CREIO!

 

            CREIO apesar de tudo e principalmente por causa e na causa de JESUS CRISTO.

            Creio não no escuro, mas na luz que Jesus irradia da Sua própria pessoa.

            Creio não de qualquer maneira, nem por crer ou no crer. Creio de forma exigente sabendo que creio n’Aquele que está muito acima da minha capacidade de entender e discernir, apesar de Se ter tornado à imagem do homem, de se ter auto-restringido embora simultaneamente haja extravasado em muito a dimensão humana como a conhecemos.

            Creio em Deus, porém no Deus único que se mostrou em Jesus Cristo. Creio que Ele é único, porque de Si mesmo o disse e porque não descortino qualquer outra forma de ser superado.

            Creio porque não posso deixar de crer ser Cristo Deus connosco.

            Creio ainda mais concluindo que eu por mim próprio, ou outro qualquer por si mesmo, ou todos nós por nossa capacidade, nunca poderíamos alcançar Deus e saber o que quer que fosse de exacto sobre Ele. Só Deus pode informar-nos sobre Deus. E Ele fê-lo de modo inultrapassável e definitivo em Jesus.

            Por isso não espero nenhum outro. No processo de O conhecer espero-O como prometeu: “Voltarei...”.

           

            Creio porque, conforme escreveu o psiquiatra brasileiro Jorge Cury no seu livro A Inteligência de Cristo, Jesus é “inconstrutível” pela imaginação humana.

            Creio porque, como decalrou o evangélico americano Josh McDowell, na sua obra Evidência que Exige um Veredicto, os textos dos evangelhos são documentos históricos fidedignos que, a serem desconsiderados, obrigariam a pôr em causa todos os registos que suportam o nosso conhecimento da Antiguidade Clássica.

            Creio porque o Jesus dos Evangelhos é o mesmo da História e vice-versa, como não podia deixar de ser. A confusão apenas existe por parte daqueles que à partida não querem admitir sequer a possibilidade da existência de Deus e dos factos. Se Deus existe, Ele pode fazer o que nós não podemos, quando, onde e como quer. Impedi-Lo de ser Deus é fecharmo-nos à evidência e impedir que O conheçamos e creiamos n’Ele.

            Pascal reconheceu e levou-nos a reconhecer que a nossa mente é capaz de verificar a existência duma realidade que a ultrapassa e que por causa disso não deixa de existir. Para crer temos de ser humildes. Para crer temos de admitir que os caminhos de Deus não são os nossos caminhos. Para crer necessitamos de admitir que o sobrenatural invada a nossa História nos termos que Deus mesmo determina e que as nossas limitações impõem.

           

            Creio face às reivindicações de Jesus Cristo sobre a Sua identidade pelas Suas próprias palavras, discurso, ensino, vida e acção sobrenatural. Diante de Jesus sobram-nos só três hipóteses já que não lhe pode de modo algum assentar a do mito ou da lenda. É a isso que o Josh McDowell chama de trilema da identidade de Cristo. Ou Ele foi o maior de todos os mentirosos, ou um lunático ou é efectivamente quem disse ser e demonstrou ser – o Senhor dos senhores. As duas primeiras caem por terra face ao Seu comportamento, às Suas reacções, e finalmente à Sua morte e ressurreição. Suportou a morte de cruz, porque manteve até ao fim as alegações da Sua identidade e ressuscitou como demonstração última da mesma. A Igreja assenta na afirmação de que Jesus está vivo! Se Cristo não ressuscitou a fé é vã, escreveu o apóstolo Paulo.

 

            Creio face à excelência moral de Jesus Cristo e porque nessa excelência nos aceita como somos para, segundo o Seu amor e perdão,  transformar-nos no que Ele sempre sonhou a nosso respeito. Na Sua excelência viveu de forma íntegra até às últimas consequências na cruz. Não abdicou em nenhum momento dos valores e princípios divinos. Creio pela excelência da Sua justiça e amor.

 

            Creio pela excelência das relações humanas de Jesus. Sendo excelente no Seu carácter, comportamento, valores e princípios de acção é o melhor e mais próximo e autêntico amigo de publicanos e pecadores; os marginalizados e desconsiderados do Seu tempo terreno foram a Sua companhia privilegiada. A vida de Cristo era a melhor manifestação do Seu repúdio pelo pecado. Sendo absolutamente santo (ou seja, separado do pecado), atraía a si os que por ele estavam dominados, acendendo-lhes a chama da esperança de um novo começo, uma nova vida a partir de uma mudança radical do coração. Jesus criticou os religiosos pela hipocrisia que patenteavam e pela auto-suficiência que exibiam; por outro lado envolvia-Se e apoiava os publicanos e pecadores quando buscavam o arrependimento e uma nova oportunidade de conversão. O próprio Cristo chamava-os a essa nova oportunidade que veio inaugurar.

 

            Creio pela excelência do Seu ensino simples e acessível ao mais indouto cidadão, todavia profundo e até mesmo insondável para os que eram versados na lei de Moisés. Foi insuperável como Mestre e pedagogo, como comunicador e facilitador da aprendizagem. Conhecia de modo absoluto o coração humano e percebia a linha de fronteira entre a dúvida da mente e a indisponibilidade da vontade para crer.

            Como Contador de histórias (parábolas), ainda hoje causa profundo impacto. Cada uma delas possui uma significativa repercussão na consciência de quem lhes presta atenção e sobre elas reflecte atentamente. Passados dois mil anos estão tão actuais e são tão pertinentes e relevantes como na altura em que foram pela primeira vez proferidas.

 

            Creio pela Sua inteligência superior e arguta que nunca esmagou o opositor, mas que amorosa e frontalmente desvendava os mais profundos recantos do coração humano.

 

            Creio pela Sua sensibilidade inigualável. Nos dias que antecederam a crucificação de Jesus, apesar de consciente do que O esperava, manifestou um cuidado todo especial para com os Seus amigos, preparando-os para os momentos de intensa tensão e dor porque passariam e já na cruz cuidou do amparo da Sua mãe. Até ao que o traiu chamou de amigo, e ao que O negou três vezes acabou por acolher com a meiguice do Seu olhar.

 

            Creio ainda que diante dos quadros da dor e do sofrimento, das catástrofes e das injustiças, da pedra fria e molhada de um túmulo e das guerras fratricidas quando o homem se torna em besta-fera e quando o inferno solta os seus piores dardos.

            Creio mesmo sem respostas absolutas, porque a cruz e a ressurreição são a única alternativa de esperança.

 

            Creio ainda que o silêncio de Deus não seja quebrado. Quero crer como Job: “ainda que Ele me mate”, porque à semelhança de Paulo podemos dizer: “sei em quem tenho crido”. A resposta das respostas não é a filosofia num silogismo qualquer, mas a Pessoa que merece toda a nossa lealdade, confiança e dependência, face a tudo o que fez por nós.

 

Creio porque Ele me ajuda a crer. Sem Ele não seria possível crer. Ele é deveras como diz a Carta aos Hebreus do Novo Testamento: “o Autor e Consumador da nossa fé”. Dependo d’Ele para crer apesar de todas as razões que tenho para crer.

 

Não crer não é alternativa.

Face a Ele só tenho uma resposta – crer. Ele inspira confiança, dependência, obediência, amor, entrega, perdão, restauração, vida eterna...

 

Creio dentro dos mistérios da fé como é o caso da encarnação, porque outra coisa não seria de esperar diante da manifestação pessoal de Deus entre nós. Para que Ele andasse entre nós (à semelhança do que acontecia no Jardim do Éden), era imprescindível a encarnação, de outra forma seríamos fulminados (o que não acontecia com Adão e Eva antes dela).

Creio diante de outros mistérios que parecem encerrar outros tantos paradoxos e que normalmente são expressos da seguinte forma: por que Deus permite? A maior parte das vezes a questão não é da permissão divina, mas do mau uso e abuso da nossa liberdade e da qual continuamos a ser responsáveis. Queixamo-nos de Deus quando nos deveríamos queixar de nós mesmos. Apesar de não entendermos podemos confiar que o Criador merece a nossa confiança ainda que em densas trevas e oculto. Na cruz Jesus nos deu prova disso confiando no Pai enquanto carregava sobre Si o nosso pecado. Se antes de expirar clamou Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste?”, ao expirar o brado de triunfo “está consumado”, foi acompanhado da expressão de confiança absoluta “nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Assim somos também chamados a viver e a morrer.

Creio diante dos mistérios da provisão e da soberania de Deus face às doenças, epidemias, genocídios, violências e injustiças. Deus permite que pessoas nasçam profundamente marcadas pelas consequências da queda porque a Sua glória será rotundamente manifesta na eternidade. Agora vemos em parte, como escreveu o apóstolo Paulo.

 

Creio diante do quadro de um futuro que só Ele está em condições de realizar e que nos envolve mais e mais na construção de um presente que será sempre incompleto e imperfeito até que Ele venha.

Nenhuma obra de ficção, nenhum filme com efeitos especiais poderá superar o quadro escatológico que a Bíblia nos apresenta e do qual Jesus é o protagonista principal.

 

Creio porque Jesus é o elo perfeito entre a eternidade e a eternidade, entre passado, presente e futuro, entre nós e Deus, entre corpo, alma e espírito, entre nós e os outros.

 

Creio porque Jesus é o centro unificador de um universo criado perfeito, afectado pela queda e que será restaurado.

 

Creio porque em Jesus temos a identificação do problema do homem em seu próprio coração e a possibilidade de mudança chamada de novo nascimento.

 

Creio sem qualquer outra opção diante da beleza da personalidade e do carácter, do ensino e da vida, da morte e da ressurreição de Jesus Cristo. Quanto mais O conheço, quanto mais leio acerca d’Ele, quanto mais verifico o que Ele hoje continua a fazer na transformação de vidas, na esperança que comunica, no amor que infunde e até no ódio ou indiferença que alguns nutrem por Ele, mais creio.

Como Pedro a nossa pergunta é “para quem iremos nós?”, como ele dizemos também “Tu tem as palavras da vida eterna”. Não há alternativa a Jesus. Todos os que se têm proposto desqualificam-se diante da Sua singularidade. Ninguém se compara a Ele, nas Suas palavras, nos Seus actos, nos Seus propósitos, nos Seus projectos, nos Seus planos, na Sua morte, na Sua ressurreição, na Sua perspectiva de futuro.

 

Creio. Escolhendo, escolho o melhor. E o melhor é “crer em Cristo”, como escreveu Camões.

 

Creio face à novidade da graça manifesta na dádiva de Cristo. O maior de todos os pecadores é por Ele perdoado, encontra n’Ele o abraço reconciliador e perdoador, com o desafio e a possibilidade alimentada e sustentada de um nova vida.

 

Atrevo-me a dizer que mesmo que fosse mentira, preferia crer nela do que a crer que tudo é nada, que a morte é o que resta, que a vida é um acaso e um acidente, que é a selecção natural ou a luta de classes que governa a História. Não! Ele mostrou que a História é movida pelo amor divino, pela sua justiça e pelo sua santidade. Se ele não existisse ou não fosse quem disse que era, o problema não seria meu mas d’Ele, por não existir! A Sua existência não me demite, mas compromete-me!

 

Creio porque não posso deixar de crer, como para viver não posso deixar de respirar.

 

Creio porque Jesus oferece-me a garantia suprema de que o amor vence a indiferença, a fé o medo, a esperança o pessimismo, a vida a morte.

 

É possível crer. Mas só é possível crer desde que nos disponhamos ao que é maior do que nós, ao que vai além de nós, ao que depende não de nós mas de Quem é maior, mesmo que seja, à partida, mera hipótese.

É possível deixar o cepticismo e abrir-se à fé. Inúmeros exemplos em todos os tempos mostram-nos isso.

Muitas vezes não se crê por ignorância, por falta de informação ou por informação deturpada.

Ao fim e ao cabo todos acabam por crer em alguma coisa ou em alguém, mais que não seja em si mesmos, no Homem, numa filosofia política ou crer no crer, num optimismo ou pessimismo cego.

Prefiro crer em Cristo porque é muito mais exigente e é muito mais excelente. Um crer que encara a eternidade, prescreve amar os próprios inimigos, perdoar setentas vezes sete (ou seja sempre), falar a verdade em amor, importar-se com o outro, servir em vez de servir-se, olhar o homem como criação divina e nunca como objecto a manipular, estar disponível para o próprio sacrifício em vez de agir e decidir em função do prazer a qualquer preço, etc.

O exemplo dos exemplos de uma vida com letra maiúscula é Cristo. Ele não apenas é o exemplo, é a própria Vida.

O único que viveu como Ele viveu. O único que falou como Ele falou. O único que morreu como e porque Ele morreu. O único que ressuscitou como Ele ressuscitou. O único que disse voltaria e enquanto não voltasse estaria connosco na lide de construir o reino dos céus.

 

Como professor há mais de vinte anos considero que é urgente trazer Cristo para dentro da escola, porque nenhum outro pode ensinar as nossas crianças, adolescentes e jovens a viver como Ele. Assim como é urgente trazê-lo para dentro das famílias portuguesas. Mas para isso é necessário deixá-lo entrar na nossa própria vida.

Quando os manuais de ensino encerram as teorias, os pensamentos, as obras dos cientistas, filósofos e artistas de todos os tempos, é preciso resgatar a pessoa de Jesus Cristo, o Mestre dos mestres, do esquecimento. Quando a violência, a droga, o álcool, o suicídio, a promiscuidade sexual, a gravidez adolescente, as mães solteiras, continuam a crescer, torna-se evidente que só uma mudança por dentro pode trazer uma nova visão do que é a vida.

Uma educação assente nos pressupostos que a vida surgiu do nada por mero acaso, acidente ou fatalidade e que a morte e o nada são o que nos esperam, não pode trazer outra coisa senão o que vemos diante de nós. Uma educação que esbarra e cede perante a desculpabilização, que nada mais tem para oferecer do que um labor e um esforço que acaba na morte, que não conhece uma justiça maior do que a que se perde nos meandros do relativismo, que não consegue transmitir absolutos universais e imutáveis a partir de um modelo concreto e histórico, resulta numa geração deprimida que nenhum hedonismo conseguirá manter preso à vida, porque o prazer também se esgota e frustra.

Precisamos de uma educação que contenha mais do que mera informação técnica, científica e artística. Educar para a vida sobre a existência e essência humanas, os valores morais e espirituais, o sentido e o propósito, os realcionamentos connosco mesmos, com os outros e  com Deus. Não há uma educação que se preze que menospreze a dimensão espiritual e moral. Toda e qualquer ética que seja apenas o resultado da opinião de um grupo social acabará por soçobrar. Não há nenhuma razão especial para que a opinião de A seja preferível à opinião de B.

À escola falta cada vez mais um conjunto de elementos estruturantes da existência e essência humanas, como a seguir se enunciam:

 

·                             O homem não é resultado do acaso, não é um acidente do naturalismo.

·                             A dignidade do homem só existe, só subsiste e só se recupera em Deus.

·                             Há um sentido e propósito para o homem que está em Deus.

·                             O ser antes do fazer e do ter deve ser contemplado na formação integral da pessoa humana.

·                             O pluralismo das escolhas e das opções não anula a existência de verdades absolutas, eternas, universais e imutáveis.

·                             O relativismo dos pontos de vista humanos sobre Deus exige a revelação do próprio que necessariamente será absoluta intemporal.

·                             O cepticismo reinante tem as suas raízes na incapacidade do homem de por si só dar resposta à sua essência e existência.

·                             A indiferença é a consequência final de um estilo de vida do qual Deus e a eternidade foram riscados.

 

 

 

Samuel R. Pinheiro