A SUPERIORIDADE DE CRISTO

 

Na Bíblia Sagrada está escrito o seguinte através da pena inspirada de S. Paulo: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu um nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Filipenses 2:5-11)

 

            O título é intencional, propositado, consciente e rigorosamente objectivo.

            Sabemos de antemão que vivemos num tempo em que se detesta ouvir falar ou referir a superioridade seja do que for ou de quem for. Vivemos no tempo da relatividade. A palavra de ordem é a nivelação (muitas vezes, infelizmente, por baixo).

            Mesmo assim, e até tendo em consideração os últimos acontecimentos que abalaram e continuam a abalar o mundo, da psicologia às finanças, ressaltam dos comentários e das análises a necessidade de afirmar, com toda a convicção, a superioridade do valor da liberdade e da democracia, face ao totalitarismo e à subjugação; do respeito da vida humana e da tolerância, perante o fanatismo e o fundamentalismo, quaisquer que sejam as cores de que se vistam. Há valores que o são efectivamente e outros que o não são.

            Diga-se desde já, e para evitar mal-entendidos, que afirmar a superioridade de Cristo como pessoa, bem como do Seu pensamento e acção, não é o mesmo que falar da superioridade da cultura ocidental ou oriental de feição ou raiz cristã. Convém ainda ter presente que Jesus é uma figura cujo epicentro terreno está no Médio Oriente e não no Ocidente, precisamente no ponto onde hoje continua a eclodir o confronto ou o encontro das principais religiões monoteístas, que se revêem em referências comuns, mesmo que com leituras muito diferentes e cuja principal diferença reside no que Cristo veio trazer de novo. Por outro lado, actualmente em dia Jesus é uma figura universal e não propriedade de nenhuma religião, até porque Ele próprio não se deixou aprisionar por qualquer delas que já existiam em número suficiente no Seu tempo.

Em tempo de globalização ou mesmo sem ela, cada cultura é um cadinho de múltiplas influências. Em cada uma delas encontramos elementos positivos e negativos e nenhuma pode considerar-se acima das demais. Muito temos a aprender com todos e com cada um. A multiculturalidade é uma exigência da nossa humanidade a que o próprio cristianismo não é estranho, se é que não terá de ser reconhecido como um dos seus propulsores.

Historicamente os seguidores de Cristo procedem das mais diferentes culturas e tradições, que não necessitaram de negar a sua matriz cultural. Todos sabemos de outros exemplos trágicos, mas que numa análise imparcial não podem ser assacados à substância cristã, todavia a outros interesses e ambições mascarados de piedade.

            No mês em que se celebra o Natal, mesmo de feição meramente consumista, comercial ou tradicional, convirá voltarmo-nos por uns momentos para a figura que está na sua origem.

            Quando consideramos a figura de Cristo, não podemos deixar de ficar impressionados com as Suas próprias afirmações sobre Si mesmo. Ao que parece, nenhum outro teve a veleidade de dizer sobre a sua pessoa o que Jesus falou sobre Si.

            A superioridade de Cristo, é necessário dizê-lo, é-o sui generis. Se não vejamos:

 

            SUPERIORIDADE NA HUMILDADE. É inerente à leitura das palavras de Cristo que a Sua “origem” situa-se além da condição humana. De tudo o que Jesus disse e realizou, apenas é possível extrair uma conclusão, que não sendo abraçado por todos, é a firme e esclarecida convicção da maioria – a Sua divindade.

            De Deus a Homem (e não de homem a deus – a diferença é significativa), o gesto é uma marca essencial no conhecimento e no relacionamento com a divindade. Deus não é uma coisa ou uma energia, não é um estrangeiro, não é um Ser longínquo e indiferente ao estado e condição humana. Ele faz parte da nossa História, conhece os meandros e acidentes da nossa existência.

 

SUPERIORIDADE NO AMOR. Todo o conteúdo dos Evangelhos é um hino de exaltação ao amor que nada tem a ver com o conceito sensual e erótico que passa pelas telenovelas. Este amor é conjugado na solidariedade, no envolvimento e na ajuda. Toda a Sua mensagem e vida é um incitamento a viver contra o egoísmo e a indiferença.  Sendo contra o individualismo, é um apelo a que cada um pessoalmente viva de modo diferente, independentemente da maneira como os outros vivem ou como as estruturas sociais estão montadas.

A globalização tende a aumentar a tendência para considerar que o destino do mundo e da história está nas mãos de um número reduzido de estadistas e empresários, ou seja da política e da economia. Somos induzidos a pensar que o motor da história é a competição, o poder, a capacidade económica. Sobrevivem os mais capazes e mais fortes. O resto não conta. Pelos olhos, pela boca e pelo ser de Cristo somos levados a pensar de uma forma diferente, mesmo que na contracorrente do que vemos. Jesus assegurou-nos que o motor da história é o amor incondicional.

O facto é que dos Seus contemporâneos que na altura eram considerados os maiores, apenas subsiste uma vaga memória contemplada nos anais da história, e Cristo está presente na vida íntima, na consciência, nos valores e na dinâmica de milhões de pessoas individualmente consideradas e das culturas a nível global, certamente mais numas do que noutras, mas em grande parte delas.

            Num tempo em que a pessoa humana e o ser está em queda na bolsa da cultura, a mensagem e a postura de Cristo poderá parecer estranha e soar a esquisito. O mesmo aconteceu há dois mil anos. Defendemos a tese que o conteúdo do pensamento e da pessoa de Jesus nunca se realizou em época alguma, e que destoa de toda e qualquer cultura. Daí também que esperamos com toda a convicção alicerçada nas Suas próprias palavras, uma nova era em que ela ocorrerá plenamente e é para isso que hoje continuamos a trabalhar, embora com a certeza de que ela só sucederá em função da Sua intervenção pessoal.

 

            SUPERIORIDADE NA ACEITAÇÃO. Há dois mil anos atrás, face às referências do isolamento religioso legalista ou à prepotência das legiões romanas, Cristo dirigiu-se a todos sem distinção, tocando a vida dos mais desprotegidos e trazendo a esperança e um novo projecto de vida aos desamparados.

 

            SUPERIORIDADE NO SERVIÇO. Uma das marcas da mensagem e da actividade de Cristo é o serviço em clara dissonância com o projecto de poder que existia nos círculos políticos e religiosos. Se admitirmos a Encarnação, não podemos negar de modo algum que temos n’Ele o exemplo supremo de abnegação e que isso muda necessariamente o nosso conceito acerca de Deus. Temos dúvidas que o exemplo de Cristo possa ser interpretado única e exclusivamente à luz do humanismo, pois à luz do texto dos Evangelhos essa leitura é impossível.

            Quando na cena internacional se degladiam posições estribadas em princípios religiosos, torna-se urgente olharmos para o que Cristo nos demonstrou sobre quem Deus é.

 

            SUPERIORIDADE NO SACRIFÍCIO. A existência física e terrena de Cristo terminou numa cruz que de um símbolo de ignomínia, vergonha e derrota se tornou num símbolo de vitória e esperança. A dedicação da própria vida em favor dos outros (sem quaisquer distinção), com um intuito salvífico, tem impulsionado ao longo da história todo um cortejo incontável de homens e mulheres que viveram para ajudar o próximo. Deles não conhecemos o nome nem a biografia. Fica-nos a certeza de que não são anónimos diante de Deus e é por causa deles, talvez muito mais do que por causa dos grandes e poderosos da política, da economia e da guerra que ainda podemos respirar.

            Não que para, o Evangelho, Jesus se tenha tornado um mártir, mas isso sim, Salvador. A diferença é fundamental.

            O Natal não pode ser dissociado do sacrifício da cruz; sem ele fica vazio e apenas romântico.

 

            É fácil de ver que esta superioridade, conjugada e articulada desta forma, não pode proporcionar da parte dos seguidores e discípulos de Cristo qualquer atitude de arrogância perante quem quer que seja. A superioridade que vemos em Cristo só pode fazer despertar em nós uma atitude semelhante de humildade, amor, aceitação, serviço e sacrifício. Quando tal acontece Natal é todos os dias, como diz o poeta.

            Num tempo de superficialidade em que Deus é tido como supérfluo e desnecessário, o Natal foi pervertido pela sociedade de consumo precisamente nisso. Bem vistas as coisas face ao consumismo e desperdício torna-se urgente voltar a tomar a sério não apenas os valores da superioridade de Cristo, mas a Pessoa que está por detrás deles. Se há um traço marcante na biografia de Jesus Cristo é a constante referência ao Seu ser. A declaração “Eu sou” perpassa todo o Seu discurso e acção. Se por um lado o discurso assinala, na Sua própria boca, essa identidade singular e exclusiva, por outro lado a acção é apresentada como um sinal da mesma. É neste enquadramento que somos convocados a viver o Natal. É este o Natal a festejar, com o ser e com a acção, nos relacionamentos e nos afectos, com gestos e atitudes, muito mais do que com o ter e o parecer.

Samuel R. Pinheiro