SÉCULO XX

Da Modernidade à Pós-modernidade

Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.

Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas.

Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

(Mateus 11:28-30)

 

 

A passos largos aproximamo-nos do expirar de mais um século e de mais um milénio. Este século fica marcado por grandes mudanças. O início do século nada tem a ver com o seu expirar nos vários domínios do pensamento e da acção humanas.

 

Iniciado sob o signo da modernidade terminamos sem saber muito bem definir em que situação o homem e a civilização mundial se encontram. As fronteiras foram-se alargando e hoje o mundo é uma aldeia global.

 

            Diante das novas realidades e mentalidade a Igreja não pode ficar prisioneira de uma estratégia filha da modernidade. Em primeiro lugar porque o Evangelho é totalmente contemporâneo e reúne em si todas as potencialidades para continuar a desafiar as novas posturas da cultura dominante e, ao mesmo tempo, continua a ser um sinal de esperança para os que continuam a chegar à conclusão de que não é no esforço humano que podem encontrar as respostas que resistem ao horizonte da eternidade.

 

 

DA UTOPIA AO DESESPERO

            Várias foram as utopias que atravessaram o século XX. Cada uma delas esboroou-se e embora uma parte significativa dos líderes mundiais continue a apresentar fé nas capacidades e potencialidades do homem e dos seus sistemas, essa declaração de confiança não tem os mesmos contornos de euforia que se leram e anunciaram em certos manifestos deste século.

            O comunismo soçobrou e quando poucos acreditavam na eventualidade o muro de Berlim ruiu e o império soviético desmoronou-se; os hippies deram lugar aos yuppies; a ciência e a tecnologia vivem ensombrados pelo buraco do ozono, pela bomba de Hiroshima e Nagashaqui, pelo desastre de Chernobill.

            Em contraste foram surgindo cada vez mais as vozes do desespero e da angústia.

            Duas guerras mundiais foram o suficiente para sacudir a fé no homem e na razão.

 

 

DO RACIONALISMO AO IRRACIONALISMO

A verdade com resultado da revelação de Deus ao homem era um dado fundamental na Idade Média pela influencia do pensamento cristão. O Renascimento tirou Deus do centro da cosmovisão do homem ocidental e colocou nele o homem. Um pouco mais tarde foi o Iluminismo que veio a trazer para o centro da decisão acerca da verdade a razão humana. Deus não tinha sido de todo excluído mas tinha sido retirado do trono e perdido o direito de declarar a verdade. Passou a ser um mero objecto de adorno religioso confinado às quatro paredes do templo.

                Algumas doutrinas filosóficas e políticas foram ainda mais longe e passaram a considerar Deus como a origem e fonte dos problemas dos homens. Deus foi acusado de ser um dos meios através dos quais a emancipação do homem e a sua aspiração à felicidade e à justiça eram sonegados. Deus era um instrumento de alienação. Era preciso de todo em todo acabar com todo o vestígio da religião. Deus era o grande inimigo a abater.

            Daqui até ser decretada a morte de Deus foi apenas um pequeno passo decorrente da lógica prosseguida.

 

 

DO ABSOLUTO AO RELATIVO

            Se por uma lado este século assistiu à morte de Deus e à secularização progressiva da sociedade, o facto é que chegamos ao fim do mesmo com um renovado interesse pela espiritualidade. O ateísmo de Estado ou o consumismo do sistema neo liberal não conseguiram extirpar do coração dos homens a sede e fome de Deus.

            Mas o que hoje prolifera é uma nova espiritualidade. Sem revelação e sem um Deus pessoal e autónomo relativamente ao homem.

            Assistimos a uma religiosidade que é fruto da selecção que cada um faz relativamente ao que calha melhor com o seu gosto pessoal e com as suas pretensões. Pessoas que se dizem cristãos e que acreditam na reincarnação, que consideram que todas as religiões são verdadeiras, que o deus ou os deuses de cada uma delas são uma e a mesma coisa, para não dizer dos que acreditam que ao fim e ao cabo tudo é deus e deus é tudo.

            A religião a que hoje se assiste tem a configuração de um buffet, cada um escolhe o que mais gosta, o que mais aprecia, o que melhor concorre para os seus objectivos. À semelhança do utente da TV cabo que escolhe o programa ou programas que mais aprecia, à semelhança do que o vulgar cidadão faz no centro comercial ou no hipermercado, hoje é prática no domínio religioso e espiritual.

 

 

A GLOBALIZAÇÃO E DEUS

            Depois da rejeição de Deus, depois do homem ter sido colocado no centro, depois de a razão ter sido entronizada, depois de o Estado ter sido considerado a resposta e a salvação para um paraíso terrestre de justiça e igualdade, depois da morte de Deus, o que emerge no fim deste século é tudo e é nada.

            Diante de milhões de informações e apelos ao longo da sua vida o homem contemporâneo não sabe o que decidir e decide sem saber como nem porquê. Vive-se em estado de alienação. Um dos problemas do homem contemporâneo prende-se com a sua sentida incapacidade de lidar globalmente com todo o conhecimento alcançado. A dificuldade de conseguir obter de todo ele uma visão unificadora do homem e da sua situação no universo, da sua existência, da sua origem e do seu destino.

            Diante da globalização o homem sente-se perdido em face do que deve pensar, de quais devem ser as suas convicções, em que deve crer?

            Alguns optam por não crer na impossibilidade de conseguir uma síntese geral ou de estabelecer critérios de selecção. Se tantos crêem de formas tão distintas uma opção será certamente não crer porque diante de todas as ofertas não se têm critérios suficientes para escolher.

 

 

ONDE ESTÁ A AUTORIDADE?  

            O centro hoje está vazio. Quem pode hoje dizer com propriedade o que está certo e o que está errado? O que é bem e o que é mal?

            O homem não serve como autoridade. A hipótese é cada um ser a sua própria autoridade. Mas mesmo assim alguns parecem não acreditar que o sejam ou o possam efectivamente ser.

            No meio desta confusão grassa muita desilusão, muito cansaço, muita opressão espiritual. Não é por acaso que alguns autores se referem à nossa cultura como uma “cultura exausta”.

            É aqui que novamente se ergue com toda a limpidez e com toda a pertinência o convite de Jesus Cristo: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28)

 

 

Samuel R. Pinheiro

Dezembro98