A SUBSTÂNCIA ESPIRITUAL

DO (combate ao)TERRORISMO

 

            “Derrubadas como castelos de cartas em cerca de hora e meia numa catástrofe que arrastou para a morte três milhares de pessoas, as Torres Gémeas do World Trade Center foram, no dia 11 de Setembro de 2001 (...), alvo da maior e mais mediática operação terrorista de todos os tempos, que envolveu também a destruição de uma parte do edifício do Pentágono, nas imediações de Washington, sede do Departamento de Defesa e centro vital do complexo militar-industrial americano. ‘O dia em que o mundo mudou’ tornou-se uma expressão consensual frequentemente utilizada para definir o ocorrido nessa data.” (Visão, n. 496, 5 a 11 Setembro 2002, p. 55).

 

                “Novo atentado contra o mundo – Explosão em Bali, na Indonésia, faz centenas de vítimas.” (Público, 14 Outubro 2002).

 

“Drama em Moscovo – Cerca de 30 dos 50 elementos do grupo terrorista checheno liderado por Mosvar Barayev que na quarta-feira da semana passada, dia 23, pela 21 e 30 (hora local, mais três que em Portugal), ocupou o teatro Dubrovska, em Moscovo, fazendo reféns os 800 espectadores do musical Nord Ost um quarto de hora após o início do segundo acto, entraram no edifício desarmados, misturando-se com os espectadores sem qualquer problema, apenas com o bilhete na mão.” (Visão, 31 Outubro a 6 Novembro 2002).

 

As notícias sucedem-se, atropelam-se e esmagam-nos. O medo avoluma-se. A globalização do terror é tão evidente como a económica.

            Existem múltiplos factores que podem ser adiantados e os analistas não se cansam de nos lembrar os dados sociais, religiosos, culturais, políticos e económicos. Em cada um deles e antes e depois de todos eles, no meu entender, está bem vincada a dimensão espiritual.

            O novo milénio arrancou com a marca indelével do terrorismo cego, obscurantista, fundamentalista e intolerante. A guerra e a violência assumiram de um momento para o outro, numa escalada galopante, novos contornos e definições. O inimigo não tem rosto ou, se o tem, esconde-se, dissimula-se, multiplica-se, irrompe inesperadamente semeando a destruição, a morte, o sofrimento, a revolta e o sentimento cada vez mais enraizado da impotência e da incapacidade.

Trata-se de um opositor com o qual não é possível dialogar, de que não se conhece o caderno reivindicativo, o programa, o ideal, as propostas e a alternativa. O que se semeia é apenas a morte e a destruição. Nada mais! Ele pode surgir de onde menos se espera, de alguém cuja imagem social nunca faria prever semelhante comportamento e motivações. Nem a própria família desconfia. Um só indivíduo, a partir de uma rede secreta, pode matar milhares de pessoas.

            Depois das redes do tráfico de droga que trouxeram e continuam a trazer a dependência, a degradação, a ruína, a morte ainda em vida e a doença, eis que uma nova vaga cavalga as nossas cidades.

            A essência e a estratégia terrorista tem um paralelo evidente na natureza e acção satânicos pelo desprezo absoluto pela pessoa humana, pela forma encoberta com que se manifesta e actua. Jesus denunciou esta situação de uma forma muito sugestiva estabelecendo o contraste com a Sua própria forma de agir: “O ladrão só quer roubar, matar e destruir. Mas eu vim para dar vida, e com abundância.” (Jo 10:10 – tradução O Livro).

            Em termos espirituais, tanto no domínio político, como económico, cultural, social e religioso, precisamos voltarmo-nos para a figura de Cristo, para o modelo que Ele representa, para o que nos veio revelar acerca da natureza divina.

            A vertente religiosa pode até não ser a dominante da motivação terrorista, porém a ideia de Deus é essencial neste panorama. Se o século XX foi marcado pela cruzada ateísta identificada no comunismo, o século XXI assiste a uma outra cruzada em que uma certa forma de entender Deus e de O servir é evidente.

Para mim é sintomático que este fenómeno tenha o seu principal epicentro num contexto religioso em que os dois principais contendedores são monoteístas que recusaram desde sempre a figura de Jesus como o Príncipe da Paz, Deus feito Homem; e que se agite em torno de Jerusalém que, etimologicamente, significa cidade da paz.

O amor, a graça e o perdão são elementos fundamentais e essenciais na pessoa de Cristo, sem os quais não há qualquer esperança para a sociedade. A sua recusa empurrará a humanidade cada vez mais para um inferno que desemboca no lago que arde com fogo e enxofre. O próprio Deus, na forma humana, não agiu pela força e pela violência impondo à humanidade a Sua santidade justa e amorosa, mas sujeitou-se à cruz, depois de um julgamento vergonhoso. Desde o Velho Testamento o Senhor dos exércitos celestiais declara: “não pela força, nem pela violência, mas pelo meu Espírito” (Zc 4:6).

O juízo divino, segundo o que Paulo revela no primeiro capítulo da sua Carta aos Romanos, reside no facto de Deus entregar progressivamente o homem a si próprio. Na medida em que o Criador vai permitindo que as maquinações do coração humano e da sua condição pecaminosa se manifestam e tenham livre curso, é o terror que se instala.

Esta continua sem dúvida a ser a oportunidade de a Igreja assumir essas grandes verdades da natureza divina que Jesus manifestou entre nós, e que cada ser humano necessita experimentar para conhecer a verdadeira humanidade como imagem e semelhança divina. Se a negação de Deus empurrou o homem para a ditadura e os cristãos para o martírio, uma ideia errada acerca de quem Deus é e do que Ele pretende, cria a mesma realidade.

Só em Jesus temos o verdadeiro e genuíno rosto de Deus.

Mas se isto é uma verdade insofismável do ponto de vista bíblico, não é menos verdade que o próprio cristianismo ficou e ainda hoje é presa da idolatria, do misticismo mariano, do legalismo da tradição que pode ser romana ou qualquer outra. É na Bíblia e só nela que podemos encontrar a genuína e autêntica revelação do Criador.         

É muito possível que depois dos regimes políticos ateus ditatoriais e do monoteísmo fundamentalista religioso venha a surgir um politeísmo sincretista, um panteão onde se pretenda fazer crer que tudo é a mesma coisa. Talvez a ciência, a política e a religião se conciliem na ideia de um deus energético com múltiplos rostos e nomes, responsável pela origem da vida, da inteligência, da consciência; enfim da evolução que continuará a prometer um paraíso sem expiação e sem novo nascimento porque o pecado é negado.

            O combate ao terrorismo faz-se principalmente pela proclamação do evangelho de perdão, de graça, de reconciliação com Deus, de salvação, de vida eterna, da soberania de Deus e da Sua justiça que não é operada pela força humana.

 

 

Samuel R. Pinheiro