A LEI DA SELVA

 

            A política e a economia a ela intimamente ligada, dela dependente e dela também decorrente, é demasiado complexa para que de uma forma superficial nos possamos expressar.

            É necessário que como cristãos evangélicos possamos analisar e reflectir sobre o que esta realidade representa para todos nós, porque afinal de contas não há como deixar de ser e agir politicamente e a política também tem uma dimensão espiritual que não podemos nem devemos ignorar.

            A consciência política faz parte da nossa cidadania e convém que amadureçamos as nossas perspectivas de tal modo que no tempo próprio possamos intervir visando uma sociedade mais justa. “Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas.” (Isaías 1:17).

 

A ditadura do lucro

            Quando o lucro dita as regras nas empresas sem ter consideração pelas pessoas e pelas famílias que representam, não importa a dedicação, o esforço, a capacidade de produção, a qualidade do trabalho produzido. De um momento para o outro um alguém sem rosto decide deixar centenas de trabalhadores na rua e partir em busca de um mercado em que os salários sejam mais baixos, o horário de trabalho seja maior, o poder reivindicativo e as exigências das condições sejam menores e os subsídios para a implantação voltem a sorrir.

            Pode até acontecer que a empresa tenha os seus lucros porque os números nunca são publicitados de modo transparente, o que importa é ganhar mais, mais, mais. Esta tendência insaciável faz-nos lembrar o que escreveu o profeta Isaías, no seu livro profético, no primeiro testamento da Bíblia: “Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra!” (Isaías 5:8).

 

O monstro da corrupção

            O que é que aconteceria a este país se todos os que devem ao fisco pagassem?

            Se foi possível ao actual governo melhorar substancialmente os resultados finais a partir da adesão do perdão fiscal, que segundo lemos não ultrapassou os vinte por cento, sendo que os restantes assumem um valor muito superior; qual seria o impacto na economia se todos os devedores acertassem as suas contas. Isto já para não falar de todos os que acabam por não declarar o que deviam.

            De certa forma instalou-se uma certa mentalidade na cultura portuguesa do “salve-se quem puder”, o que acaba por nos afundar a todos, porque não há segurança social e sistema de saúde (pelo menos), sem uma economia saudável.

            O que nos espanta é a impotência e incapacidade revelados pelo Estado de impor e controlar devidamente a fuga ao fisco, e o incumprimento do pagamento dos valores declarados. Quando não existe consciência social, não há sistema judicial que consiga pôr cobro às habilidades e expedientes que se inventam para contornar a lei. Numa entrevista recente sobre o estado da justiça o Procurador Geral da República, Souto Moura, referia que “o que é preciso em Portugal é uma mentalidade mãos limpas”.

            É salutar para a sociedade ter a convicção, devidamente fundamentada, que as entidades competentes actuam sobre os que agem à margem da lei em benefício próprio, em vez do interesse de todos.

            A justiça deve ser pronta e célere.

 

“Descida aos infernos”

            A lei do lucro nos meios de informação, particularmente na televisão, continua a desfiar o seu cortejo de tristes consequências. As autoridades alarmam-se, embora a indignação passe depressa e não provoque quaisquer alterações. A estratégia assumida pelo anterior governo de procurar na auto-regulação um forma de conter os ímpetos da concorrência, na exploração do mau gosto e da degradação da pessoa humana e das instituições, não resultou. Também não era difícil imaginar que assim sucederia.

            O que confrange é que o Estado parece impotente para estabelecer e controlar os limites do que é admissível. A democracia acaba por ser um salvo conduto para o que os poderosos podem fazer. O fantasma da censura que a revolução dos cravos ao que parece não conseguiu exorcizar, acaba por ser uma justificação para permitir a violência, a pornografia, as perversões.

            A este propósito escrevia-se recentemente na imprensa diária: “Em democracia nada justifica a tese de um director de cadeia de televisão, para quem o facto de apresentar programas cada vez mais medíocres corresponde aos princípios da democracia, ‘porque é o que as pessoas esperam’. Nestas circunstâncias só nos resta ir para o inferno.” Isto mesmo escrevia Karl Popper no livro “Televisão: Um Perigo para a Democracia”. (...) numa coisa estará Popper certo: o inferno é o nosso destino. E o que é o inferno, em democracia? É a perda absoluta de identidade, a descrença irredimível nas instituições, a transformação dos instintos mais primários em regra social, o primado do “circo” sobre a justiça.” Os termos são fortes e se fossem escritos por evangélicos seriam tidos por fanáticos e fundamentalistas, mas a verdade não deixa de o ser por causa dos lábios que a proferem. O alerta está lançado! Se não houver vontade e determinação para fazer o que precisa ser feito, enterrar a cabeça na areia não é solução.

            Cada um de nós como telespectador é tão responsável quanto os produtores do já chamado “telenojo”, ninguém nos pode obrigar a ver o que não presta. Não esqueçamos que o que entra, acaba por sair, mais cedo ou mais tarde!

 

Sexo e negócio

            Uma notícia recente deixou-me estupefacto e repugnado. Um tentáculo mais do mesmo polvo: “Foi desmantelada recentemente a maior rede criminosa de exploração de pornografia infantil nos EUA, a Landslide Productions, Inc. Com sede no Texas, a rede abastecia-se de pornografia produzida tanto no mercado americano, como na Rússia e na Indonésia, por exemplo. O negócio consistia na posse e divulgação junto dos subscritores de materiais e ‘sites’ onde apareciam crianças em actos sexuais. Número de subscritores: 250 mil. Lucros atingidos: 1,4 milhões de dólares por mês. Custo de assinatura/mês – 70 euros. Também se dedicava à transmissão de violação de crianças em directo, através da Internet, num ‘site’ designado ‘child rape’.” (Jornal Público, 12.12.2002)

            Até onde se pode ir nesta saga desumana? O livro do Apocalipse, último da Bíblia, deixa-nos entrever a loucura deste comércio quando refere: “e até almas humanas” (Apocalipse 18:13).

 

O comércio da morte

            Recentemente numa conferência sobre direitos humanos ouvia a um dos mais prestigiados líderes políticos do país que uma parte substancial da economia mundial (cerca de 40%), assentava no dinheiro sujo do tráfico de armas, da droga e do sexo. Acrescentava ainda que se porventura estes três factores fossem desmantelados, o sistema soçobrava. Não sei se a declaração é caricatural ou não, uma coisa é certa, cada um desses negócios é nefando.

            Como é que é possível viver na opulência à custa da morte, da desgraça, do sofrimento e da miséria de milhões de pessoas?

 

A lei do amor e do serviço

            Por detrás deste estado de coisas está um sistema enfermo de onde emana uma filosofia egoísta e indiferente, à qual se opõe a mensagem do evangelho de amor e serviço.

            O modelo evolucionista é um reflexo e/ou arrastou modelos sociais, políticos, culturais e económicos afinados pelo mesmo diapasão: a lei do mais forte.

            As diferenças, segundo o evangelho, não deveriam ser a base das desigualdades e da injustiça, mas da solidariedade.

 

O que fazer?

Entre Davos e Porto Alegre qual é a nossa opção? A globalização neoliberal ou a globalização socializante? A fome no mundo alastra e o esbanjamento de uns poucos também! Sinceramente sou de opinião que apesar de ser nossa obrigação pressionar na medida do possível os “senhores” da economia mundial, é muito mais fácil e com efeitos imediatos estender a mão ao nosso vizinho, tornando-nos próximos dele.

                É interessante a conclusão do inquérito que foi presente em Davos sobre a opinião dos cidadãos a nível mundial sobre os seus líderes e sobre o rumo das coisas nos mundo actual: “(...) a confiança nas instituições recua em todo o planeta e os seus líderes são vistos com mais cepticismo do que há uma ano, sendo ainda menos credíveis que  as entidades à frente das quais se encontram. Esta sondagem também revela que diminuiu a crença de que o mundo evolui na direcção certa. (...) apenas os líderes das ONG merecem a confiança da maioria dos inquiridos para lidarem com os desafios dos próximos 12 meses. Seguem-se os líderes da ONU e os líderes espirituais e religiosos, com quatro em cada dez cidadãos a depositarem neles a sua confiança.

Na China existe um trasbordante optimismo quanto à direcção em que o mundo está a evoluir, explicável pelo fortíssimo desenvolvimento económico que o país tem registado nos últimos anos. Os chineses são, no entanto, a excepção. Em mais nenhum dos restantes 14 países se encontrou uma maioria de interpelados que concordassem com a afirmação de que o mundo caminha na direcção certa.

(...) 49 por cento dos inquiridos escolheram a honestidade como característica mais importante na determinação da sua confiança nos líderes. A visão surgiu em segundo lugar (15 por cento), seguida da experiência (12 por cento) e pelo intelecto (dez por cento). A compaixão foi considerada a menos importante destas cinco características (cinco por cento)

Quanto aos factores que mais contribuem para que a desconfiança surja em relação aos líderes, “não fazem aquilo que dizem” foi a opção de 45 por cento dos sondados. O egoísmo foi referido por 28 por cento, seguindo-se o secretismo (11 por cento) e a arrogância (oito por cento). As falhas de carácter foram consideradas o menos importante dos factores geradores de confiança (cinco por cento).

(São cada vez menos o s que acreditam que o mundo caminha na direcção certa, Jornal Público, 23.1.2003)

            O cidadão comum que procura ter uma vida pacata e honesta, sente-se a maior parte das vezes impotente e incapaz de alterar o estado de coisas.

            Quando algumas vozes chegam a referir que a guerra contra o Iraque pode ser movida essencialmente por interesses económicos ligados ao petróleo, qualquer que seja o nosso parecer acabamos por sentir que não temos os dados suficientes para fazer um juízo razoável. Mas nós sabemos que Deus sabe e embora isso não nos iniba e exima de ter e exprimir a nossa opinião, dá-nos a certeza de que chegará o tempo em que o Criador trará todas as coisas à luz.

            Pessoalmente não acreditamos que o mundo tenha concerto mediante a acção de homens e mulheres “desconcertados”, e nem mesmo através da Igreja que, segundo cremos, tem um papel determinante enquanto “sal e luz” (Mateus 5:13,14). A solução virá através da segunda vinda de Jesus Cristo conforme a Sua promessa que com expectativa esperamos não de braços cruzados, mas envolvidos de corpo e alma com o nosso tempo e as suas necessidades espirituais, morais, sociais, económicas, políticas e culturais.

 

Chamada ao arrependimento

            A palavra não é popular nos dias que correm. Será que alguma vez o foi? Porém ela implica que há esperança, que é possível mudar, mas não haverá mudança sem vontade de mudar. A realidade é que sem arrependimento só o abismo espera inexoravelmente o indivíduo e a sociedade. A proclamação de Jesus há dois mil anos atrás começou precisamente aí: “Daí por diante passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.” (Mateus 4:17).

            Como cristãos evangélicos sabemos que o pecado, tenha o nome que tiver, não ficará impune, ele alberga em si um salário inevitável. A missão que nos foi confiada é alertar o homem para a sua condição e ser uma gente do Espírito Santo, para sacudir o coração e a mente dos que nos rodeiam, tendo em vista a alternativa que de Deus temos recebido em Cristo Jesus. O sentido e o propósito da vida não podem ser conjugados com o ter. O consumo não consegue matar a sede de ser que se agiganta dentro de cada homem. Só o Criador nos pode satisfazer.

            Em vez de seguir na corrente da cultura materialista e hedonista há que avançar com o estilo com o novo modelo de vida que os evangelhos nos apresentam.

            Nesta dinâmica os discípulos de Cristo são chamados a viver com outras referências onde o dinheiro faz parte do propósito redimido, porque para abençoar os outros. Dar é o dom de adquirir uma riqueza eterna que nem a traça nem a ferrugem podem consumir. Assim o exprimiu Jesus: “Mais-bem-aventurado é dar que receber.” (Actos 20:35). Esta citação do apóstolo Paulo aparece num contexto muito específico que indica a natureza do exercício profissional: “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer aos necessitados (...)”.

           

 

Samuel R. Pinheiro