contexto do amor e da graça divinas.

Haverá uma explicação para Auschwitz, esta assombrosa cicatriz no rosto da humanidade? Acredito que há, e vem de um sobrevivente de Auschwitz, Victor Frankl:

Se apresentarmos o homem com um conceito do homem que não é verdadeiro, poderemos corrompê-lo. Quando o apresentamos como uma automatação de reflexos, como uma máquina mental, como um feixe de instintos, como um joguete de impulsos e reacções, como mero produto da hereditariedade e do ambiente, fomentamos o niilismo (a descrença em todos os valores sociais estabelecidos) ao qual o homem moderno de qualquer forma é propenso. Conheci bem o último estágio da corrupção em meu segundo campo de concentração, Auschwitz. As câmaras de gás de Auschwitz foram a última consequência da teoria de que o homem nada é, senão produto da hereditariedade e do ambiente – ou, como os nazistas gostavam de dizer, “de sangue e pó”. Estou absolutamente convencido de que as câmaras de gás de Auschwitz, Treblinka e Maidanek em última análise foram preparadas não por um ou outro ministério de Berlim, mas, antes, nas escrivaninhas e nas salas de leitura dos cientistas e filósofos niilistas.

           Se nós no Ocidente, vivendo sob a ilusão da neutralidade, insistimos em eliminar os Dez Mandamentos do nosso código moral, talvez possamos considerar uma ostentação estas observações de Frankl. Porém, devemos reconhecer que suas palavras lembram-nos de que o ímpeto para o “holocausto” não veio tanto de uma estratégia militar, e sim da elite educada, despudorada em suas filosofias antiteístas e em suas pressuposições materialistas.

(Pode o Homem Viver Sem Deus?; Ravi Zacharias; Mundo Cristão; pp. 51)

 

            Da pré-modernidade fundada no valor da tradição, à modernidade instalada no primado da razão, à pós-modernidade vinculada à emoção o factor negligenciado e essencial que marca a frustração e o desaire de cada etapa é a REVELAÇÃO. Como cristãos não recusamos nem a tradição, nem a razão, nem a emoção quando estão em sintonia, balizados e depurados pela Palavra de Deus.

Será que os cristãos acreditam haver alguma esperança moral para a nossa sociedade? A maioria de nós oscila entre o pessimismo e o optimismo. No seu livro Generation at Risk, Fran Sciacca relaciona quatro estágios morais pelos quais a sociedade americana passou: “moral bíblica”, “moral não bíblica”, “imoralidade” e “amoralidade”. Esse padrão não é exclusividade da história dos EUA, mas ocorreu também na história do povo de Deus na Bíblia.

           Uma geração é fortalecida pela renovação espiritual e depois passa a buscar a Deus e viver segundo os seus parâmetros porque o ama e confia nele. A geração seguinte é criada com valores morais piedosos e os acata, mas não sabe exactamente por quê – só sabe dizer: “é assim que fomos criados”. A próxima geração se rebela contra aquela moral antiquada e a repudia, pois não há mais razão para observá-la. A geração seguinte fica à deriva, no vácuo de amoralidade, sem sequer possuir lembrança de quaisquer parâmetros morais. E, em virtude da desesperada necessidade das pessoas, surge então um novo avivamento espiritual.

           Em todos esses estágios da sociedade, há pessoas cuja religião é sincera e viva e cuja moral não é apenas uma máscara, mas procede do coração. Um ensinamento vital tanto da fé judaica quanto da religião cristã é que Deus conserva um “remanescente” de fiéis, testemunhando a sua santidade e a sua misericórdia. A partir do testemunho e das orações desse remanescente, pela misericórdia de Deus, vem novamente a renovação espiritual. As pessoas se voltam para Deus. A conduta delas muda, pois são transformadas no íntimo pelo Espírito Santo. A moral é incorporada, e a sociedade se renova porque as pessoas se renovam. Esse é o “reavivamento” que os cristãos esperam e pedem em oração – primeiro espiritual, depois inevitavelmente moral.

(Dale & Sandy Larsen; Sete Mitos Sobre o Cristianismo; Vida; pp. 34)

 

            A multiculturalidade é respeitada em absoluta pela ética bíblica quando enquadrada na realidade dos costumes próprios de cada região.

A falácia do particularismo vem do facto de que Deus não nos tem falado definitivamente sobre todas as coisas. Obviamente não era sua intenção fazê-lo. É um erro o cristão tornar relativo aquilo que Deus fez absoluto. Mas é igualmente errado o cristão tornar em absoluto aquilo que Deus deixou relativo. Como escreveu G. K. Chesterton: “Se existe algo pior do que o enfraquecimento moderno da moral principal é o grande fortalecimento da moral menor”.

(OS GUINESS; O Chamado; Editora Cultura Cristã, p. 110)

 

            Existe uma certa semelhança entre as leis físicas e as leis morais que nos ajuda como elas operam e como as devemos respeitar. É interessante repara como o salmista junta estas duas dimensões da expressão divina (a lei natural e a lei moral): “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo. Aí pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor. A lei do Senhor é perfeita, e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do Senhor são rectos, e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro, e ilumina os olhos. O temor do Senhor é límpido, e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente justos. São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa. Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então serei irrepreensível, e ficarei livre de grande transgressão. As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu!” (Salmo 19).

O Dr. E. Stanley Jones declara que o primeiro nome dos cristãos foi “aqueles que pertenciam ao Caminho” (Actos 9:2; 19:23; 24:22). É claro que a referência é ao caminho da salvação, mas Stanley Jones amplia a ideia, levando-a a significar o caminho de Deus, o modo certo para tudo – o modo de pensar, sentir e agir. É o modo que Deus escreveu na natureza de todas as coisas no Universo, de maneira que a vida se reduz a duas alternativas básicas: aquilo que é o Caminho e aquilo que não é o Caminho. E o caminho cristão sempre é o caminho certo, e o caminho não cristão sempre é o caminho errado.

           Por que acontece assim? Porque Deus impôs ainda outras leis externas sobre nós, como os Dez Mandamentos? Não, porque Deus entreteceu essas leis na estrutura do Universo. O caminho é algo dado, nós não o produzimos, nem o construímos; ele simplesmente está aí, na natureza das coisas. E nós temos de aceitar esse caminho e seus princípios, ou seremos feridos. Assim não quebramos as leis escritas na natureza das coisas; apenas quebramos a nós mesmos sobre elas. Quando caímos de um edifício, não quebramos a lei da gravidade; ao atingir o solo, apenas a demonstramos. E essas leis embutidas são manifestações da graça preventiva de Deus; são barreiras construídas na beira do precipício a fim de impedir-nos de ir adiante. Stanley Jones menciona um cirurgião que confirmou esse princípio: “Descobri o reino de Deus na ponta do meu bisturi. Ele está dentro dos tecidos. O que é certo moralmente, sempre é saudável fisicamente.”

           Tenho usado a ideia do Dr. Jones durante muitos anos em meu ministério de aconselhamento, mostrando às pessoas como o Universo opera ou a nosso favor, ou contra nós. (...) Eu continuava a explicar: “Você pode escolher levar esse caso adiante, mas o Universo não a apoiará. Você está indo contra ele, e ele irá contra você.” (...)

           Ela descobriu o que Stanley Jones escreveu quase meio século antes: “O mal é o contrário da vida. É a vida tentando viver contra si própria. E isso não pode ser feito... é uma tentativa de viver contra a natureza da realidade, e sair ileso. É tentar o impossível. O resultado é inevitável: colapso e frustração.” Este incidente lembra-me um velho provérbio, supostamente usado pelos marinheiros: “Aquele que cospe contra o vento, cospe em seu próprio rosto.”

           (...) Infelizmente, com muita frequência nós temos de aprender da maneira mais difícil, e Deus embutiu o seu aguilhão da graça em todas as coisas da vida. (...)

           Esse “estar contra” o mal encontra-se inscrito em todas as coisas da vida. Quando compreendemos essa realidade, vemos a ira de Deus de modo completamente diferente. Descobrimos que o juízo divino é, na verdade, uma forma da sua misericórdia. Nós o compreendemos como o outro lado da moeda do amor de Deus, manifestado em sua graça restritiva. É um dos caminhos graciosos que Deus usa para nos afastar do pecado, e nos atrair a si mesmo, a fim de nos redimir e restaurar.

(O Poder Curador da Graça, David A. Seamands, editora Vida, pp. 168-170)

 

            A ética é o conjunto de princípios e valores que estruturam o nosso comportamento. “Um conjunto de normas que orientam o comportamento e vivência em sociedade”.

            A Bíblia apresenta-nos um modelo ético.

            A Bíblia inclui não apenas os preceitos divinos, mas também a revelação do carácter divino, a presença de Deus entre nós em absoluta obediência e na unção plena do Espírito Santo e na observância do que “está escrito”, bem como a história prática e concreta com múltiplos exemplos sociais e individuais do cumprimento ou da rejeição dos absolutos divinos.

            Podem existir análises diferentes de apresentar o que a Bíblia nos revela. Isso não pode nem deve diminuir a integridade da Palavra de Deus. É nela e para ela que dirigimos a nossa atenção. Como cristãos evangélicos não podemos deixar de ter na Escritura Sagrada a nossa formação e educação ética. Temos que nos opor à invasão pós-moderna no tratamento da Bíblia considerando que é possível fazer leituras antagónicas e contraditórias do texto da revelação – essa não é a verdade. Quando tal acontece fica a dever-se aos filtros culturais do leitor e intérprete e não da própria obra em si.

 

            A nossa presente proposta de análise da ética bíblica é relacional e pessoal segundo a Bíblia. Uma ética do ser que é em Deus e no Seu amor (a essência divina). Uma ética gerada e alimentada pelo conhecimento de quem Deus é.

            No nosso entender a ética cristã absorve-se e experimenta-se no conhecimento de quem Deus é. Na medida em que conhecemos Deus aprendemos como devemos viver.

Para compreender o fervor moral dos cristãos, os não cristãos precisam entender que a nossa moral começa não por uma lista de mandamentos, mas pelo relacionamento. Em consequência de ter fé em Cristo e de conhecê-lo, é claro que tentamos segui-lo em nossos actos. As suas leis ajudam a segui-lo com maior fidelidade e de maneira mais inteligente. Elas dão uma referência objectiva quando somos assaltados por dúvidas ou desviados pelos desejos. Como nem sempre queremos obedecer a Deus, as suas leis morais evitam que vivamos segundo os caprichos dos sentimentos.

           Sabemos que as leis de Deus são boas, e sabemos também que a nossa ligação com o Deus vivo jamais pode ser estabelecida ou mantida pela lei. Os cristãos sempre se debateram coma tensão existente entre encarar a vida com olhos excessivamente legalistas, de um lado, e encará-la de modo excessivamente compassivo, de outro. Essa é uma luta positiva, provavelmente necessária para a nossa saúde espiritual, mas geralmente é incompreendida pelos de fora.

(Dale & Sandy Larsen; Sete Mitos Sobre o Cristianismo; Vida; pp. 29)

 

            O perdão, o novo nascimento, o arrependimento e a conversão são a esperança que demarca a ética cristã de todos os restantes sistemas éticos:

O que há de cristão na moral cristã? Não podem todas as religiões afirmar que detêm a mesma moral? (...) Outras religiões ensinam o amor, o respeito, a fidelidade, a devoção a Deus, o domínio próprio. Não poderiam mesmo os ateus viver segundo as mesmas boas regras morais dos cristãos?

           A singularidade do cristianismo é o que pode acontecer entre Deus e a pessoa quando ela não vive segundo as boas regras morais, mas fracassa desgradaçadamente e se rebela contra Deus. A singularidade do cristianismo é a oferta de perdão feita pelo próprio Cristo – e paga com a sua morte -, à qual a pessoa de fé corresponde não com esforço mais árduo, mas simplesmente aceitando a misericórdia do Senhor.

(Dale & Sandy Larsen; Sete Mitos Sobre o Cristianismo; Vida; pp. 34)

 

Quando dizemos “Sou cristão”, não queremos dizer antes de tudo que seguimos uma lista de ordens autoritárias deixadas por Jesus. Queremos dizer, sim, que estabelecemos um novo relacionamento com Deus aceitando o seu perdão (assegurado pela morte de Cristo), perdão pelo pecado de não seguir os seus mandamentos. A oração e a meta do cristão durante toda a vida é depender do poder de Deus para tornar-se mais semelhante a ele no seu carácter: “somos transformados”, como escreveu Paulo, “de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2 Co 3:18).

(Dale & Sandy Larsen; Sete Mitos Sobre o Cristianismo; Vida; pp. 35)

 

            Não há outra forma de começarmos a abordar a ética bíblica e cristã senão da mesma forma como a Bíblia começa – em Deus. Mas quem é Deus? Deus ou deuses? Pessoa ou energia? O único Deus que é exclusivo (o que contraria o politeísmo e o pluralismo religioso que está na base do relativismo ético), que  é pessoal (o que se opõe ao panteísmo), que é três Pessoas numa unidade de amor eterno, que criou o homem e a mulher como sua imagem e semelhança, que se tornou homem (o que contraria o deísmo), que se comunica e revela pela palavra na nossa língua e que podemos entender, que morreu para que pudéssemos ser reconciliados com Ele.

            “No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas. Disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. Chamou Deus à luz Dia, e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia.” (Génesis 1:1-5).

            “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João. Este veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele. Ele não era a luz, mas veio para que testificasse da luz, a saber: a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem. Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigénito do Pai. João testemunha a respeito dele e exclama: Este é o de quem eu disse: O que vem depois de mim tem, contudo, a primazia, porquanto já existia antes de mim. Porque todos nós temos recebido da sua plenitude, e graça sobre graça. Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus: o Deus unigénito, que está no seio do Pai, é quem o revelou.” (João 1:1-18).

            “Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão. Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais em baixo na terra; sangue, fogo e vapor de fumo. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” (Actos 2:16-21).

            “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele é como a árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa. Por isso os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores na congregação dos justos. Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.” (Salmo 1).

 

            “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Génesis 1:27).

            Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. “Deus é amor”, diz Deus sobre Si mesmo. O relacionamento na Trindade desde a eternidade é amor. Fomos criados para vivermos e nos movermos nessa dimensão. Não podemos saber de facto o que isso é. Está além do nosso conhecimento experimental. Sentimos quando muito essa vocação quando somos feitos filhos de Deus. Sabemo-lo eventualmente de modo negativo, pela saudade que dele temos. Era assim no Jardim do Éden. O homem vivia em Deus, movia-se em Deus, andava em Deus, respirava em Deus, conhecia em Deus, pensava em Deus. Tinha liberdade e autonomia sendo de Deus.

 

            “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden, para o cultivar e o guardar. E lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (Génesis 2:15-17).

            Esta árvore e este fruto representam muito mais do que aquilo que eu consigo perceber. Eles significam a possibilidade de uma ruptura absolutamente mortífera, uma morte muito mais do que física, uma morte espiritual que nos atinge na essência da nossa imagem conforme a semelhança divina que só consigo entrever no amor divino que é a sua vida e essência.

 

            “Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o Senhor Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morais. Então a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu, e deu também ao marido, e ele comeu.” (Génesis 3:1-6).

            A ofensa ou o pecado dos nossos primeiros pais é mais do que podemos saber ou compreender, ou sentir. Só sabe que não tem depois de ter tido. Podemos saber um pouco pelo desejo e necessidade de ser.

            A desobediência foi insinuada pela dúvida e pela desconfiança de quem Deus é, do que Deus fala em conformidade e das motivações, intenções, propósitos e planos divinos. Deus não é amor nem amável – Ele não é fiável, nem fiel. A Sua palavra foi posta em causa de modo subtil.

            Toda a história bíblica acentua esta desconfiança semeada pelo inferno.

            A revelação de Deus acompanha essa mesma história até ao ponto culminante que o Diabo nunca poderia ter previsto ou admitido, a encarnação de Deus, a humanidade de Jesus Cristo, a morte substitutiva e redentora.

 

            As consequências ditadas e determinadas por Deus do pecado adâmico que Ele mesmo haveria de experimentar pessoalmente (o que Ele ditou para o Homem “ditou” em relação e para Si), são uma manifestação do amor (pela restrição do que o pecado e os demónios poderiam fazer). Todas as implicações da ofensa foram limitadas e a redenção é anunciada.

           

            Depois da expulsão do Jardim Deus não revela princípios de comportamento, sendo que há quem dependa da Sua graça (Abel e Noé) expresso no sacrifício de animais e quem ande com Ele (Enoque).

            “Aconteceu que no fim de uns tempos, trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe do seu rebanho, e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, sobremaneira Caim, e descaiu-lhe o semblante.” (Génesis 4:3-5).

            “A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos: daí se começou a invocar o nome do Senhor.” (Génesis 4:26).

“Andou Enoque com Deus; (...) Andou Enoque com Deus, e já não era, porque Deus o tomou para si.” (Génesis 5:23,24).

“Porém Noé achou graça diante do Senhor. Eis a história de Noé: Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus.” (Génesis 6:8,9).

 

            A condição humana de acordo com a Escritura difere totalmente dos conceitos humanistas de que o homem é bom à semelhança do “bom selvagem” de Rousseau, como se fosse a civilização, a cultura, a educação, a sociedade, etc. que o corrompessem. Hoje assistimos a uma ideia oposta que é a corrupção genética como doença que justifica e explica todas a maldade humana, eventualmente curada quando o homem puder intervir nos genes. A Bíblia ensina que o homem é responsável pelo seu pecado, que pode agir opondo-se a ele, embora não possa regenerar-se por si próprio, pela cultura, pela religião, pela política, pela ciência, pela filosofia, pela arte, etc.

            “Então lhe disse o Senhor: Por que andas irado? e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” (Génesis 4:6,7).

 

            A influência negativa com o seu ponto fulcral no casamento é também registada pelo livro dos começos: “Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filha dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram. Então disse o Senhor: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos. Ora naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade. Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra, e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração; então se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração. Disse o Senhor: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis, e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito. Porém Noé achou graça diante do Senhor.” (Génesis 6:1-8).

 

            A nota da beleza associada à tentação também é referida no caso do fruto da árvore da ciência do bem e do mal como neste caso. Não é que o bom tenha que ser feio, mas que o pecado não tem que ter necessariamente um rótulo feio, antes pelo contrário. A ideia popular de que o que é saboroso e agradável ou faz ou é pecado é desastroso.

 

A violência é a nota dominante depois da queda até à destruição do dilúvio.

“(...) Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou.” (Génesis 4:23).

“A terra estava corrompida à vista de Deus, e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho na terra. Então disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra.” (Génesis 6:11-13).

 

            Depois do dilúvio o único princípio anunciado é o do valor da pessoa humana e da vida. “Certamente requererei o vosso sangue, o sangue da vossa vida; de todo animal o requererei, como também da mão do homem, sim, da mão do próximo de cada um requererei a vida do homem. Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem.” (Génesis 9:5,6).

 

            O exemplo de José (Génesis 37 – 50).

 

            Quando os Dez Mandamentos são dados a Moisés escritos pelo próprio dedo de Deus é no contexto de um íntimo e pessoal relacionamento. Moisés “vê” e fala com Ele “cara a cara”. Os próprios Dez Mandamentos só podem ser entendidos à luz do valor real da pessoa que não pode ser entendido fora da revelação de um Deus pessoal que não pode ser reduzido a uma imagem, a um ídolo, a um objecto manipulável.

            “Então falou Deus todas estas palavras: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egipto, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem, e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado, e o santificou. Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo.” (Êxodo 20:1-17).

            Parece que Deus é muito negativo no que diz, mas o pecado é negativo mesmo e não há como escapar a isso. É preferível que reconheçamos que Deus tem razão face à história e à cruz.

As regras que governam o comportamento funcionam porque, como os nossos ossos, são rígidas.

           A lei moral. Os Dez Mandamentos. Obediência. Fazer o que é certo. Um negativismo desagradável mancha as palavras “não farás” isto ou aquilo, e temos a tendência de considerá-las como opostas à liberdade. Como crente novo, encolhia-me de medo diante dessas palavras. Porém, mais tarde, especialmente depois que me tornei pai, comecei a pensar além da minha reacção imediata à própria natureza da lei. Não são essencialmente uma descrição da realidade, feita por Aquele que as criou? As suas regras governando o comportamento humano - não são elas directrizes destinadas a nos capacitar a viver a melhor e mais satisfatória vida nesta terra?

           Eu não escorrego facilmente para esse tipo de raciocínio. As leis estão encrostadas de elementos culturais que obscurecem a sua verdadeira essência! Elas podem fazer despertar em mim memórias profundamente adormecidas de desaprovação paterna, e em vez disso eu anseio por outro tipo de liberdade – libertação da lei, e não liberdade através dela.

           Contudo, descobri que é possível ver além do negativismo superficial de passagens como, por exemplo, os Dez Mandamentos, e aprender algo acerca da verdadeira natureza das leis. As regras depressa se tornam força tão liberadora na actividade social como os ossos na actividade física.

           Os primeiros quatro dos Dez Mandamentos são regras que governam o relacionamento da pessoa com o próprio Deus: Não terás outros deuses diante de Mim. Não adorarás ídolos. Não usarás erroneamente o meu nome. Lembra-te do dia separado para Me adorar. Quando eu contemplo esses mandamentos outrora restritivos, cada vez mais eles soam como afirmações positivas.

           O que aconteceria se Deus tivesse expressado os mesmos princípios desta forma:

           Eu os amo tanto que lhes darei a Mim mesmo. Eu sou a realidade verdadeira, o único Deus de quem vocês sempre necessitarão. Só em Mim vocês encontrarão tudo.

           Desejo uma coisa maravilhosa: um relacionamento directo e pessoal entre Mim e cada um de vocês. Vocês não precisam de representações inferiores de Mim, como por exemplo, ídolos mortos de madeira. Vocês têm a Mim! Dêem valor a isso.

           Eu os amo tanto que lhes dei o Meu nome. Vocês serão conhecidos como “povo de Deus” em toda a terra. Dêem valor a esse privilégio; não o usem mal, profanando o seu novo nome, ou não vivendo à altura dele.

           Eu lhes dei um mundo maravilhoso para nele trabalharem, divertirem-se, e dele desfrutarem. No entanto, em todo o seu envolvimento, separem um dia para lembrar de onde esse mundo veio. Os seus corpos necessitam de descanso; os seus espíritos precisam dessa recordação.

           Os seis mandamentos seguintes governam os relacionamentos pessoais. O primeiro já é declarado de maneira positiva: honre a seu pai e sua mãe, um mandamento que ecoou virtualmente por todas as sociedades do mundo. E os outros cinco:

           A vida humana é sagrada. Eu a dei, e ela tem um valor enorme. Apegue-se a ela. Respeitem-na; ela é a imagem de Deus. Aquele que ignorar esta verdade e cometer o sacrilégio do homicídio precisará ser punido.

           O mais profundo relacionamento humano é o casamento. Criei-o para resolver a solidão essencial que existe no coração de cada pessoa. Ampliar para várias pessoas aquilo que se destina apenas ao casamento desvalorizará e destruirá esse relacionamento. Reserve o sexo e intimidade para o seu lugar de direito dentro do casamento.

           Eu lhes estou confiando propriedades. Vocês podem possuir coisas, e as devem usar com responsabilidade. Propriedade é um grande privilégio. Para que esse princípio funcione, vocês precisam respeitar o direito de todas as outras pessoas à propriedade; o roubo viola esse direito.

           Eu sou um Deus de verdade. Os relacionamentos só têm êxito quando são governados pela verdade. A mentira destrói contratos, promessas, confiança. Vocês são dignos de confiança: expressem isto não mentindo.

           Eu lhes dei boas coisas, para delas desfrutarem: bois, cereais, ouro, móveis, instrumentos musicais. Mas as pessoas são sempre mais importantes do que os objectos. Amem as pessoas; usem os objectos. Não usem as pessoas por causa do seu amor aos objectos.

           Despidos de qualquer receio, os mandamentos emergem como um esqueleto básico de confiança que serve de elo para as relações entre pessoas e entre o homem e Deus. Deus declara, como o Bom Pastor, que deu a lei como veículo para a vida do mais elevado padrão. A nossa rebelião, do Jardim do Éden em diante, procura levar-nos a crer que ele é o mau pastor cujas leis nos impedem de algo bom.

           Sim, pode alguém responder: os Dez Mandamentos podem ser expressos de forma diferente, para revelar um lado mais positivo. Todavia, por que Deus não os declarou dessa forma? Por que ele disse: “Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás...”?

           Sugiro duas respostas. Primeira, uma ordem negativa é na verdade menos limitadora do que uma positiva. “Vocês podem comer de todas as árvores do jardim, excepto uma” permite mais liberdade do que “vocês podem comer de todas as árvores do jardim, começando com a que está no canto a noroeste, e indo até a extremidade exterior do pomar”. “Não adulterarás” é mais libertador do que “vocês precisam fazer sexo com seu cônjuge duas vezes por semana, entre nove e onze da noite”. “Não cobiçarás” dá mais liberdade do que “eis que estou prescrevendo os limites de propriedade. Cada homem tem o direito de ter uma vaca, um boi, três anéis de ouro...”

           Segundo, o povo ainda não estava preparado para um ênfase em mandamentos positivos. Os Dez Mandamentos representam uma fase de jardim de infância em termos de moralidade; as leis básicas necessárias para o funcionamento de uma sociedade. Quando Jesus veio ao mundo, preencheu o lado positivo. Citando o antigo Testamento, Ele resumiu toda a lei em dois mandamentos positivos: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento” e, “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27). Uma coisa é não cobiçar e não roubar a propriedade do meu vizinho. Outra coisa, bem diferente, é amá-lo de forma que eu me interesse por sua família tanto quanto pela minha. A moralidade deu um salto qualitativo, a partir da proibição para o amor, (Paulo afirmou e desenvolveu este pensamento em Romanos 13.8-10).

           O Sermão da Montanha, pronunciado por Jesus, coloca a pedra de remate em Sua atitude acerca da lei. Ali, Ele descreveu os Dez Mandamentos como um mínimo indispensável. Na verdade eles apontam para princípio mais profundos: modéstia, respeito, não-violência, participação. E então Jesus apresentou o ideal ético-social: um sistema governado apenas por uma lei, a lei do amor. Ele nos conclama a esse ideal. Por que? Para que Deus possa ter orgulho paternal na maneira como a Sua pequena experiência na terra está tendo progressos? Claro que não. Essas leis não foram dadas por causa de Deus, mas por nossa causa. Disse Ele: “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” e “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Mc 2.27; Jo 8.32). Jesus veio para limpar de dentro de nós a violência, a cobiça, a concupiscência e a competição desleal, por amor de nós mesmos. Ele deseja que nos tornemos semelhantes a Deus.

           Os Dez Mandamentos foram o desenvolvimento fetal dos ossos – as primeiras ossificações a partir da cartilagem. A lei do amor é o esqueleto plenamente desenvolvido, liberado. Ele permite movimentos suaves dentro do Corpo de Cristo, pois tem juntas e “dobradiças” nos lugares certos.

           Se você examinar uma lei, como um osso pego ao acaso em uma pilha deles, pode ser que ele pareça ter forma estranha e ilógica, porque as leis, como os ossos, são designadas para as necessidades complexas e interligadas de um corpo inteiro. Por exemplo, como já observamos, a pélvis é uma estrutura de forma estranha. Ele representa um ajuste de necessidades convergentes: andar, proteger os órgãos abdominais, sentar, sustentar as costas, e, no caso da mulher, dar à luz filhos. A sua forma é assim para servir o corpo, e não para dominá-lo. Semelhantemente, as leis de Deus governando o Seu povo são uma combinação de desejos e necessidades humanas conflitantes, e elas são escolhidas para nos permitirem viver uma vida de maneira mais plena e sadia. Deus, conhecendo a nossa fraqueza e debilidade humana, delineou o dogma da nossa fé e as Suas leis para dar força e estabilidade onde precisamos destas qualidades.

           A lei que requer fidelidade sexual no casamento, para muitas pessoas, parece indevida e desnecessariamente restritiva. Por que não permitir intercâmbio, homens e mulheres desfrutando uns dos outros livremente? Nós temos o equipamento biológico para essas actividades. Mas o sexo transcende a biologia; ele está ligado ao amor romântico, à necessidade de famílias estáveis, à geração de filhos e muitos outros factores. Se quebrarmos uma lei, ganhando a liberdade da experimentação sexual, perdemos os benefícios a longo prazo da intimidade que o casamento tem a intenção de prover. Como o meu mineiro galês provou, a remoção de um osso pode arruinar movimentos complexos.

           Tenho conhecido pessoas que se sentiram compelidas a pôr de lado todas as limitações possíveis. São como crianças mimadas, atirando-se de um brinquedo para outro, procurando febrilmente uma emoção mais forte, sem perceberem que a sua busca é na verdade uma fuga. Onde é que essas pessoas param de roubar em seu imposto de renda? A que altura permitem que a verdade venha à tona, diante de um marido ou esposa enganados? Diante de que mentira os filhos delas deixarão de crer em tudo o que eles dizem? As suas vidas tornam-se um emaranhado de engano e medo. Será que tal pessoa tem liberdade?

           Chego à conclusão, com G. K. Chesterton, de que “quanto mais eu considero o cristianismo, mais descubro que embora ele tenha estabelecido regras e ordem, o objectivo dessa ordem foi dar espaço para que as coisas boas aconteçam livremente”. Ele usou o exemplo do sexo: “Eu jamais poderia misturar-me com o murmúrio comum dessa nova geração contra a monogamia, porque nenhuma restrição ao sexo parece tão estranha e inesperada como o próprio sexo... Conservar-se com uma só mulher é um preço tão baixo quanto ver uma mulher só. Queixar-me de que posso casar-me apenas uma vez é como queixar-me de que nasci apenas uma vez. Não tem comparação com a terrível emoção de quem estava falando. Isso não mostra uma sensibilidade exagerada para com o sexo, mas sim uma curiosa insensibilidade para com ele. É tolo o homem que se queixa de não poder entrar no Éden por cinco portas ao mesmo tempo. Poligamia é uma falta de auto-realização em termos de sexo; é como um homem que colhe cinco pêras, tendo a mente completamente ausente do que está fazendo”.

           Um esqueleto nunca é bonito; a sua contribuição é força e função. Eu nunca inspecciono a minha tíbia, desejando que ela fosse mais longa ou mais curta, ou melhor articulada. Eu tão somente a uso agradecidamente para andar, pensando no lugar para onde vou, e não me preocupando com o facto de minhas pernas suportarem o meu peso ou não. Devo reagir também dessa forma aos princípios fundamentais da fé cristã e às leis que governam a natureza humana. Elas são meramente o arcabouço para os relacionamentos que funcionam melhor quando fundamentados em princípios fixos, previsíveis. Indubitavelmente, podemos quebrá-los: adultério, roubo, mentira, idolatria, opressão dos pobres, são males que se insinuaram em todas as sociedades humanas da história. Mas o resultado é uma fractura que pode imobilizar o corpo todo. Os ossos, que têm o objectivo de nos dar liberdade, só nos escravizam quando quebrados.

(As Maravilhas do Corpo; Dr. Paul Brand e Philip Yancey; Vida Nova; pp. 86)

 

            Quando Moisés fala a respeito das gerações futuras fala num contexto não teórico, catequético, moralista e legalista mas relacional e pessoal. Conhecer o Deus do Êxodo, da Páscoa, da Libertação, etc. “Quando teu filho de futuro te perguntar, dizendo: Que significam os testemunhos e estatutos e juízos que o Senhor nosso Deus vos ordenou? Então dirás a teu filho: Éramos servos de Faraó no Egipto: porém o Senhor de lá nos tirou com poderosa mão. Aos nossos olhos fez o Senhor sinais e maravilhas, grandes e terríveis, contra o Egipto e contra Faraó e toda a sua casa; e dali nos tirou, para nos levar, e nos dar a terra que sob juramento prometeu a nossos pais. O Senhor nos ordenou cumpríssemos todos estes estatutos, e temêssemos o Senhor nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como tem feito até hoje. Será por nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir estes mandamentos perante o Senhor nosso Deus, como nos tem ordenado.” (Deuteronómio 6:20-25).

 

            Depois da conquista da terra uma crise espiritual relativa ao conhecimento de Deus instalou-se arrastando uma crise moral sendo que cada um andava e fazia de acordo com a sua própria consciência e sensibilidade. “Naqueles dias não havia rei em Israel: cada um fazia o que achava mais recto.” (Juízes 21:25).

            Mesmo assim existem exemplos de grande destaque espiritual e ético como é o caso de Noemi e da sua nora Rute. “Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe, e me obrigue a não seguir-te; porque aonde quer que fores, irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deu é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e aí serei sepultada; faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.” (Rute 1:15-17).

 

            A literatura bíblica de sabedoria como o livro de Provérbios constantemente apela ao temor do Senhor como princípio da sabedoria, o conhecimento que tem a ver com a vida prática e que a experiência comprova. Não se trata de medo de Deus mas a consciência objectiva e subjectiva da grandeza do carácter e da natureza divina que nos leva à obediência. Quem conhece a Deus sabe que o que Ele diz é a verdade e é o melhor para nós. Ele é o que muda o mal em bem e faz com que todas as coisas contribuam conjuntamente para o bem dos que O amam.

            “O temor do Senhor é o princípio do saber, mas os loucos desprezam a sabedoria.” (Provérbios 1:7).

            “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida.” (Génesis 50:20).

            “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28).

 

            Os profetas em tempos de apostasia falam e apelam ao conhecimento de Deus e não apenas de actos exteriores e formais.

            “Ouvi a palavra do Senhor, vós príncipes de Sodoma; prestai ouvidos à lei do nosso Deus, vós, povo de Gomorra. De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? Diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados, e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as luas novas, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniquidade associada ao ajuntamento solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas: estou cansado de as sofrer. Pelo que, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos actos de diante dos meus olhos: cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas.” (Isaías 1:10-17).

            “Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores da terra! A meus ouvidos disse o Senhor dos Exércitos: Em verdade que muitas casas ficarão desertas, até as grandes e belas sem moradores. E dez jeiras de vinha não darão mais do que um bato, e um ômer cheio de semente não dará mais do que um efa. Ai dos que se levantam pela manhã, e seguem a bebedice, e continuam até alta noite, até que o vinho os esquenta. Liras e harpas, tamboris e flautas, e vinho há nos seus banquetes; porém não consideram os feitos do Senhor nem olham para as obras das suas mãos. Portanto o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento; os seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede. Por isso a cova aumentou o seu apetite, abriu a sua boca desmesuradamente; para lá desce a glória de Jerusalém, e o seu tumulto, e o seu ruído e quem nesse meio folgava. Então a gente se abate, e o homem se avilta; e os olhos dos altivos são humilhados. Mas o Senhor dos Exércitos é exaltado em juízo;  e Deus, o Santo, é santificado em justiça. Então os cordeiros pastarão lá como no seu pasto; e os nómadas se nutrirão dos campos dos ricos lá abandonados. Ai dos que puxam para si a iniquidade com cordas de injustiça, e o pecado com tirantes de carro! E dizem: Apresse-se Deus, leve a cabo a sua obra, para que a vejamos; aproxime-se, manifeste-se o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos. Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que fazem da escuridão luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes em seu próprio conceito! Ai dos que são heróis para beber vinho, e valentes para misturar bebida forte; os quais por suborno justificam o perverso, e ao justo negam justiça! Pelo que, como a língua de fogo consome o restolho, e a erva seca se desfaz pela chama, assim será a sua raiz como podridão, e a sua flor se esvaecerá como pó; porquanto rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos, e desprezaram a palavra do Santo de Israel.” (Isaías 5:8-24).

            “Clama a plenos pulmões, não te detenhas, ergue a tua voz como a trombeta, e anuncia a meu povo a sua transgressão, e à casa de Jacó os seus pecados. Mesmo neste estado ainda me procuram dia a dia, têm prazer em saber os meus caminhos; como povo que pratica a justiça, e não deixa o direito do seu Deus, perguntam-me pelos direitos da justiça, têm prazer em se chegar a Deus, dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o levas em conta? Eis que no dia em que jejuais cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo vosso trabalho. Eis que jejuais para contendas e rixas, e para ferirdes com punho iníquo; jejuando assim como hoje não se fará ouvir a vossa voz no alto. Seria este o jejum que escolhi, que o homem um dia aflija a sua alma, incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si pano de saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aceitável ao Senhor? Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? Então romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda; então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás por socorro, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o dedo que ameaça, o falar injurioso; se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita, então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. O Senhor te guiará continuamente, fartará a tua alma até em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas jamais faltam. Os teus filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os fundamentos de muitas gerações, e serás chamado reparador de brechas, e restaurador de veredas para que o país se torne habitável. Se desviares o teu pé de profanar o sábado, e de cuidar dos teus próprios interesses no meu santo dia, mas se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então te deleitarás no Senhor. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do Senhor o disse.” (Isaías 58).

 

            Neste contexto é interessante verificar que o chamado de Isaías e o seu compromisso surgem na revelação da santidade, da glória, da majestade, da beleza de Deus no Seu trono.

            “No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. As bases do limiar se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça. Então disse eu: Ai de mim! Estou perdido! porque sou homem de lábios impuros, habito no meio dum povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos! Então um dos serafins voou para mim trazendo na mão uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz; com a brasa tocou a minha boca, e disse: Eis que ela tocou os teus lábios; a tua iniquidade foi tirada, e perdoado o teu pecado. Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim. Então disse ele: Vai, e diz a este povo: Ouvi, ouvi, e não entendais: vede, vede, mas não percebais. Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos, e fecha-lhes os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos, e a entender com o coração, e se converta e seja salvo. Então disse eu: Até quando, Senhor? Eles respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, as casas fiquem sem moradores, e a terra seja de todo assolada, e o Senhor afaste delas os homens e no meio da terra seja grande o desamparo. Mas se ainda ficar a décima parte dela tornará a ser destruída. Como terebinto e como carvalho, dos quais, depois de derrubados, ainda fica o toco, assim a santa semente é o seu toco.” (Isaías 6).

 

            O exemplo de Daniel (Daniel).

 

            No Novo Testamento Jesus coloca a ética no mais profundo das intenções e motivações. As bem-aventuranças radicam no ser, na qualidade da pessoa, na natureza, no coração, no íntimo.

            “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo: Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.” (Mateus 5:1-12).

 

            Por esta razão a essência do evangelho consiste no milagre do novo nascimento, ser uma nova criação e uma nova criatura. “Havia, entre os fariseus, um homem, chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este, de noite, foi ter com Jesus e lhe disse: Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele. A isto respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (João 3.1-3). “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas já passaram, eis que se fizeram novas.” (2 Coríntios 5:17).

 

            O mandamento síntese começa com a declaração de Deus como o único Senhor, e depois concentra-se na Sua natureza amorosa. O amor a Deus, o amor a si mesmo e ao próximo. “Chegando um dos escribas, tendo ouvido a discussão entre eles, vendo como Jesus lhes houvera respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o principal de todos os mandamentos? Respondeu Jesus: O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento, e de toda a tua força. O segundo é: amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Marcos 12:28-31).

 

            A expressão do amor necessariamente passa pelo perdão. “Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tão pouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas.” (Mateus 6:14,15).

 

            O amor é expresso pela obediência e a obediência resulta do conhecimento de quem Deus é como amor, santidade e justiça. Conforme escreve Alan Pallister na sua recente obra Ética Cristã Hoje, “onde não há obediência a Deus também não pode haver amor a Deus”.  “Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e no seu amor permaneço. Tenho-vos dito estas coisas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo. O meu mandamento é este, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor: mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer. Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros, e vos designei para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai, ele vo-lo conceda. Isto vos mando, que vos ameis uns aos outros.” (João 15:9-17).

            A ordem expressa de Jesus aos Seus discípulos é: Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, baptizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mateus 28:18-20).

 

            Neste contexto Jesus é conhecido e acusado pelos religiosos legalistas de ser amigo de pecadores e publicanos. “Mas a que hei-de comparar esta geração? É semelhante a meninos que, sentados nas praças, gritam aos companheiros: Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes. Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Tem demónio. Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por suas obras.” (Mateus 11:16-19). O exemplo da mulher samaritana e da mulher adúltera é um exemplo eloquente da forma como Deus trata com o pecador e de como ele se sente na sua presença em contraste com o que acontece com os religiosos que não conhecem a graça divina. “Quanto à mulher, deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: Vinde comigo e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?! Saíram, pois, da cidade e vieram ter com ele.” (João 4:28-30). “Erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor. então lhe disse Jesus: Nem eu tão pouco te condeno; vai, e não peques mais.” (João 8:10,11).

            A história que Jesus contou dos dois homens que subiram ao templo (um fariseu e um publicano) é também significativa. “Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um fariseu e o outro publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta, será humilhado; mas o que se humilha, será exaltado.” (Lucas 18:9-14).

 

            O princípio da ética de Cristo está muitíssimo bem expressa no Seu convite: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mateus 11:28-30).

 

            Tornar-se próximo no serviço aos necessitados sem qualquer excepção é a ética de Jesus.

            “Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas; e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda; então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso e foste ver-me. Então perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso não fostes ver-me. E eles lhe perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo, ou preso, e não te assistimos? Então lhes responderá: Em verdade vos digo que sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer. E irão estes para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna.” (Mateus 25:31-46).

            “E eis que certo homem, intérprete da lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus em provas, e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Então Jesus lhe perguntou: Que está escrito na lei? Como interpretas? A isto ele respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Então Jesus lhe disse: Respondeste correctamente; faze isto, e viverás. Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo? Jesus, prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó, e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se deixando-o semimorto. Casualmente descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente um levita descia por aquele lugar e, venço-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indemnizarei quando voltar. Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então lhe disse: Vai, e procede tu de igual modo.” (Lucas 10:25-37).

            “Ora, antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. Durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus, sabendo este que o Pai tudo confiara às suas mãos, e que ele viera de Deus e voltava para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, e este lhe disse: Senhor, tu me lavas os pés a mim? Respondeu-lhe Jesus: O que eu faço não o sabes agora, compreendê-lo-ás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu não te lavar, não tens parte comigo. Então Pedro lhe pediu: Senhor, não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça. Declarou-lhe Jesus: Quem já se banhou não necessita de lavar senão os pés; quanto ao mais está todo limpo. Ora, vós estais limpos, mas não todos. Pois ele sabia quem era o traidor. Foi por isso que disse: Nem todos estais limpos. Depois de lhes ter lavado os pés, tomou as vestes e, voltando à mesa, perguntou-lhes: Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor, e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, seu eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes. Não falo a respeito de todos vós, pois eu conheço aqueles que escolhi; é, antes, para que se cumpra a Escritura: Aquele que come do meu pão, levantou contra mim seu calcanhar. Desde já vos digo, antes que aconteça, para que quando acontecer, creiais que eu sou. Em verdade, em verdade vos digo: Quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.” (João 13:1-20).

 

            O modo como a Igreja no livro de Actos vive é uma referência tangível e histórica de uma nova sociedade onde a ética do amor está presente pela dinâmica do Espírito Santo.

            “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e das orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos, e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa, e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.” (Actos 2:42-47).

            A recomendação dos apóstolos Tiago, Cefas e João a Paulo é social: “recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer.” (Gálatas 2:10).

 

            Paulo quando ora pelos crentes na cidade de Éfeso ora para que eles conheçam o amor divino. “Por esta causa me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e assim habite Cristo nos vossos corações, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos, ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amem.” (Efésios 3:14-21).

 

            É depois desta oração que se seguem uma séria de recomendações de ordem ética relacional e, incluídas, se faça menção dos ministérios para o crescimento em tudo naquele que é o cabeça – Cristo (seguindo a verdade em amor), o mandamento para o enchimento contínuo do Espírito Santo e finalmente a armadura de Deus para o combate espiritual:

“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só baptismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.

E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo. Por isso diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro, e concedeu dons aos homens. Ora, que quer dizer subiu, senão que também havia descido até às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não sejamos como meninos, agitados de um lado para outro, e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens. pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda a junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efectua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.

Isto, portanto, digo, e no Senhor testifico, que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza dos seus corações, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza. Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, se é que de facto o tendes ouvido, e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e rectidão procedentes da verdade.

Por isso, deixando toda a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros. Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo. Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado. Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e, sim, unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e assim transmita graça aos que ouvem. e não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. Longe de vós toda a amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfémias, e bem assim toda a malícia. Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou. Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, como oferta, e sacrifício a Deus em aroma suave.

Mas a impudicícia e toda a sorte de impurezas, ou cobiça, nem sequer se nomeie entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs, ou chocarrices, coisas essas inconvenientes, antes, pelo contrário, acções de graça. Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus. Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Portanto não sejais participantes com eles. pois outrora éreis trevas, porém agora sois luz no Senhor: andai como filhos da luz (porque o fruto da luz consiste em toda a bondade, e justiça, e verdade), provando sempre o que é agradável ao Senhor. E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as. Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha. Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz. Pelo que diz: Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará. Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e, sim, como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor, com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.” (Efésios 4; 5:1-21).

 

Ainda aos Romanos Paulo reforça a mesma tónica no quadro de princípios de comportamento ético: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, excepto o amor com que vos ameis uns aos outros: pois quem ama ao próximo, tem cumprido a lei. Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor.” (Romanos 13:8-10).

 

            Paulo escreve aos Coríntios acerca do amor que nunca acaba, que permanece e que tudo sem ele é nada.

            “Entretanto, procurai, com zelo, os melhores dons. E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. Porque agora vemos como em espelho, obscuramente, então veremos face a face; agora conheço em parte, então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, e o amor, estes três: porém o maior destes é o amor. Segui o amor, e procurai com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis.” (1 Coríntios 12:31; 13; 14:1).

 

            Aos mesmos coríntios Paulo declara da parte de Deus que é o amor que nos motiva e determina a viver para Ele: “Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.” (2 Coríntios 5:14,15).

 

            Neste mesmo sentido a nossa conduta deve ter em atenção a consciência alheia de modo a não prejudicar, afectar ou destruir a fé do irmão mais débil (o que não sanciona o legalismo através do qual alguns pretendem impor também aos outros os seus costumes). “Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões. Um crê que de tudo pode comer, mas o débil come legumes; quem come não despreze ao que come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem és tu que julgas o servo alheio? para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster. Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente. Quem distingue entre dia e dia, para o Senhor o faz; e quem come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come, para o Senhor não come, e dá graças a Deus. Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor. Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu; para ser Senhor, tanto de mortos como de vivos. Tu, porém, por que julgas a teu irmão? e tu, por que desprezas o teu? pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus. Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo ao vosso irmão. Eu sei, e disso estou persuadido no Senhor Jesus, que nenhum coisa é de si mesmo impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura. Se por causa de comida o teu irmão se entristece, já não andas segundo o amor fraternal. Por causa da tua comida não faças perecer aquele a favor de quem Cristo morreu. Não seja, pois, vituperado o vosso bem. Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a Cristo, é agradável a Deus e aprovado pelos homens. Assim, pois, seguimos as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros. Não destruas a obra de Deus por causa da comida. Todas as coisas na verdade, são limpas, mas é mau para o homem o comer com escândalo. É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar [ou se ofender, ou se enfraquecer]. A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas, é condenado, se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado. Ora, nós que somos fortes, devemos suportar as debilidades dos fracos, e não agradar-nos a nós mesmos. Portanto cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para edificação. Porque também Cristo não se agradou a si mesmo, antes, como está escrito: As injúrias que te ultrajavam, caíram sobre mim. Pois tudo quanto outrora foi escrito, para nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência, e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança. Ora, o Deus de paciência e consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus. Digo, pois, que Cristo foi constituído ministro da circuncisão, em prol da verdade de Deus,  para confirmar as promessas feitas aos nossos pais; e para que os gentios glorifiquem a Deus por causa da sua misericórdia, como está escrito: Por isso eu te glorificarei entre os gentios, e cantarei louvores ao teu nome. E também diz: Alegrai-vos, ó gentios, com o seu povo. E ainda: Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, e todos os povos o louvem. Também Isaías diz: Haverá a raiz de Jessé, aquele que se levanta para governar os gentios, nele os gentios esperarão. E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz, no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo.” (Romanos 14; 15:1-13).

 

            A ênfase Paulina é a graça – amor incondicional não merecido: salvos pela graça para vivermos segundo a mesma graça em fé. “(...) e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus comigo.” (1 Coríntios 15:8-10).

 

            Paulo roga aos crentes em Roma e a nós todos por extensão: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável e Deus que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:1,2). E isto acontece depois de uma exultação (doxologia) sobre a grandeza dos planos e propósitos divinos. Na medida em que nos embrenhamos na glória divina somos impelidos a uma entrega e dedicação absoluta. “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem pois conheceu a mente do Senhor? ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe deu a ele, para que lhe venha a ser restituído? Porque dele e por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amem.” (Romanos 11:33-36).

           

            Na carta aos Romanos Paulo revela que é a recusa do conhecimento do verdadeiro Deus substituído pelos falsos deuses que leva Deus a abandonar o homem às suas paixões: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim  o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são por isso indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seus próprios corações, para desonrarem os seus corpos entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amem. Por causa disso os entregou Deus a paixões infames; porque até as suas mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas, por outro contrário à natureza; semelhantemente, os homens também, deixando o contacto natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo em si mesmos a merecida punição do seu erro. E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia. Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem.” (Romanos 1:18-27).

 

            O apóstolo João escreve a sua primeira carta com uma nota dominante – o amor de Deus e o amor entre os Seus filhos. A sua expressão preferida é “amados” ou “filhinhos”. “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus, e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigénito ao mundo, para vivermos por meio dele. Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou, e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor é em nós aperfeiçoado. Nisto conhecemos que permanecemos nele, e ele em nós, em que nos deu do seu Espírito. E nós temos visto e testemunhado que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus. E nós conhecemos e cremos o amor que Deus nos tem. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele. Nisto é em nós aperfeiçoado o amor, para que no dia do juízo mantenhamos confiança; pois, segundo ele é, também nós somos neste mundo. No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora, temos da parte dele este mandamento, que aquele que ama a Deus, ame também a seu irmão.” (1 João 4:7-21).

            No evangelho que tem o seu nome os discípulos serão reconhecidos pelo amor que têm e manifestam uns para com os outros. Deus amou a humanidade de tal maneira que deu Jesus Cristo para que todos os que crêem n’Ele tenham vida eterna.

 

            Agostinho disse. “Ama e faz o que quiseres”, “Firmeza no essencial, tolerância no acessório, caridade em tudo”.

Quando Santo Agostinho declarou: “Ame a Deus e faça aquilo que lhe agrada”, ele se aproximava do segredo de Deus para se viver a vida cristã. Não querendo ser presunçoso ao corrigir Agostinho, permita-me dizer que ele estava errado. Ele deveria ter dito: “Deixe que Deus o ame de modo profundo e completo, e então faça aquilo que agrada a você.”

           O problema não é “aquilo que nos agrada”. O facto de Deus ter-nos amado tão profunda e completamente tem-nos motivado, como cristãos, a agradar a ele.

(Quando Ser Bom Não Basta, Stephen Brown, Vida, pp. 17)

 

            O conhecimento de Deus é indissociável da Sua Palavra, mas existe um conhecimento da Palavra que não significa conhecimento de Deus porque não é movido pelo Espírito Santo e na intimidade do Pai.

            Conhecer o Deus que diz, que fala.

            Há um conhecimento de Deus (místico e subjectivo) que não alinha com a Palavra e não é verdadeiro conhecimento de Deus.

 

            O conhecimento é indissociável do Espírito pelo qual chamamos “Aba Pai”. “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adopção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Romanos 8:14-16). “E, porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.” (Gálatas 4:6).

 

Mais do que o certo e o errado, conforme ouvi ao Pr. Paulo Júnior, Deus quer que conheçamos e vivamos o que é bom – o certo com a motivação certa (o certo em amor segundo O Espírito).

 

A REFERÊNCIA E O MODELO.

Quero uma referência ética que viva o que disse, morra pelo que afirmou e viveu e vença a morte de tal forma que passados milhares de anos continue inexcedível (ou seja único).

            Perscrutando a filosofia, a ciência, a técnica, as artes, a religião não encontro nenhum candidato. No panorama histórico conhecido só existe um: JESUS CRISTO!

            Como Deus-Homem viveu segundo a Sua natureza sem qualquer contradição, obedeceu ao que determinou como princípios e valores de vida, manteve uma relacionamento absoluto com o Pai e o Espírito Santo, agiu segundo a Palavra (que no fundo é a Sua Palavra). Morreu não podendo negar quem é, no lugar do prevaricador sofrendo as consequências que Ele mesmo havia determinado. Foi abandonado do Pai por causa das nossas ofensas. Confiou no Pai absolutamente confiando-lhe o Seu espírito. Ressuscitou.

 

            DESCULPABILIZAÇÃO. PECADO, CRIME OU DOENÇA.

            Não há explicação mais radical do que o pecado. Mas o pecado não é desculpabilização nem acomodação. Cristo chama-nos à responsabilidade de uma nova vida. Deus ama-nos de forma redentora e libertadora.

            “Vai e não peques mais.” (8:11).

 

            DIREITOS HUMANOS.

            Estão profundamente marcados pela dignidade humana de influência cristã e procedência bíblica, mas acabam por ceder a uma mentalidade egoísta que esquece os deveres. Não há direitos sem deveres.

 

            ÉTICA E POLÍTICA. Justiça social, impostos, ecologia, pena de morte, xenofobia, racismo, terrorismo, guerra, pacifismo.

            A injustiça social é denunciada no Novo Testamento de forma clara e frontal pela pena do apóstolo Tiago: “Atendei agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão corruptas e as vossas roupagens comidas de traça, o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens e a sua ferrugem há-de ser por testemunho contra vós mesmos, e há de devorar, como fogo, as vossas carnes. Tesouros acumulastes nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, e que por vós foi retido com fraude, está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Tendes vivido regaladamente sobre a terra. Tendes vivido nos prazeres. Tendes engordado os vossos corações, em dia de matança. Tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência.” (Tiago 5:1-6).

            Somos mordomos e não donos ou proprietários da terra e dos seus recursos. É nossa obrigação e privilégio guardá-la. Deus tratará com os que destroem a terra revela o livro do Apocalipse. “Graças te damos, Senhor Deus, Todo-poderoso, que és e que eras, porque assumiste o teu grande poder e passaste a reinar. Na verdade, as nações se enfureceram; chegou, porém, a tua ira, e o tempo determinado para serem julgados os mortos, para se dar o galardão aos teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o teu nome, assim aos pequenos como aos grandes, e para destruíres os que destroem a terra.” (Apocalipse 11:17,18).

O Evangelho nunca poderá ser traduzido por um programa político partidário e por um sistema económico qualquer que ele seja, porque o evangelho significa a aceitação livre do amor e da graça divinas, para a transformação que Jesus designou de novo nascimento.

Em certa medida não se pode pedir nem esperar que um não nascido de Deus possa viver segundo o padrão ético bíblico porque ele inicia-se com a nova natureza espiritual que advém desse novo nascimento.

A respeito das autoridades Paulo claramente ensina o dever de obedecer e respeitar as autoridades e que estas devem agir com o temor de Deus. “Todo o homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor quando se faz o bem, e, sim, quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faz o bem, e terás o louvor dela; visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo também pagais tributos: porque são ministros de Deus, atendendo constantemente a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.” (Romanos 13:1-7).

 

ÉTICA E CIDADANIA. Condução, relações humanas.

 

            ÉTICA E TRABALHO. Absentismo, exploração, leis do trabalho, produtividade, a lógica do lucro,  os deficientes.

            O lema é agir na área da profissão tendo os olhos colocados em Deus e em serviço para Ele. “Quanto a vós outros, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus; servindo de boa vontade, como ao Senhor, e não como a homens, certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre. E vós, senhores, de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus, e que para com ele não há acepção de pessoas.” (Efésios 6:5-9).

 

            ÉTICA E NEGÓCIOS. Qualidade, verdade, cumprimento.

 

            ÉTICA E MATERIALISMO.

            “Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me pode fazer o homem?” (Hebreus 13:5,6).

 

ÉTICA E FAMÍLIA. Machismo, feminismo, violência familiar, divórcio, educação dos filhos.

            Amor e submissão são os preceitos bíblicos. Não se trata nem de machismo nem de feminismo. Não se trata de um discurso de poder como força nem de arbitrariedade ou competição. Trata-se de unidade e complementaridade, de igualdade na diversidade.

            “As mulheres sejam submissas a seus próprios maridos, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas a seus maridos. Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar as suas mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama a sua esposa, a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a sua própria carne, antes a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do corpo. Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja. Não obstante, vós, cada um de per si, também ame a sua própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite a seu marido.” (Efésios 5:22-33).

            A relação com os filhos faz-se no mesmo ambiente de amor e de respeito. “Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra. E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor.” (Efésios 6:1-4).

 

            ÉTICA DA VIDA E BIOÉTICA. Aborto, eutanásia, suicídio assistido, inseminação artificial, clonagem terapêutica e reprodutiva.

 

            ÉTICA SEXUAL. Pornografia, pedofilia, homossexualidade, incesto, prostituição, adultério.

            Deus criou o sexo para nossa bênção (prazer e reprodução) no contexto da família entre marido e mulher. “E Deus os abençoou, e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; (...)” (Génesis 1:28). “Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade, corça de amores, e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te com as suas carícias.” (Provérbios 5:18,19). “Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigas debaixo do sol.” (Eclesiastes 9:9). “Digno de honra entre todos seja o matrimónio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros.” (Hebreus 13:4).

            Homossexualidade condenada pela Bíblia de uma forma clara e objectiva: “Com o homem não te deitarás, como se fosse mulher: é abominação.” (Levítico 18:22).

 

            ÉTICA DA SAÚDE. Glutonaria, alcoolismo, toxicodependência(s), tabagismo.

 

 

Samuel R. Pinheiro

Setembro 2003