“A RELIGIÃO TEM ACOMPANHADO

A EVOLUÇÃO DA SOCIEDADE?”

 

RTP1 ANTES DO SÉCULO XVI

            A RTP1 no programa Prós e Contras, no dia 21 de Abril último, abordou a questão que nos serve de título.

            Ficámos a saber pelo menos que a Televisão pública ainda se encontra antes do século XVI, porque ao que parece desconhece o movimento espiritual desencadeado na Europa, conhecido por Reforma, e que foi determinante para a evolução político-social que ainda hoje vivemos. Ao ter convidado do lado religioso dois representantes da Igreja Católica Romana e um representante da comunidade islâmica, uma vez mais ficou patente a pobreza que paira nos critérios jornalísticos da televisão pública paga com o dinheiro de todos nós contribuintes. A discriminação continua!

            Foi constrangedor ao longo do programa como tanto se fala da Igreja (como se no País continuasse a existir apenas uma entidade que pode carregar legalmente esse título), como se falava das igrejas (não se sabendo muito bem a quais se estavam a referir).

            Apesar de não termos assistido ao programa na íntegra, o que vimos foi suficiente para constatarmos o “analfabetismo” que paira em muitos ilustres académicos e a tentativa politicamente correcta de agradar a “gregos e troianos”.

            Percebe-se a dificuldade em convidar algum protestante ou evangélico para representar o ponto de vista bíblico e reformado sobre os temas em apreço, diante das incongruências e inconsistências da igreja maioritária no país. Continua-se a querer tapar o sol com a peneira e a escamotear uma abordagem sólida e objectiva da doutrina bíblica, tal como ela nos vem exposta. É o debate e o diálogo que sai afectado. É a televisão pública que presta um péssimo serviço ao público. Mas adiante...

 

QUE EVOLUÇÃO?

            O modo como a questão se apresentou ao debate e à sondagem do público é, logo à partida, tendenciosa. Parte-se do princípio que há uma evolução na sociedade. A pergunta essencial, pertinente e relevante, é a que evolução se está a fazer referência. Estamos perante uma evolução ou uma “involução” social? Estamos perante um progresso ou um retrocesso? Quais os critérios que usamos para medir e avaliar essa evolução? Ou a evolução é apenas mudança sem qualquer sentido e apreciação valorativa?

            Quando se parte do pressuposto da evolução da sociedade está-se a falar de evolução científica, tecnológica, política, ética, cultural? Em cada um desses campos onde é que ficam os factos da poluição, das guerras, dos genocídios, do hedonismo, do relativismo, do materialismo, do humanismo desumano, etc. Será que podemos classificar de evolução o aborto, a pedofilia, o suicídio assistido, a eutanásia, a clonagem, o divórcio, a violência familiar, a pornografia, o abuso sexual de crianças, etc.?

            Nesse sentido tem a religião de acompanhar essa evolução ou deveria ser um travão a ela?

            Dando a entender que a sociedade tem uma evolução positiva, pese todas essas realidades negras que a atravessam, com que objectivos se pretende deixar no ar a ideia de que a religião é retrógrada, ficou para trás e é um travão a esse processo?

 

RELIGIÃO E SOCIEDADE

            Como evangélicos preferimos não confundir Cristo com a religião. Partimos do pressuposto claro que a religião é resultado da acção humana, da sua imaginação, do seu pensamento, da sua criatividade , ou seja, o esforço humano para tocar o divino algumas vezes e outras da tentativa humana rebelde para substituir o genuíno rosto de Deus pelos falsos deuses e ídolos. Leia-se a este propósito o que Paulo diz no seu discurso no Areópago em Atenas perante os filósofos epicureus e estóicos (Actos 17), e o que escreve aos cristãos em Roma (centro cultural e político do Império durante a Igreja primitiva), na sua carta aos Romanos capítulo um.

            Assim sendo é óbvio que as religiões fazem parte da sociedade e com ela comungam da mesma dinâmica. Não fará pois muito sentido colocá-las em oposição para não se correr o risco de pensar a sociedade como laica, agnóstica, não religiosa, secularizada e a religião como uma entidade exterior à sociedade.

            Sociedade e religião, religião e sociedade fazem parte de um todo na sua diversidade. Não há uma só sociedade, ou não há uma sociedade média, tida como normal ou tipo. A sociedade é constituída por pessoas e grupos com posições diferentes, motivações diferentes, culturas diferentes, pontos de vista diferentes, valores e princípios morais e espirituais diferentes.

            A lei vigente na sociedade democrática é resultado das tendências maioritárias na sociedade em cada uma das facetas da sua vida, sejam elas a política, a familiar, a empresarial, a cultural, a moral ou a ética.

            A religião ou as religiões, melhor dizendo, participam na dinâmica social e não é admissível que se pretenda manipular a opinião pública de forma a que se considere que de um lado temos a sociedade civil, laica e secularizada, e do outro a religião como se estivesse fora da sociedade e a sociedade fora da religião.

            A própria ideia do Estado laico, no nosso entender, deve ser criteriosamente avaliada, não vamos dar aso a que o cidadão venha a pensar que os seus valores tenham que ser construídos à margem da dimensão espiritual e religiosa. O Estado laico que defendemos pela separação entre este e uma determinada hierarquia religiosa, é constituído por homens e mulheres cuja fé está intimamente ligada ao exercício da sua cidadania. Qualquer ideia de que o cidadão enquanto tal vive e move-se à margem das suas convicções religiosas, éticas, morais e espirituais, é absurdo.

 

CONTRACULTURA CRISTÃ

            Enquanto cristãos evangélicos não temos qualquer inibição em envolver a nossa fé na coisa pública, política, social, económica, cultural, etc., e também nos próprios textos bíblicos desde sempre nos é claramente referido que entre o mundo e a igreja existe um abismo de separação.

            Citamos alguns textos a propósito:

·        “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.” (1 João 2:15-17).

·        “Sabemos que somos de Deus, e que o mundo inteiro jaz no maligno.” (1 João 5:19).

·        “Visto como pelo seu divino poder nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos das paixões que há no mundo.” (2 Pedro 1:3,4).

·        “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora actua nos filhos da desobediência.” (Efésios 2:2).

·        “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo.” (Gálatas 6:14).

            Convém aqui ressalvar que também nós não confundimos o mundo com a sociedade. Biblicamente o mundo é a estrutura que se pode identificar dos valores e acções que se opõem à natureza divina e aos Seus propósitos.

            Se confundíssemos a sociedade com o mundo teríamos que dizer que como cristãos não fazímos parte da sociedade o que seria um contra-senso. Efectivamente fazemos parte da sociedade e outra coisa não seria pensável, queremos estar cada vez mais integrados e intervenientes nela em todos os seus níveis. Ao mesmo tempo temos o nosso compromisso com Cristo, com a Sua palavra e com a Sua missão, separa-nos do mundo.

            Podemos desta forma e a partir da cosmovisão cristã considerar que na sociedade encontramos dois grandes pólos: o mundo e o reino de Deus. A nossa função na sociedade é sermos sal e luz, isto é, causarmos uma influência que consideramos à luz do Evangelho como saudável e essencial para o seu progresso.

            É que nós avaliamos o progresso à luz do ensino de Jesus Cristo, embora também  saibamos que não é possível traduzir o cristianismo num código ético ou numa constituição ou legislação. O Evangelho é muito mais do que isso não nos cansamos de o repetir, porque é o poder de Deus para salvação de todo o que crê. A mensagem de Cristo dirige-se ao coração do homem, para uma transformação radical designada de novo nascimento.

            Este facto não invalida que a constituição e as leis de um determinado país não possam e não devem ser influenciadas, na medida do possível, pela cidadania activa dos cristãos. Quer isto dizer que quando um cristão evangélico é chamado a participar nos processos democráticos da sociedade em que estamos integrados, ele tem a obrigação de o fazer segundo critérios pautados pela sua consciência à luz da verdade bíblica.

Também significa e implica, no nosso entender, que quando participamos num determinado acto eleitoral, num referendo ou numa sondagem, o nosso voto não é pautado pelo direito de cada um fazer o que quer, como se a lei existisse para garantir a todos a sua vontade própria, porque então não seriam necessários esses actos e isso seria a negação pura e simples da democracia. Temos o dever de votar não ao aborto, não à eutanásia, não ao suicídio assistido, não a tudo o que fere a nossa consciência formada à luz da Palavra de Deus. Não temos sequer que pedir desculpa por pensarmos como pensamos, embora sempre o devemos fazer em linha com o amor, a misericórdia e a gentileza. Mas nenhuma destas virtudes significa aquiescência ao pecado.

É nosso dever compreender e aceitar todas as pessoas quaisquer que sejam as suas práticas, mas é também nosso dever denunciar o que destrói o homem e arruina a sua felicidade do ponto de vista cristão. Faz parte do nosso ideário incentivar, apoiar e até mesmo tomar a iniciativa de criar as instituições que podem ajudar a que ninguém se sinta abandonado e coagido pelas circunstâncias, a uma prática que não quer, como é o caso do aborto ou da eutanásia. Mas acreditamos que muitos dos argumentos que invocam razões económicas são meros pretextos, desculpabilizações e racionalizações. Deus sabe e a Ele não podemos nunca enganar! Enganamo-nos quando fingimos, porque o pecado sempre destrói o pecador! Não é possível pecar impunemente.

            Neste sentido não nos admira nada que sejamos, por alguns sectores da sociedade da qual fazemos parte, considerados retrógrados (que não acompanhamos a evolução da sociedade – que não consideramos como tal), quando não subscrevemos o aborto, a infidelidade conjugal mesmo com o chamado sexo seguro (que de seguro tem bem pouco ou quase nada, para não dizer nada), a eutanásia, a clonagem, o suicídio assistido, etc. Tais epítetos não nos roubam a cidadania de pleno direito, nem nos excluem da sociedade, nem nos obrigam a despirmo-nos do que cremos enquanto cidadãos.

            O teólogo evangélico John Stott escreveu um livro sobre o Sermão da Montanha intitulado “Contracultura Cristã” que é uma das pérolas da interpretação e aplicação prática deste ensino de Jesus para o sociedade contemporânea. Trata-se de uma obra que todos nós fazemos bem em ler e que não substitui a nossa própria reflexão sobre o discurso de Jesus, devidamente aplicado à nossa vivência espiritual, social, familiar, cultural, ética e moral. Nesta mesma orientação escreveu o apóstolo Paulo na sua carta aos Romanos (12:2): “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

 

A SOCIEDADE ACOMPANHOU A “EVOLUÇÃO” DO PENSAMENTO CRISTÃO?

            Infelizmente quão longe a sociedade dita cristã, ou pós-cristã ocidental, dois mil anos depois, se encontra do ensino de Jesus Cristo, das Suas propostas e desafios.

            Para nós não é o cristianismo que tem de evoluir com a sociedade, mas é a sociedade que deve ser impregnada dos valores cristãos para que possa progredir.

            Como seria diferente a nossa sociedade, as nossas escolas, as nossas empresas, o nosso parlamento, o nosso governo, as nossas autarquias, as nossas igrejas, enfim cada um de nós como cidadão, como pai, como estudante, como profissional, se observássemos os princípios de amor, perdão e serviço que Cristo nos mostrou e viveu. Como seria tudo bem diferente se a graça pautasse cada uma das nossas motivações, dos nossos actos e das nossas palavras.

            Sempre que assim aconteceu as misérias e os vícios sociais, dos grupos e dos indivíduos caíram. Veja-se os casos da escravatura, do racismo, do apharteid, da dignidade da criança e da mulher, dos direitos dos homens, da pena de morte, etc. Mas quanto há ainda para fazer? Quanto precisamos ainda de prestar atenção ao que Cristo ensinou?

            É necessário todavia entender que tudo isso não faz qualquer sentido fora do novo nascimento, da transformação espiritual no íntimo, a mudança no coração, a acção divina na natureza humana corrompida pelo pecado. Sem esta acção sobrenatural propiciada por Cristo na Sua morte expiatória, não atingimos o âmago da questão.

            A planificação estratégica do Mestre foi e continua a ser: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomais sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mateus 11.28-30).

 

Samuel R. Pinheiro