BEM-AVENTURADOS OS PACIFICADORES...

 

“Bem-aventurados os pacificadores,

porque serão chamados filhos de Deus.”

(Ensinou Jesus – Mt 5:9)

 

Os pacificadores têm a sua origem em Deus...

            É a filiação divina que provoca este anseio e esta vivência da paz. A paz da qual Jesus fala tem uma essência e dimensão profundamente espiritual. Sem Deus ela não é possível. Ela desponta da cruz, por ser aí que a hostilidade é vencida pelo próprio Criador ao dar a Sua vida. Parece que se trata de uma derrota e é a maior de todas as vitórias. Por muito que a briga se instale, que a arrogância das culturas e das civilizações se voltem contra Deus, a vitória já foi consumada.

            Citamos aqui o grande pregador inglês Martyn Lloyd Jones que faleceu em 1981, depois de ter ocupado por mais de 30 anos o púlpito da Capela de Westminster, na obra Estudos no Sermão do Monte: “Uma vez mais neste trecho nos é trazido à mente o facto que a concretização da vida cristã, no crente, é algo total e inteiramente diverso de tudo quanto pode ser conhecido pelo indivíduo que é incrédulo. Essa é a mensagem reiterada em cada uma dessas bem-aventuranças, a qual nosso Senhor, como é evidente, procurou enfatizar. Cristo estava estabelecendo um reino inteiramente novo e diferente. (...) nada existe de mais fatal para o homem natural do que pensar que ele pode tomar as bem-aventuranças e tentar torná-las realidades em sua vida. (...) Somente o indivíduo espiritualmente renovado pode viver essa nova vida.”

            A paz que encontramos no ensino de Jesus só pode ser entendida com base na sua essência que é, sem sombra de dúvida, o âmago do ser humano, o seu espírito, o seu coração, a sua natureza espiritual que necessita de uma mudança radical designada de “novo nascimento”, um nascimento da água da Palavra divina e do Espírito Santo.

            A paz que experimentamos em Deus é resultado imediato do perdão dos nossos pecados, proporcionado pelo arrependimento (e pela conversão genuína) expresso diante d’Ele, que conhece todos os recantos do nosso ser. Hoje não se gosta muito das palavras arrependimento e conversão e existem alguns segmentos ditos cristãos e até evangélicos que pouco ou nada falam nelas. Só que não há reconciliação com Deus sem cada uma delas, e o que o homem e a mulher de hoje, à semelhança de todos os outros tempos, precisam mais é de mudança autêntica. O arrependimento e a conversão representam a esperança cristã evangélica. Não importa qual a situação em que alguém possa estar, em Jesus poderá experimentar uma transformação radical.

            Lutero, citado por John Stott no seu livro Contra Cultura Cristã, referiu sobre o Sermão da Montanha em que se insere a afirmação que nos serve de título: “Cristo nada diz neste Sermão sobre como nos tornamos cristãos, mas apenas sobre as obras e os frutos que ninguém pode produzir se já não for um cristão e não estiver em estado de graça”.

            Quando tanto se fala de guerra, de violência, da lei da selva, nunca foi tão evidente a oportunidade para demonstrar que apenas no Deus revelado por Jesus podemos fruir a paz.

            Não nos surpreendemos pelo facto de a História humana pós Éden estar sulcada pela violência, pelo crime, pela guerra. Vamos mais longe ao afirmar que não acreditamos que o homem consiga implantar uma paz duradoura. O que temos visto de uma forma cada vez mais acentuada é o aumento da agressão. Acreditamos que a História continuará a demonstrar que nenhuma força modificará o que a humanidade é por dentro. Nem a política, nem a economia, nem a religião, nem a filosofia, nem a arte poderão conseguir um novo homem, uma nova sociedade, um novo mundo.

            A ideia que a pessoa é boa, sendo o meio ambiente que a estraga, é contraditória com a afirmação bíblica de que o problema do homem está no seu íntimo, no seu coração, na sua natureza espiritual morta (porque separada de Deus). Uma educação sem Deus ou subalternizando-O, escamoteando e subtraindo ao conhecimento a pessoa e ensino de Cristo, manterá e agravará as consequências sociais, morais, éticas, políticas, económicas, psicológicas, emocionais, racionais e físicas do pecado.

            Citamos de novo Martyn Lloyd Jones: “Por que há tantas guerras no mundo? Por que se mantém essa constante tensão internacional? O que há com este mundo? Por que já tivemos duas guerras mundiais só no século XX? E por que essa ameaça de novas guerras, além de toda essa infelicidade, turbulência e discórdia entre os homens? De conformidade com essa bem-aventurança, só existe uma resposta para essa indagação – o pecado. Nada mais, é somente o pecado. (...) A explicação para todas as nossas dificuldades é a concupiscência, a cobiça, o egoísmo e o egocentrismo dos homens; essa é a verdadeira causa de todas as dificuldades e discórdias, sem importar se isso envolve indivíduos, grupos dentro de uma nação ou nações entre si. Por conseguinte, ninguém pode começar a entender o problema do mundo moderno a menos que aceite a doutrina neotestamentária do homem e do pecado, a qual nos é sugerida no enunciado desta bem-aventurança.”

 

Os pacificadores conhecem o Príncipe da Paz...

            Em Deus nós temos a fonte da paz verdadeira e genuína que ultrapassa todas as fronteiras e derruba todos os muros. O abismo de separação entre Deus e o homem foi superado pelo amor divino. Ele veio ao nosso encontro. Encontrou-nos no nosso orgulho enfatuado, na nossa arrogância e rebeldia, na nossa indiferença, na ignorância petulante e idiota. Sofreu sobre Si mesmo todas as consequências eternas dessa condição e agora oferece-nos gratuitamente o que jamais poderíamos conquistar. E isso ofende o pecador, irrita-o porque toca no nervo central da questão.

 

Os pacificadores vivem a paz de Deus...

            A paz tem que ver com o coração de cada homem e de cada mulher, com a sua consciência, com o seu pensamento, com a sua memória.

            A paz tem de começar pela parte de dentro e só depois se espraia e manifesta à nossa volta, com o nosso semelhante, o nosso irmão, o nosso amigo, o nosso inimigo; o conhecido e o desconhecido; o colega e o familiar; o indivíduo da nossa raça ou de raça diferente; o que tem o nosso credo e o que não o tem.

            O teólogo John Stott dá dois exemplos muito interessantes da pacificação: “O trabalho pela união e a evangelização, isto é, procurando de um lado unir igrejas e, de outro, levar pecadores a Cristo. Nos dois casos, a verdadeira reconciliação pode ser aviltada a um baixo preço. A visível união da igreja compete ao cristão buscar, mas só quando tal união não é buscada às expensas da doutrina. Jesus orou pela união do seu povo. Ele também orou que fossem guardados do mal e na verdade. Não temos nenhuma ordem de Cristo para buscarmos a união sem a pureza, pureza de doutrina e de conduta. Havendo uma coisa tal como a ‘união barata’, também há a ‘evangelização barata’, isto é, a proclamação do evangelho sem o custo do discipulado, a exigência da fé sem o arrependimento. São atalhos proibidos. Transformam o evangelista em um fraudulento. Degradam o evangelho e prejudicam a causa de Cristo.”

 

Os pacificadores são artesãos da paz de Deus...

            Como agentes da paz os discípulos de Jesus procuram construir a paz em todo e qualquer lugar em que se encontram. Do seu relacionamento com Deus a paz deve jorrar para a vida pessoal e individual, para o universo da família, da vizinhança, da escola, da fábrica, do escritório.

            Viver a paz não significa concordar com todas as pessoas, com todas as ideias, com todas as religiões, com todas as tradições. O nosso Mestre sempre demonstrou na Sua vida, nos Seus actos e palavras uma perfeita paz, todavia nunca escondeu ou silenciou a verdade. Muitas vezes as Suas afirmações e os Seus actos provocaram e suscitaram a ira dos que O rodearam, mas nem por isso Ele se intimidou.

            John Stott a que já fizemos referência, na mesma obra, afirma: “Cada cristão, de acordo com esta bem-aventurança, tem de ser um pacificador, tanto na igreja como na sociedade. É verdade que Jesus diria mais tarde que não viera ‘trazer paz, mas espada’, pois veio ‘causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra’, de modo que os inimigos do homem seriam ‘os da sua própria casa’. E com isso ele queria dizer que o conflito seria o resultado inevitável da sua vinda, até mesmo dentro da família, e que, para sermos dignos dele, teríamos de amá-lo mais e colocá-lo em primeiro lugar, até mesmo acima de nossos entes mais próximos e mais queridos. Entretanto fica mais do que explícito, através dos ensinamentos de Jesus a seus apóstolos, que jamais deveríamos nós mesmos procurar o conflito ou ser responsáveis por ele. Pelo contrário, somos chamados para pacificar, devemos activamente ‘buscar’ a paz, ‘seguir a paz com todos’ e, até onde depender de nós, ‘ter paz com todos os homens’.”

 

Os pacificadores partilham o Evangelho da paz...

            Com gestos e palavras comunica-se, exprime-se a presença de Deus e da Sua paz em nós. Não há como fugir a esta missão que nos foi apresentada pelo próprio Jesus. A paz começa no que somos para se expressar no que fazemos e dizemos.

            A grande diferença entre a paz que emana da Bíblia e que se encontra nos discursos políticos e religiosos, filosóficos e culturais, reside na sua origem e na forma da Sua operação.

            “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14:27), disse Jesus aos Seus discípulos antes da Sua morte. Essa pz ainda hoje nos alcança.

O apóstolo Paulo, pelo Espírito Santo ensinado, escreveu aos crentes em Filipos: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez vos digo, alegrai-vos. Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor. Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com acções de graça. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus.” (Fp 4:4-7). Indicações que são também para nós hoje. Quanto precisamos delas na prática do dia a dia! Não as percamos de vista. Ao longo destes dois milénios foram mais do que testadas e funcionam. Deus é o seu garante.

 

 

Samuel R. Pinheiro