AS RAZÕES DO CORAÇÃO

 

            Existem todas as evidências necessárias no plano racional e intelectual para que quem quer que seja possa crer.

            Os exemplos não faltam de pessoas de elevado coeficiente de inteligência que partindo do cepticismo e da dúvida, por alguma razão começaram a investigar de uma forma séria o Cristianismo, o Evangelho e a pessoa de Jesus Cristo, e acabaram por se confrontarem com a verdade dos factos fazendo a partir daí a sua decisão, que envolveu necessariamente arrependimento (reconhecimento do erro em que laboravam) e conversão (mudança de pensamento e de atitude).

            Disto mesmo é exemplo o jornalista do Chicago Tribune, Lee Strobel, de quem a editora Vida recentemente publicou os livros Em Defesa de Cristo e Em Defesa da Fé. São duas obras magníficas que fornecem a narração de uma caminhada, em que as interrogações e dúvidas mais intrincadas são abordadas, de forma clara e franca, com respostas honestas e directas.

            Entrevistando alguns dos maiores estudiosos das matérias em causa, o jornalista fornece a todos quantos querem ter uma perspectiva lúcida sobre estas matérias, toda uma reflexão e análise contundentes.

            Mas se as razões da mente são importantes e as perguntas e questões levantadas devem ser na medida do possível satisfeitas, é também verdade que existe outro tipo de razões que importa não ignorar e a que também o Evangelho e a pessoa de Jesus dão uma resposta cabal. Trata-se das razões do coração.

            Não basta ter uma cabeça cheia. Não chega possuir uma lógica consistente. A vida não se faz apenas de ideias, de pensamentos, de raciocínios, de respostas intelectuais. Se o que faz sentido no cérebro não consegue encher e satisfazer o coração, então não convence nem satisfaz.

            Se de facto nenhum raciocínio convence quem não quer ser convencido, ou seja, que as objecções da vontade impedem e invalidam a força dos argumentos intelectuais, também é certo que uma verdade que não toque o coração não preencherá os requisitos suficientes.

            O homem não é apenas intelecto, é outrossim alma, afecto, emoções, sentimentos, vontade.

            Já dizia o filósofo e matemático Blaise Pascal, que existem razões que a razão desconhece. Algumas dessas razões estão incluídas no coração do ser humano.

            Através da Bíblia, Deus dá-nos a garantia que se alguém buscar o Senhor de todo o coração, certamente O encontrará: “Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração.” (Jr 29:13).

            Pergunto qual será a exigência que um ateu ou um agnóstico faz para acreditar que Deus existe e dispor-se a seguir de todo o coração a Sua vontade, sujeitando-se inteiramente a Ele, adorando-O como Ele é digno.

            Pergunto também qual será a reacção de todos os que não aceitaram as evidências disponíveis para acreditar, quando se virem diante d’Ele. Será que vão nessa altura ainda duvidar? Ou, não podendo duvidar, manterão efectivamente a sua incredulidade feita de não O querer, não O desejar, não fazer a Sua vontade, não se sujeitar à Sua pessoa?

            O texto bíblico diz que, por exemplo, o Diabo crê, mas é o chefe de todos os que não O querem.

Neste sentido o Inferno será precisamente o espaço, a dimensão em que encerrar-se-ão todos quantos rejeitam Deus (mesmo acreditando n’Ele, ou seja, sabendo que Ele existe). O lugar em que serão definitivamente separados dos que não apenas acreditam e crêem de forma retórica, mas buscam a Sua vontade e a desejam fazer, apesar de todos os seus falhanços, de todos os seus erros, de todos os seus pecados. Mais do que isso ainda, de todos os que sabem que só através da redenção é  possível ser reconciliado com o Criador e estar eternamente na Sua presença. Alguém que crê em Deus e O busca de todo o seu coração está longe ainda de ser uma pessoa perfeita, o que não é nem pode ser desculpa para um comportamento descuidado.

Um dos sofrimentos do Inferno será ainda não poder fazer mal e causar sofrimento aos que de forma humilde querem viver para Deus e servi-lO.

            Escrevia recentemente um comentador político, social e cultural que “hoje ninguém confia em ninguém”. Não sou da mesma opinião. Isso seria o Inferno e ainda estamos muito longe dele apesar de todas as evidências que nos sugerem o que ele será. Mas o lugar do qual Deus se apartará terá entre outras coisas essa marca terrível: falta de fé e de confiança.

            A transformação de vida é uma das grandes e incríveis evidências do valor da fé cristã, do Evangelho e de Jesus. Passados dois mil anos ainda a mensagem e a pessoa de Cristo continuam a provocar uma mudança interior que não tem rival.

            A certeza da reconciliação com Deus, de se estar bem com Ele, a paz que isso provoca e estabelece é um bem que dinheiro algum pode pagar ou substituir. Uma consciência tranquila diante do Criador dos Céus e da Terra é de importância inigualável. Saber de antemão, e com toda a certeza, que Deus nos ama, nos quer, nos aceita, é fabuloso.

            A convicção da eternidade, a esperança optimista de um futuro maravilhoso e bem-aventurado de onde desaparecerá para sempre o sofrimento, a dor, a morte, a tristeza, as lágrimas, a injustiça, o egoísmo, a arrogância, a vingança, é tremendo. Não trocaria por nada essa perspectiva que o Senhor Jesus Cristo abriu para todos quantos O aceitam e seguem.

            A dimensão espiritual é essencial para a felicidade humana, para os valores que norteiam o comportamento, para a definição do sentido e do propósito da existência. É lamentável que a coberto do laicismo e da secularização, de uma pretensa separação do Estado e da Igreja, com a qual concordamos em absoluto, se pretenda silenciar e abafar, restringir e limitar a divulgação da fé. Levar Jesus a sério é a necessidade primordial do homem contemporâneo, da família, da escola, dos empresários, dos trabalhadores, dos políticos, dos cidadãos.

            O texto bíblico demanda do homem uma atitude de comprovação, de prova, de verificação, de experiência profunda e íntima, de entrega. “Oh! Provai, e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia.” (Sl 34:8). Acredito profundamente que se alguém, de maneira honesta e sincera, buscar a Deus, O encontrará. Tenho sérias dúvidas que no dia do Juízo Final alguém possa levantar-se diante do Todo-Poderoso e dizer: “Eu quis acreditar, mas não pude; eu teria acreditado se pudesse; eu procurei de mente aberta e vontade disponível e não encontrei razões para crer.” O desafio é desafiar Deus: “Eu quero conhecer-Te porque estou disposto a servir-Te, a amar-Te, a adorar-Te.” A síntese dos mandamentos divinos é precisamente como Jesus enunciou: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” (Mt 22:37-40).

            Muitas vezes até pode ser que Ele esteja mesmo ali, bem perto como aconteceu com o discípulo Filipe que encarecidamente pediu ao Mestre: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.” Ao que Jesus prontamente respondeu: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim, vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai que permanece em mim, faz as suas obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras.” (Jo 14:8-11).

            Face a um texto como este e outros muitos não faltam, não é possível duvidar da divindade e da humanidade de Cristo. Ele entre nós satisfaz as razões da mente e do coração. Os factos e as evidências abundam e entre todas elas elevam-se as que interiormente nos dão testemunho acerca de quem Ele é.

            Nestes termos podia expressar-se o apóstolo Paulo e com ele milhões e milhões através da História: “porque eu sei em quem tenho crido” (2 Tm 1:12).

 

 

Samuel R. Pinheiro